
Tácio LorranColunas

Ex-secretário de Bolsonaro passa a atuar para empresas que beneficiou
Após suspender medidas antidumping no governo Bolsonaro, ex-secretário foi contratado por associação ligada a gigantes do setor têxtil
atualizado
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Após beneficiar, no governo Bolsonaro, malharias brasileiras que dependem do fornecimento barato de fios de poliéster e evitar encarecimento de roupas em ano eleitoral, Lucas Ferraz (foto em destaque), ex-secretário de Comércio Exterior, foi contratado por esse mesmo setor para elaboração de parecer na tentativa de convencer o governo Lula, também em ano eleitoral, a manter essa medida.
Trata-se de caso clássico de “porta giratória”: na prática, Lucas Ferraz beneficiou um setor e, após deixar o governo, foi contratado por esse mesmo setor para reforçar essa posição junto ao atual governo, no mesmo assunto.
Procurado, Lucas Ferraz negou se tratar de conflito ético. Ele destacou que foi contratado pela Associação Brasileira de Matérias-Primas Têxteis (Abratex) cerca de dois anos depois de deixar o governo Bolsonaro, prazo além da quarentena de seis meses estabelecido na legislação brasileira (leia a íntegra da nota ao fim desta reportagem). Foi essa mesma entidade que ele beneficiou durante seu mandato.

A medida assinada por Lucas Ferraz enquanto secretário favoreceu empresas como Hering, Malwee e Dohler, entre as maiores de confecção têxtil do país. A Riachuelo, empresa cujo controlador é forte apoiador de Bolsonaro, também foi beneficiada, pois, além do varejo puro, também atua na confecção de roupas.
Entenda como ex-secretário de Bolsonaro beneficiou setor
Essas empresas utilizam fio de poliéster como insumo intermediário. Lucas Ferraz, ao analisar, em setembro de 2021, o cabimento de medidas antidumping contra importações vindas da China e da Índia, considerou que a adoção do mecanismo seria contra o “interesse público”, pois poderia acarretar aumento no preço do vestuário e de outros itens que dependem de fios de poliéster no Brasil.
“Os elementos preliminarmente analisados não foram suficientes para assegurar a possibilidade de os consumidores de fios de poliéster desviarem sua demanda para produtos substitutos, tais como as fibras de algodão ou de poliamida. Sob a ótica da oferta, os elementos apresentados não permitiram vislumbrar a entrada no mercado nacional de potenciais produtores e ofertantes do produto sob análise”, aponta relatório que acompanha a decisão de Lucas Ferraz.
Diante disso, o então secretário do governo Bolsonaro indicou a suspensão temporária da medida de defesa comercial, com confirmação pela Câmara de Comércio Exterior, em agosto de 2022, durante a campanha eleitoral, de que não haveria taxação dessas importações por pelo menos um ano. Em agosto de 2023, já no atual governo, a medida antidumping acabou derrubada. Ou seja, as importações seguiriam sendo realizadas da mesma forma, sem sobretaxa.
Porém, a Associação Brasileira de Produtos de Fibras Artificiais e Sintéticas (Abrafas) entrou com novo pedido de investigação para aplicação de medida de defesa comercial. Essa nova investigação, iniciada em dezembro de 2024, segue em curso, com previsão de conclusão em junho.
Foi nesta investigação que Lucas Ferraz passou a atuar oficialmente para a Abratex. A pedido do grupo, o ex-secretário de Bolsonaro apresentou parecer, em 22 de dezembro de 2025, defendendo a indústria de confecções. “Enquanto as medidas antidumping podem fortalecer os produtores nacionais de fios de poliéster no curto e médio prazo, é fundamental considerar também os possíveis impactos negativos sobre as etapas posteriores da cadeia produtiva têxtil brasileira”, indicou.

Ex-secretário nega confito ético
Em conversa com a coluna, Lucas Ferraz afirmou que abriu uma consultoria no segundo semestre de 2024, mais de um ano e meio depois de deixar a Secretaria de Comércio Exterior. Ele relatou ter sido contratado para fazer uma análise de impacto econômico sobre os efeitos de eventual aplicação de medida antidumping sobre as importações de fios de poliéster.
“Portanto, dado que estamos falando de um serviços de consultoria especializada, realizado sobre uma nova investigação, cerca de dois anos depois da minha participação no governo, realmente não vejo conflito ético em realizar um estudo de impacto econômico neste caso. Vale lembrar que, neste momento, a investigação de dumping ainda está em curso e deve ser julgada em breve no Gecex, cerca de 4 anos depois do caso (distinto) em que atuei como secretário, referendando, à época, o trabalho técnico que minha equipe do Decom havia realizado”, explicou Lucas Ferraz.
“Sou professor de economia da FGV, especializado em comércio exterior, há cerca de 20 anos. Atualmente, trabalho como coordenador do centro de estudos de negócios globais da escola e tenho a minha atividade privada de consultor”, prosseguiu o ex-secretário de Bolsonaro.
