
Tácio LorranColunas

INSS: empresa punida por corrupção recebeu R$ 16 milhões de entidades
Cinco entidades investigadas pela PF na Farra do INSS pagaram milhões à empresa punida pela CGU por fraude em licitações
atualizado
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Uma empresa de tecnologia do empresário Tiago Schettini Batista, que esteve no passado no centro de investigações sobre fraudes contratuais com o governo federal, recebeu R$ 16,26 milhões de pelo menos cinco entidades associativas investigadas pela Polícia Federal (PF) no escândalo dos descontos indevidos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O montante recebido pela Business to Technology Consultoria e Análise de Sistemas LTDA (B2T Consultoria) — entre outubro de 2024 e outubro de 2025 — chamou a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O Relatório de Inteligência Financeira está em posse da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.
“A movimentação financeira com discrepância entre faturamento e movimentação, somada aos vínculos com PEPs (Pessoas Expostas Politicamente) e entidades investigadas, sugere fortemente que a empresa pode estar sendo usada como instrumento de lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos”, escreveu o COAF.
Procurada, a defesa do empresário, exercida pela advogada Laura de Azevedo Marques, afirmou, por meio de nota, que “Tiago é um empresário com longo histórico no ramo da tecnologia. Dentro desse escopo, prestou serviços legítimos de TI e clube de descontos a associações de aposentados, clubes de futebol, federações de trabalhadores, etc. Pelas atividades, naturalmente, foi remunerado. Reforçamos que os Relatórios de Inteligência Financeira [RIFs] são acobertados por sigilo, e, por essa razão, seu compartilhamento com partes estranhas ao processo é absolutamente vedado.”
Veja a seguir quanto as entidades repassaram à empresa de Tiago Schettini:
- União Nacional de Auxílio aos Servidores (Unaspub): R$ 6.639.235,23
- Associação Brasileira dos Aposentados e Pensionistas da Nação: R$ 4.218.898,52
- Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca (CBPA): R$ 3.881.610,00
- Associação Brasileira dos Contribuintes do Regime Geral da Previdência Social (Abrasprev): R$ 1.431.014,40
- Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec) R$ 95.777,77
O COAF ainda destacou no RIF que Tiago Schettini está envolvido “em duas grandes investigações da Polícia Federal” por suspeita de participação em esquemas de fraude em licitações e lavagem de dinheiro, tanto no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Operação Circuito Fechado), quanto no Ministério do Trabalho e Emprego (Operação Gaveteiro) em gestões passadas. Em todas elas, está a B2T.
“Tiago Schettini Batista foi preso em Brasília por seu papel como vice-presidente da empresa Business to Technology (B2T), investigada por desvios de mais de R$ 40 milhões em contratos com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). A empresa teria participado de licitações fraudulentas e contratos irregulares entre 2012 e 2019. A investigação também revelou que o esquema fazia parte de um grupo maior, já investigado na Operação Gaveteiro, que apurava desvios no Ministério do Trabalho”.
Conforme revelou a coluna, a B2T de Tiago Schettini foi punida pela Controladoria-Geral da União (CGU) por corrupção e fraude contratual com o MTE, após a conclusão de um Processo Administrativo de Responsabilização (PAR) instaurado ainda em 2017.
A sanção foi aplicada em fevereiro de 2023, mas só passou a vigorar em junho de 2024. A empresa recebeu multa de R$ 7,7 milhões e está impedida de licitar e ser contratada pelo prazo de cinco anos. A B2T não quitou os débitos e a multa está inscrita na Dívida Ativa da União.
Schettini foi blindado pelo Careca do INSS
Tiago Schettini Batista e o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, segundo a PF, eram um dos sócios ocultos e controlavam a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca (CBPA), investigada por fraudar os descontos de mensalidade nas aposentadorias do INSS. Além de exercer função operacional no esquema, Schettini recebia parte dos lucros, como um sócio.
Pelo envolvimento de Schettini nesses escândalos de corrupção, a PF viu indícios de que, antes da deflagração da primeira fase da Operação Sem Desconto contra o escândalo do INSS, em abril deste ano, o Careca do INSS blindou o empresário.
Schettini não era mencionado de forma ostensiva nas mensagens e não aparecia nos negócios. “Esse comportamento demonstra não apenas a intenção de blindá-lo, mas, também, o reconhecimento de que sua posição dentro do grupo demandava ocultação para evitar detecção por órgãos de persecução penal”, afirmou a PF.
Schettini foi alvo de mandado de prisão, mas se encontra nos Estados Unidos. Tecnicamente, ele não é considerado foragido. A defesa dele tenta, junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), que revogue a prisão preventiva, decretada em dezembro, na última fase da Operação Sem Desconto. Já Antonio Carlos Camilo Antunes segue preso desde setembro.
Tiago Schettini faltou à CPMI do INSS
Em novembro do ano passado, uma reunião da CPMI do INSS chegou a ser cancelada após Schettini apresentar habeas corpus. Com o benefício concedido pelo STF, ele ficou desobrigado de comparecer perante o colegiado.








