Segurança nas escolas: pais e gestores trabalhando juntos?

Especialistas defendem gestão participativa para impedir que a violência chegue aos colégios do país. Entenda mais sobre esse processo

Rafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 17/10/2019 13:13


A segurança pública é uma demanda social cobrada das autoridades por todos os brasileiros, inclusive pelos integrantes da comunidade escolar. O massacre na Escola Estadual Raul Brasil (foto em destaque), ocorrido em março deste ano na cidade de Suzano (SP), é um exemplo extremo de violência que pode ocorrer dentro e fora das salas de aula. O uso de tecnologias como a biometria e a instalação de câmeras de segurança e detectores de metal nos colégios são providências parcialmente efetivas no combate à violência no perímetro escolar, na avaliação de especialistas. Segundo eles, o caminho mais eficaz para garantir mais segurança às unidades de ensino do país é investir na gestão participativa, promovendo o diálogo entre pais, estudantes, professores e demais servidores.

De acordo com o presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa), Luis Claudio Megiorin, a preocupação com a segurança mobiliza tanto escolas públicas quanto privadas. Ele afirma que, enquanto há subnotificação dos casos ocorridos em colégios, especialmente os relacionados à venda e ao uso de drogas, situações de brigas e insultos são fartamente disseminados pelas redes sociais. “O que está para fora do muro da escola se reflete dentro da unidade”, observa.

Megiorin aponta certo distanciamento entre as famílias e os colégios, visto que muitos pais consideram a escola como a única responsável pela educação de crianças e adolescentes. “Há pais que não assumem a responsabilidade e a terceirizam para a escola”, critica. “O gestor não consegue dar conta de tudo”, pondera. 

Ambiente inseguro
Os dados sobre violência nas instituições de ensino não são divulgados frequentemente e englobam só uma parte do universo escolar. A pesquisa Repensar o Ensino Médio, realizada pelo movimento Todos pela Educação, com apoio do Itaú BBA e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), concluiu que segurança é a maior exigência de estudantes do ensino médio brasileiro.

Um estudo da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), em parceria com o Ministério da Educação e a Organização de Estados Ibero-americanos (OEI), apontou que 42% dos alunos da rede pública do país são vítimas de violência verbal ou física. De acordo com 70% dos entrevistados, há registro de algum tipo de violência na escola onde estudam. Na maioria dos casos, os próprios colegas são os agressores, mas há alunos que acusam professores de agressão.

A recíproca também é verdadeira, conforme o ranking de violência nas escolas elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com mais de 100 mil professores e diretores de escolas do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio (alunos de 11 a 16 anos). O Brasil é o primeiro colocado nesse levantamento.

Só no DF, 97,15% dos educadores da rede pública já presenciaram atos de violência dentro dos centros de ensino, conforme dados da pesquisa realizada pelo Sindicato dos Professores (Sinpro) com 1.355 profissionais de várias regiões administrativas.

Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, diz que as instituições de ensino não são locais mais ou menos seguros do que outros espaços da sociedade. “Por muito tempo se construiu um mito de que a escola era um ambiente mais protegido. Eu mesmo reproduzia esse mito. Mas os casos de violência [em colégios] que temos verificado são os casos correntes na sociedade”, diz.

Para ele, o elemento novo é o fato de que a escola tem se tornado alvo prioritário na manifestação da violência, especialmente porque deixou de lado uma questão estrutural: o diálogo entre a comunidade escolar. “Uma escola com gestão democrática resolve pacificamente os seus conflitos, mas poucas no Brasil têm trabalhado nessa perspectiva”, adverte. 

Um dos pontos mais importantes, na opinião de Cara, é chamar os pais para atuarem de forma mais integrada aos educadores, conhecendo a rotina e dialogando com professores e gestores. “Eles devem participar das decisões e entender que a escola é um espaço de todos”, conclui. 

Militarização

Igo Estrela/Metrópoles

Uma das alternativas defendidas pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), e apoiada pelo governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), é a criação de unidades militarizadas na rede pública de ensino. O projeto começou pelo Distrito Federal (foto acima) e deve se espalhar pelo país: a meta do governo federal é implementar a gestão em 216 escolas até 2023, sendo 54 por ano, com recursos do Ministério da Defesa.

Em agosto, o governador do DF assinou decreto para criar no ano que vem escolas totalmente militarizadas na capital. Hoje, 10 colégios públicos brasilienses já aderiram à chamada gestão compartilhada, na qual educadores cuidam do projeto pedagógico enquanto policiais militares assumem a segurança das unidades, incluindo o controle de entrada e saída dos alunos. A intenção de Ibaneis Rocha é encerrar seu mandato com pelo menos 30 instituições públicas transformadas em cívico-militares.

Segundo o presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa), Luis Claudio Megiorin, a ideia de gestão compartilhada com os militares é apoiada por mais da metade da população brasiliense. “Uma escola, para ser boa, não precisa ser militarizada. No entanto, precisa ter um bom regimento escolar, exigir disciplina”, comenta o especialista. “Sempre digo para os pais: não acreditem numa escola que não tem o mínimo de disciplina, com regras claras e cobradas dos alunos”, encerra. 

Educação do Amanhã 2019
Lançado em 2018 pelo Metrópoles, o projeto Educação do Amanhã tem o objetivo de discutir novas metodologias e conceitos do processo educativo, além de estimular novas habilidades nos jovens do século 21.

Neste ano, ao longo de duas semanas, o portal publicará uma série de conteúdos relacionados às mudanças na área da educação: o que esperar da escola do futuro, o universo tecnológico e as tendências no processo de aprendizagem. Além, é claro, do novo papel do professor diante deste cenário repleto de desafios.

A iniciativa tem patrocínio da Casa Thomas Jefferson, Colégio Ideal, Colégio Objetivo, AISEC e Colégio Marista João Paulo II.

O encerramento do projeto será marcado com a realização de um seminário no auditório do Edifício Íon, na SQN 212, Asa Norte (DF), que incluirá palestras inspiracionais, impactantes e reflexivas sobre como o processo educacional está em transformação nos dias atuais.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo Sympla. Confira as palestras:

Educação para o século XXI
Palestrante: Rui Fava

A sala de aula inovadora
Palestrante: Fausto Camargo

Culturas de pensamentos e investigação na escola
Palestrante: Clarissa Bezerra

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