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O homem apontado como chefe da Máfia dos Concursos entrou na mira da Polícia Civil em 2005, durante a Operação Galileu. Mas, preso na época, confessou que “vendia” vagas em concursos públicos desde 1981. Ao longo dos anos, as facetas criminosas do fraudador se multiplicaram. Em áudios obtidos com exclusividade pelo Metrópoles, Ortiz negocia a movimentação de presos nas cadeias do DF,  se mostra interessado na comercialização de galos de briga e até promete furar fila de cirurgias na rede pública de saúde e beneficiar parentes de comparsas.

Em interceptação telefônica feita pela Delegacia de Combate ao Crime Organizado (Deco) com autorização da Justiça, Ortiz oferece propina a um servidor do sistema penitenciário do Distrito Federal para que facilite a vida de um presidiário. O detento, no caso, era José Carlos Lacerda Estevam Leite, considerado um dos maiores ladrões de banco do Brasil.

Na gravação, o fraudador liga para um homem identificado apenas como Zé Roberto. Ortiz avisa que o detento está em um “hotel cinco estrelas”. O código faz referência a um presídio no complexo penitenciário da Papuda. “Tem condição de você fazer uma progressão através do Ribeiro, pra esse cara ficar na horta pelo menos uma semana”, disse Ortiz.

 

Durante a conversa, Zé Roberto avisa a Ortiz que Ribeiro não está mais “naquele local” e havia sido transferido para o Centro de Progressão Penitenciária (CPP). Mesmo assim, o chefe da máfia insiste com o interlocutor. “Eu sei que ele tá no galpão, mas ele tem… porra, ele… ele tem acesso lá tudo”, afirmou Ortiz.  O fraudador ainda emendou. “Eu teria que bater um papo pessoalmente com ele sobre isso. Eu posso ligar e marcar com ele hoje ainda. Sai uma grana boa procê.”

Com a promessa de vantagem financeira, Zé Roberto se comprometeu a fazer todas as movimentações necessárias para realizar o desejo de Ortiz o mais rápido possível. O suposto servidor do sistema penitenciário usou um código para se referir ao preso o chamando de “paciente”. Em seguida, o fraudador passou todos os dados para o interlocutor. “Anota: José Carlos Lacerda Estevam Leite. Eu quero ele na horta. Só uma semana. É por que tem o júri dele pra junho. Queria antes disso. Você vê… E a gente acerta direitinho, tá? O que você combinar todo mundo ganha”, garantiu o chefe da Máfia dos Concursos.

José Carlos foi preso pela primeira vez pela Polícia Civil do DF em 17 de março de 2005. E novamente em 10 de agosto de 2012 e 29 de setembro de 2014. Já em 17 de março do ano passado, o ladrão de bancos progrediu para o regime semiaberto, mas foi preso no último dia 8, na capital baiana, tentando explodir um caixa eletrônico na rodoviária estadual.

Olho no concurso do BRB
Ortiz também foi flagrado em áudios tramando fraudar o concurso do Banco de Brasília (BRB), cujo edital foi lançado em abril de 2005 com 500 vagas. De olho na quantidade de candidatos que poderiam participar do certame – organizado pelo antigo Centro de Seleção e Promoção de eventos (Cespe), da Universidade de Brasília (UnB) –  o chefe da máfia e seus comparsas planejaram faturar alto com a venda de vagas.

Em um dos trechos gravados pela Polícia Civil com autorização da Justiça, o fraudador conversa com um dos operadores do esquema, identificado como Aléssio. Ortiz usa metáforas relacionadas a um jogo de futebol para se referir ao concurso aberto pelo banco. “Ó, tem muita gente me procurando pra esse futebol do BRB, que encerra dia 20 a inscrição”, diz. Ele completa, afirmando que o salário é baixo, mas que são muitos clientes. “Eu sei que é pouco, mil e pouco o salário, mas… mas tem gente na linha.”

Durante a conversa, o golpista conta que vai mandar os “clientes” se inscreverem e se mostra animado com o retorno financeiro. “É, e aí a gente faz tipo 15, 20 pessoas, vai ter muita vaga lá, mais de 500. E esse é bom, né? Que a gente cobra barato, mas pinga, pinga, toda semana, você vai ver”, comemora.

Cirurgia no HBDF
Em outro áudio gravado pela polícia, Ortiz deixava transparecer uma suposta influência em diversas áreas de governo. Ele chegou a garantir à esposa de um comparsa que teria facilidade para “furar filas” de cirurgias realizadas em hospitais da rede pública do DF. Na conversa, a mulher identificada como Daniela pede a Ortiz a quantia de R$ 8 mil para que a irmã possa fazer procedimento de retirada de útero.

O ex-técnico judiciário promete ainda emprego para Daniela. E avisa a ela que o concurso da Câmara dos Deputados estava para acontecer. “Eu falei pra ele (marido de Daniela, identificado por ele como Gambiarra) que, no mês que vem, abril, vai ter o concurso da Câmara Federal. É o que falei pra ele, que ia te ajudar, que era pra ele esperar um pouquinho. Inclusive estou fazendo pra ele um preço que é bem acessível, que lá eu cobro 50 mil pra fazer e fiz 20 mil pra ele.”


Em seguida, Ortiz afirma ter facilidade para conseguir realizar cirurgias no Hospital de Base, pois supostamente conhecia membros da direção da unidade. “Então, tá, manda o Gambiarra (comparsa) trazer o nome dela (da irmã de Daniela), o diagnóstico e eu marco a cirurgia pra ela. Só ligo pro doutor”, garantiu o fraudador.

Perfil do chefe
Hélio Ortiz foi preso, pela primeira vez, em maio de 2005. Julgado e condenado a 12 anos de prisão, nunca cumpriu pena. O motivo é um vácuo jurídico que não tipificava o crime de fraude em concursos públicos e deixou brechas para que permanecesse em liberdade.

Ex-técnico judiciário do Tribunal de Justiça do DF e Territórios (TJDFT), Ortiz recebia, em 2005, o salário de R$ 4.738. Mas tinha padrão de vida incompatível com seus vencimentos, segundo os investigadores. Ele foi exonerado somente em novembro de 2009. E nunca parou com as atividades ilícitas.

Entrou novamente na mira da polícia após denúncia de fraude no Corpo de Bombeiros, no primeiro semestre deste ano. Ortiz foi preso na última segunda-feira (21/8), com mais três pessoas, incluindo seu filho, Bruno.

“Ele não tinha outra profissão que não fraudar concursos”, disse o delegado Bruno Ornellas, da Deco. Há suspeita de que Ortiz tenha fraudado concursos públicos em outros estados, como São Paulo, Mato Grosso, Paraná, e Goiás.

O chefe da Máfia dos Concursos mora há mais de 20 anos na mesma residência, um sobrado de três pavimentos no Guará II. Os policiais ainda não mapearam detalhes da movimentação financeira do suspeito, mas dizem que ele aparentava viver como um cidadão de classe média, sem ostentar riqueza.

Além da casa no Guará, Ortiz mantinha uma chácara no Park Way, onde alimentava uma de suas paixões — as rinhas de galo de briga. A atividade é considerada contravenção, que quase sempre se reverte em multa e prestação de serviços comunitários, e é enquadrada ainda como crime ambiental, cuja pena varia de três meses a um ano de prisão. O fraudador mantinha pelo menos 200 galos na propriedade quando a polícia chegou ao local, na última segunda-feira.