Tácio Lorran

Obra suspeita no Maranhão foi aprovada em 3h, sem analisar viabilidade

TCU identificou oito “graves irregularidades” em obra de R$ 235 milhões do governo do Maranhão financiada com recursos do novo PAC

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Foto: Ricardo Stuckert
Governo Federal destina R$ 237 milhões do Novo PAC para expansão da Avenida Litorânea em São Luís (MA)
1 de 1 Governo Federal destina R$ 237 milhões do Novo PAC para expansão da Avenida Litorânea em São Luís (MA) - Foto: Foto: Ricardo Stuckert

O governo do presidente Lula (PT) liberou o envio de R$ 235 milhões para uma obra no Maranhão sem antes analisar a viabilidade técnica, econômica e ambiental do empreendimento. A construção da Avenida Litorânea em São Luís acumula, no entanto, suspeitas em razão de oito “graves irregularidades” – de superfaturamento a subcontratação de suposta empresa de fachada –, além de danos ambientais já denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF).

A nova Avenida Litorânea vai ligar São Luís ao município vizinho de São José do Ribamar. A construção é financiada com recursos federais do Novo PAC e executada pelo estado do Maranhão. A gestão do governador Carlos Brandão (sem partido) trata o empreendimento como uma “obra histórica” e um dos “maiores projetos de mobilidade e urbanismo do litoral maranhense”. O governo estadual chegou, inclusive, a acelerar a construção da avenida para tentar entregá-la antes das eleições, à revelia das “graves irregularidades” apuradas pelo TCU. O tribunal de contas já avalia eventuais responsabilizações aos gestores.

Segundo dados da tramitação do projeto da obra em um sistema do Ministério das Cidades, o governo do Maranhão pleiteou recursos ao governo federal para o empreendimento às 11h do dia 18 de junho de 2024. Pouco mais de uma hora depois, às 12h22, o pedido foi encaminhado para o Departamento de Infraestrutura da Mobilidade Urbana (Demob) da pasta para análise. Naquele mesmo dia, às 16h01, o Demob expediu a análise do pleito de inclusão da proposta da obra no Novo PAC.
Governo Lula aprovou liberação de recursos para obra suspeita no Maranhão em 3 horas
Governo Lula aprovou liberação de recursos para obra suspeita no Maranhão em 3 horas

“Observa-se que a Demob analisa o pleito em, no máximo, 3h39min.Veja-se que se trata de obra de valor e importância expressivos, sendo o ofício deflagrador da avaliação acompanhado de peças técnicas relativas ao projeto básico do empreendimento”, ressaltou o relatório de fiscalização do TCU.

“Ao se analisar o teor da nota técnica expedida, verifica-se que a Demob avaliou somente a compatibilidade do pleito do estado do Maranhão com a ação orçamentária que lhe poderia suportar financeiramente, bem como os critérios para admissão ao Novo PAC. A análise, quanto à viabilidade, seja ela técnica, econômica ou ambiental, do empreendimento que receberia poucos dias depois cerca de R$ 240 milhões de recursos federais, seria postergada para momento futuro”, prosseguiu a área técnica.

O termo de compromisso da obra, que previa o repasse de R$ 237 milhões, foi assinado em 21 de junho de 2024, três dias após o pleito realizado pelo governo de Carlos Brandão. Logo em seguida, o estado do Maranhão realizou a licitação, afastando duas das três empresas que participaram da disputa, e assinou o contrato com a Lucena Infraestrutura Ltda. O TCU aponta que houve restrição à competitividade no pregão.

Ministério das Cidades assegura que trâmites internos para verificar aderência do projeto foram cumpridos

Procurado, o Ministério das Cidades informou que a análise de estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental feito pelo ente federado é exigida para obras de transportes públicos de média e alta capacidade, o que não é o caso do projeto de implantação de faixa exclusiva, de tipologia de menor capacidade. “Ainda assim, nestes casos, estudos técnicos e ambientais são feitos pelos estados e municípios posteriormente e analisados pela Caixa Econômica Federal, agente operador e financeiro do governo federal nos repasses do Novo PAC.”

“Os trâmites internos para verificar a aderência do referido projeto às iniciativas apoiadas pelo Novo PAC foram cumpridos. Este foi o objeto da análise realizada pelo Departamento de Infraestrutura de Mobilidade Urbana (Demob)”, prosseguiu a pasta.

As obras começaram, de fato, em 16 de abril do ano passado. A auditoria realizada pelo tribunal de contas foi realizada, por sua vez, entre maio e julho de 2025, quando os recursos gastos na obra somavam R$ 27,7 milhões, o equivalente a 11% do valor total do contrato. Já naquele momento, o TCU identificou superfaturamentos que somam R$ 1,8 milhão.

A auditoria levanta ainda suspeitas sobre a subcontratação de uma suposta empresa de fachada. A Agla’S Infraestrutura Ltda não tem site nem redes sociais, tampouco funcionários ou veículos registrados. Além disso, pertence, no papel, a uma revendedora de maquiagens e professora da rede estadual do Maranhão, conforme revelou a coluna nessa quinta-feira (19/2). A legislação proíbe, contudo, que servidores públicos sejam administradores de empresas e, outrossim, que sejam contratados pelo próprio estado.

Obra suspeita no Maranhão foi aprovada em 3h, sem analisar viabilidade - destaque galeria
5 imagens
No Facebook, Aglai posta somente sobre maquiagens e cosméticos
No Facebook, Aglai posta somente sobre maquiagens e cosméticos
Aglai Cruz, a dona da empreiteira
Empreiteira fica em sala de prédio comercial em São Luís
No Facebook, Aglai posta somente sobre maquiagens e cosméticos
1 de 5

No Facebook, Aglai posta somente sobre maquiagens e cosméticos

Reprodução/ Facebook
No Facebook, Aglai posta somente sobre maquiagens e cosméticos
2 de 5

No Facebook, Aglai posta somente sobre maquiagens e cosméticos

Reprodução/ Facebook
No Facebook, Aglai posta somente sobre maquiagens e cosméticos
3 de 5

No Facebook, Aglai posta somente sobre maquiagens e cosméticos

Reprodução/ Facebook
Aglai Cruz, a dona da empreiteira
4 de 5

Aglai Cruz, a dona da empreiteira

Reprodução/ Facebook
Empreiteira fica em sala de prédio comercial em São Luís
5 de 5

Empreiteira fica em sala de prédio comercial em São Luís

Google Street View

MPF apontou danos ambientais em obra de R$ 235 milhões do Maranhão

A aprovação da liberação dos recursos para a obra sem a devida análise prévia da viabilidade técnica, econômica e ambiental chama a atenção também, justamente, porque o Ministério Público Federal entrou com uma ação civil pública apontando danos ambientais em parte do empreendimento.

De acordo com a Procuradoria, o avanço das obras resultou em uma modificação de uma falésia, conhecida como barreira do Olho D’água, que tem como função ambiental garantir a estabilidade geológica. As obras no Maranhão estariam ainda sendo realizadas em uma área de preservação permanente (APP) e ultrapassaram as autorizações que foram concedidas pela União e as previsões do licenciamento ambiental.

Na ação, o MPF chegou a pedir, em caráter de urgência, a suspensão das obras. O requerimento, contudo, foi negado pela Justiça Federal. A Procuradoria recorreu à segunda instância, que ainda não tomou uma decisão sobre o caso.

Governador do Maranhão, Carlos Brandão (sem partido), divulga obra na Avenida Litorânea
Governador Carlos Brandão (sem partido) divulga obra na Avenida Litorânea

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?