
Tácio LorranColunas

Homem que denunciou Careca do INSS e Lulinha reclama de abandono da PF
Testemunha que detalhou à PF relação entre Careca do INSS e Lulinha fala pela primeira vez à imprensa
atualizado
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Um ex-funcionário do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, que denunciou a relação de seu antigo chefe com o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, afirmou, em conversa exclusiva com a coluna, que sua vida virou “um inferno” e que está desamparado, especialmente pela Polícia Federal (PF), após colaborar com as investigações da Operação Sem Desconto.
O ex-funcionário já foi considerado uma testemunha-chave da Polícia Federal no âmbito do inquérito que investiga a chamada Farra do INSS, cujo esquema criminoso foi revelado pelo Metrópoles. Ele conhece o Careca do INSS há quase duas décadas.
Essa é a primeira entrevista dada pelo ex-funcionário do Careca do INSS à imprensa. A coluna esteve com a testemunha na última semana. Optou-se por preservar o nome dele em razão das supostas ameaças que ele teria recebido por parte do lobista em meados de junho de 2025. Para além da conversa, o ex-funcionário enviou todas as respostas por escrito. O documento está reproduzido na íntegra ao fim desta reportagem.
“Quando estive na PF para colaborar, me foi ‘prometido’ – vou repetir, ‘prometido’ – que meu nome não seria divulgado! E que seria protegido frente às investidas do Antonio (Careca do INSS), pois recebi uma ameaça de morte dele, pois ele sabia do poder de colocá-lo na cadeia. Até o momento, estou sem essa proteção e sem a defesa prometida!!”, declarou a testemunha.
“A PF, a CPMI e o STF demoram na decisão de como irão me proteger e defender ao ataque judicial, financeiro e mental que o Antonio tem feito comigo”, acrescentou.
O ex-funcionário relatou à coluna que já perdeu cerca de 15 quilos desde que rompeu com o Careca do INSS e passou a colaborar com a Polícia Federal nas investigações.
“Só não tirei a minha própria vida porque sou evangélico e porque tenho uma filha”, relata, ao chorar. O ex-funcionário diz que hoje só dorme à base de medicação. Além disso, ele não consegue mais sair do apartamento onde mora para se encontrar com familiares ou amigos. “Não posso encontrar ninguém, pois tenho medo de tomar um tiro nas costas”.
No mesmo documento enviado à coluna, o ex-funcionário detalhou a atuação do Careca do INSS junto a Lulinha, ao senador Weverton (PDT) e a outros políticos e empresários. Foi essa mesma testemunha que contou à Polícia Federal que o Careca do INSS pagava uma mesada de R$ 300 mil, além de um adiantamento de 25 milhões (não se sabe a moeda), ao filho do presidente Lula.
“Antonio falava abertamente sobre o filho do rapaz!!! Fábio Lula da Silva. Falava ‘filho’, e sinalizava mostrando a mão com 4 dedos… Falou o nome de Fábio Lula diversas vezes, a mim, a alguns parceiros comerciais, em reunião de diretoria”, detalhou o ex-funcionário.

Diálogos obtidos pela PF entre o lobista e um outro funcionário revelam que o empresário mandou R$ 1,5 milhão, em parcelas de R$ 300 mil, para Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e alvo da última fase da Operação Sem Desconto. Em uma dessas transferências, o Careca do INSS explicou, por mensagem de texto, que o dinheiro era para “o filho do rapaz”, possivelmente se referindo a Lulinha.
Lulinha é citado como possível sócio oculto do Careca do INSS em negócios na área da saúde que seriam realizados junto ao governo federal. Uma dessas parcerias previa o fornecimento de cannabis em larga escala ao Ministério da Saúde.
As supostas ameaças do Careca do INSS
O ex-funcionário afirmou à Polícia Civil de São Paulo ter sido ameaçado pelo Careca do INSS em junho deste ano. Em boletim de ocorrência, o homem relatou que Antonio Antunes teria exigido a entrega de “celulares, notebooks e um iPad” que conteriam informações sigilosas a seu respeito. Segundo o depoimento, a conversa evoluiu para uma discussão acalorada e terminou em ameaça.
“Antonio Carlos devia valores pessoais para o declarante e queria que ele lhe entregasse seus celulares, notebooks e um iPad, pois acreditava que nesses equipamentos havia dados sigilosos a seu respeito, que não queria que fossem divulgados, já que a Polícia Federal estava lhe investigando”, diz um trecho do boletim.
“Antônio Carlos passou a ofender e ameaçar a vítima, razão pela qual o declarante se retirou da sala. O averiguado, então, foi até a vítima e disse: ‘Se você não me entregar os aparelhos e abrir a boca, eu vou meter uma bala na sua cabeça’.”
O Careca do INSS, por sua vez, nega qualquer irregularidade e sustenta que está sendo vítima de uma tentativa de extorsão por parte do denunciante.
“Nunca fiz ameaça de morte a quem quer que seja. Quem me conhece sabe que isso aí é uma situação completamente descabida, até porque isso não existe”, disse Antonio Antunes, em depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que investiga a farra dos descontos indevidos, em setembro do ano passado.










