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Com investimentos insuficientes, gargalos históricos e desigualdades regionais, o Brasil não consegue garantir a manutenção de serviços básicos. O alerta é do presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), Vinicius Marchese, em entrevista exclusiva à jornalista Vanessa Oliveira do portal Metrópoles.
Atualmente, o Brasil investe cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura, menos da metade do considerado necessário para sustentar o desenvolvimento econômico e social do país.
De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o ideal seria algo próximo de 4% a 4,5% do PIB para garantir manutenção, expansão e modernização da infraestrutura nacional.
Esse déficit histórico tem reflexos diretos no cotidiano da população, afetando áreas essenciais como mobilidade urbana, saneamento básico, energia e conectividade.
Para ajudar a dimensionar esse cenário e oferecer um diagnóstico mais preciso da situação brasileira, o Confea lançou na última segunda-feira (16/3) o Infra-BR, índice que avalia a qualidade da infraestrutura nos estados brasileiros.
E os primeiros resultados já mostram que o Brasil ainda está longe do nível ideal. Em uma escala de 0 a 100, o país alcançou 56,92 pontos.
Durante a entrevista, Marchese chamou a atenção para a gravidade do cenário. “Saneamento básico, como o nome diz, é o básico que a pessoa precisa ter para viver”, pontuou.
“E a gente sabe, não é nenhuma novidade o índice trazer que o Brasil carece, não só de investimento, mas do serviço que é consequência desse segmento da infraestrutura”, afirmou o presidente do Confea.
Outro ponto crítico é a conectividade. Segundo o presidente do Confea, tecnologias como o 5G já devem ser encaradas como infraestrutura estratégica. “Hoje, o 5G não é mais um luxo. Isso impacta diretamente para um país ser competitivo junto a outros países”, explicou.

“Se a gente não evoluir com conectividade, principalmente no campo, outros países serão mais eficientes e o Brasil pode perder espaço no mercado.”
Vinicius Marchese, presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea)
Diagnóstico nacional
O Infra-BR foi criado para oferecer uma visão abrangente e independente sobre as condições da infraestrutura do país. O índice analisa os estados com base em seis eixos temáticos e 67 indicadores.
A ferramenta foi inspirada em modelos internacionais de avaliação, como os relatórios da American Society of Civil Engineers, mas adaptada à realidade brasileira.
A ideia é fornecer informações confiáveis tanto para gestores públicos quanto para a sociedade.

“A gente pensou em uma plataforma com o objetivo de permitir que o gestor público identifique pontos de atenção.”
Vinicius Marchese, presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea)
O levantamento também evidencia fortes desigualdades regionais. “O índice chama a atenção, principalmente para o Norte e Nordeste, e aponta o quanto nós estamos atrasados com infraestrutura”, frisou.
A diferença entre estados é significativa: enquanto o Distrito Federal registra 74,83 pontos, o Acre aparece com apenas 28,63.
Entre os estados acima da média nacional, a maioria está nas regiões Sul e Sudeste. Já entre os piores desempenhos, predominam estados do Norte.
No Nordeste, o saneamento básico aparece como principal gargalo, com índices baixos em estados como Pernambuco e Maranhão.

Outro dado que preocupa é a relação entre investimento e entrega de serviços. Segundo Marchese, há casos em que altos volumes de recursos não se traduzem em melhoria efetiva.
“A gente tem estados que receberam muito recurso para infraestrutura e não entregam bom serviço. Então, alguma coisa está errada nessa relação.”
Vinicius Marchese, presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea)
Transparência e cobrança
O Infra-BR também foi concebido como ferramenta de transparência e controle social. Para o presidente da entidade, o acesso à informação pode estimular a cobrança por melhores serviços públicos.
“A informação empodera a população a cobrar do seu gestor”, ponderou. “A partir do momento em que o gestor público tem acesso a isso, é uma decisão dele, como gestor, se vai querer corrigir ou avançar naqueles segmentos onde ele não está funcionando bem como gestor.”
A iniciativa busca ainda aproximar o tema da realidade da população. “Infraestrutura não está distante. Isso é água na sua torneira, é o esgoto passando dentro da sua casa”, acrescentou.
Caminhos e potencial
Para o presidente do Confea, a engenharia terá papel central na superação desses desafios. “A gente não vai mudar essa realidade se a gente não valorizar a engenharia que a gente tem”, constatou.
Ele também destaca a necessidade de um esforço coletivo: “Ou a gente trabalha como sociedade para resolver isso ou realmente não vamos ter um bom legado para as próximas gerações”.
Apesar do diagnóstico preocupante, Marchese vê potencial de crescimento no país. “O Brasil tem um potencial gigantesco. Se a gente investir com planejamento, com consciência política, com responsabilidade e combater a corrupção, eu não tenho dúvida de que pode se destacar como potência mundial em médio prazo.”
“A população tá precisando de serviço e não tem como prestar serviço sem engenharia. Então, se a gente conseguir realmente se aproximar desses problemas e propor caminhos e soluções, a gente não só vai conseguir gerar oportunidade, aquecer a economia, a gente vai conseguir mudar a vida das pessoas, que eu acho que esse é o principal papel da engenharia”, ressaltou.
O Infra-BR está disponível para consulta pública e deve ser atualizado anualmente, com ampliação gradual de indicadores e cobertura.
Assista à entrevista completa:
Sobre o Confea
Fundado em 1933, o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) é o órgão federal de regulamentação e fiscalização do exercício profissional da engenharia, agronomia, geociências e áreas correlatas no Brasil.
Com sede em Brasília, coordena um sistema de Conselhos Regionais (Creas) presente em todos os estados, reunindo mais de 1,2 milhão de profissionais registrados.

