Tácio Lorran

Laranja de ministro do Turismo não paga IPTU e deu calote em loja de roupas

Coluna revelou que o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, repassou empresas de R$ 400 mil à Soraya Rouse, demitida pelo pai dele

atualizado

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Laranja do ministro do Turismo, Gustavo Feliciano (União-PB), Soraya Rouse Santos Araújo se tornou alvo do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) por acumular dívidas de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e por dar calote em uma loja de roupas. Só que os processos, obtidos pela coluna, destoam do perfil esperado para quem se tornou dona de empresas dele no valor de R$ 400 mil.

Nem mesmo a casa onde Soraya Rouse mora com a família, num bairro simples em João Pessoa, escapou. O município a processou em abril de 2021 por dever R$ 4.458,09 em IPTU e incluiu até a possibilidade de penhorar bens. Tudo isso porque os débitos já se avolumavam de 2016 a 2020.

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Gustavo Feliciano e Lula
Gustavo Feliciano, nomeado por Lula para o Ministério do Turismo
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Ricardo Stuckert / PR
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Gustavo Feliciano, nomeado por Lula para o Ministério do Turismo

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Deputado Damião Feliciano foi o relator da proposta na Câmara
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Deputado Damião Feliciano foi o relator da proposta na Câmara

Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

A Justiça não descobriu o paradeiro dela para citá-la, ou seja, chamá-la para participar do caso. A decisão: encerrar o processo em abril de 2024. Ainda assim, a dívida de IPTU não deixou de existir. O TJPB apenas entendeu que, como o valor não alcançava R$ 10 mil, custava mais processá-la do que executar os débitos judicialmente.

Já em fevereiro de 2025, uma comerciante acionou o TJPB contra Soraya Rouse por comprar e não pagar R$ 1.569 em roupas na loja dela. O calote terminou em acordo em maio de 2025, fixado em R$ 1,5 mil divididos em 5 parcelas de R$ 300.

Dívida de roupas de laranja do ministro do Turismo
Dívida de roupas de laranja do ministro do Turismo

Além dessas ações, Soraya Rouse processou o Banco Hyundai Capital Brasil S.A em fevereiro passado após financiar um carro de R$ 42.161. O motivo: considerou “abusivas” as taxas de juros de 1,84 % a.m. e de 24,46 % a.a.

O parcelamento em 49 vezes de R$ 1.313,92 elevou o preço final do veículo para R$ 64.382,08. Assim como no caso do IPTU, o tribunal também extinguiu o processo – no qual ela havia pedido justiça gratuita – em abril.

Como revelado pela coluna, a laranja de 43 anos também foi secretária parlamentar do pai do ministro do Turismo, o deputado federal Damião Feliciano (União-PB), por mais de três anos. Entrou na Câmara em outubro de 2022 e permaneceu até a última quinta-feira (22/1), quando foi exonerada.

O último salário bruto dela divulgado pela Casa, em novembro, foi de R$ 3.529,86, valor considerado incomum para tamanho patrimônio. Do dia para a noite, tornou-se sócia-administradora da União de Ensino Superior da Paraíba Ltda (UniPB), da Sunset Business e da GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários Ltda.

As três empresas pertenciam a Gustavo Feliciano até dezembro, quando se tornou ministro do Turismo. Tanto a instituição de ensino quanto uma das construtoras têm dívidas com a União acima de R$ 500 mil.

Os “negócios” entre o ministro do Turismo e a ex-assessora

Documentos obtidos pela coluna mostram que Gustavo Feliciano declarou à Junta Comercial da Paraíba (Jucep-PB) ter vendido a Sunset Business e a GCF Construções para Soraya Rouse por R$ 100 mil cada. Esse montante corresponde ao pagamento de todas as cotas desses empreendimentos ligados ao ramo da construção.

Há indícios de que ambas as empresas, localizadas na Paraíba, são de fachada e continuam ligadas ao ministro do Turismo. Isso porque os endereços registrados na Receita Federal não apontam para o funcionamento de qualquer tipo de companhia. Nenhuma delas possui site ou redes sociais próprios – e os rastros digitais são escassos. Além disso, ambas as empresas mantêm e-mails pessoais de Gustavo Feliciano no cadastro, mesmo após a suposta “venda”.

Confira registros das supostas sedes das empresas e trechos dos contratos:

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Fachada do endereço registrado da GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários Ltda. na Receita Federal
Trecho do contrato de venda da GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários Ltda. de Gustavo Feliciano para Soraya Rouse
Trecho do contrato de venda da Sunset Business de Gustavo Feliciano para Soraya Rouse
Trecho do contrato de transferência da UniPB de Gustavo Feliciano para Soraya Rouse
Fachada do endereço registrado da UniPB na Receita Federal
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Fachada do endereço registrado da UniPB na Receita Federal

Google Street View/Reprodução
Fachada do endereço registrado da GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários Ltda. na Receita Federal
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Fachada do endereço registrado da GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários Ltda. na Receita Federal

Google Street View/Reprodução
Trecho do contrato de venda da GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários Ltda. de Gustavo Feliciano para Soraya Rouse
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Trecho do contrato de venda da GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários Ltda. de Gustavo Feliciano para Soraya Rouse

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Trecho do contrato de venda da Sunset Business de Gustavo Feliciano para Soraya Rouse
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Trecho do contrato de venda da Sunset Business de Gustavo Feliciano para Soraya Rouse

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Trecho do contrato de transferência da UniPB de Gustavo Feliciano para Soraya Rouse
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Trecho do contrato de transferência da UniPB de Gustavo Feliciano para Soraya Rouse

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Outra certidão registra o repasse das 200 mil cotas da UniPB. O documento, porém, não deixa claro se Soraya Rouse desembolsou o valor ou se Gustavo Feliciano apenas lhe transferiu a empresa.

“O sócio cedente declara ter recebido todos os seus direitos e haveres nada tendo a reclamar no futuro seja a que título for”, diz trecho do documento.

A instituição de ensino – associada a diversos processos judiciais, inclusive trabalhistas – consta como mantenedora da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Natal (Faciten) e obteve mais de R$ 5,2 milhões do governo federal de fevereiro de 2014 a outubro de 2021 para bancar o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies).

A UniPB deve mais de R$ 333,9 mil à União, segundo site da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), conforme apresenta o jornal O Globo. Assim como as duas supostas empresas de fachada, a UniPB não dispõe de site ou de rede social no ar, e a suposta sede se localiza numa casa.

Já a Faciten, localizada em Natal (RN), perdeu o credenciamento no Ministério da Educação (MEC) no fim do ano passado. A conta no Instagram, por sua vez, não recebe atualização desde setembro de 2019.

Laranja que assumiu empresas é pessoa de confiança da família Feliciano

A relação, porém, está longe de se limitar aos negócios. Soraya Rouse atua como uma espécie de faz-tudo do clã Feliciano. Tanto Damião Feliciano quanto o filho dele e secretário de Estado de Desenvolvimento e Articulação Municipal da Paraíba, Renato Feliciano, assinaram procurações em favor dela no fim de 2023.

Confira:

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Procuração de Damião Feliciano, pai do ministro do Turismo, em favor de Soraya Rouse
Procuração de Renato Feliciano, irmão do ministro do Turismo, em favor de Soraya Rouse
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Procuração de Renato Feliciano, irmão do ministro do Turismo, em favor de Soraya Rouse

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Procuração de Damião Feliciano, pai do ministro do Turismo, em favor de Soraya Rouse
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Procuração de Damião Feliciano, pai do ministro do Turismo, em favor de Soraya Rouse

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Renato Feliciano lhe concedeu “poderes gerais e especiais” para atuar em nome dele na Companhia de Águas e Esgoto da Paraíba (Cagepa) em novembro de 2023. Já Damião Feliciano lhe permitiu representá-lo perante diversos órgãos de trânsito em relação a uma Toyota Hilux prata 2016/2017, em dezembro de 2023.

Chama a atenção o fato de Soraya Rouse informar ao cartório que exerce a profissão de autônoma para assinar os dois documentos. À época, já havia sido nomeada como secretária parlamentar de Damião – para quem trabalhou na campanha eleitoral de 2022 – há mais de 1 ano.

Natural de Campina Grande, reduto eleitoral do clã, Soraya Rouse é membra suplente do União Brasil na Paraíba desde maio de 2023, com cargo executivo registrado perante a Justiça Eleitoral até abril de 2027. A família Feliciano também faz parte do diretório, tendo Gustavo como terceiro vice-presidente, Damião como secretário-geral e Renato como integrante.

Procurados pela coluna, Soraya Rouse, Damião, Renato e Gustavo Feliciano não se manifestaram até a publicação desta reportagem. O Ministério do Turismo também não respondeu.

Família Feliciano

As relações políticas da família de Gustavo Feliciano ultrapassam as fronteiras da Câmara dos Deputados. A mãe, Lígia Feliciano (União-PB), atuou como vice-governadora da Paraíba de 2015 a 2023 – o atual ministro foi secretário estadual de Turismo e Desenvolvimento Econômico de 2019 a 2021.

Hoje, a médica e empresária é diretora no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Já a irmã do ministro do Turismo, Mariana Feliciano, se candidatou à vice-prefeita de João Pessoa em 2020. Não se elegeu.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nomeou Gustavo Feliciano como ministro do Turismo em 19 de dezembro em substituição a Celso Sabino, demitido dois dias antes. A posse ocorreu na semana do Natal.

A escolha pelo nome dele, até então pouco conhecido nacionalmente, atendeu a um pedido de uma ala do União Brasil. O partido havia expulsado o deputado federal pelo Pará cerca de uma semana antes, quando o parlamentar decidiu permanecer no governo Lula.

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