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Rodrigo França

O futebol brasileiro não precisa das bets. As bets precisam do futebol

As bets encontraram no futebol uma máquina extraordinária de legitimidade, mas o esporte não nasceu dessas plataformas

22/09/2026 12:13
iStock
O futebol brasileiro não precisa das bets. As bets precisam do futebol

Durante mais de um século, Flamengo, Corinthians, Santos, São Paulo, Grêmio, Internacional e tantos outros construíram torcidas, títulos, ídolos e patrimônio sem uma casa de apostas estampada no peito. Agora, uma indústria que chegou ao futebol brasileiro há poucos anos passou a ser apresentada pelos próprios clubes como se fosse uma espécie de órgão vital do esporte.

Na última semana, algumas das maiores instituições do futebol brasileiro publicaram um manifesto com uma frase que merece ser lida com atenção: “O fim do futebol brasileiro”. A mensagem veio acompanhada de um alerta de que as restrições às apostas poderiam provocar perdas de receitas e investimentos. Dos 20 clubes da Série A, 13 possuem atualmente contratos de patrocínio máster com empresas de apostas. Os próprios clubes estimam em aproximadamente R$ 1 bilhão por ano o impacto dessa fonte de receita.

R$ 1 bilhão é muito dinheiro. Seria irresponsável fingir que não é. Mas uma coisa é reconhecer o tamanho de uma receita. Outra, bem diferente, é transformar essa receita em condição para a existência do futebol.

O levantamento financeiro mais recente da EY, uma das maiores empresas globais de auditoria, ajuda a colocar a discussão no lugar. Os 20 clubes que disputaram a Série A em 2025 registraram R$ 14,9 bilhões em receitas. Desse total, R$ 4,9 bilhões vieram de direitos de transmissão e premiações, R$ 3,9 bilhões de transferências de jogadores, R$ 1,8 bilhão de receitas relacionadas aos jogos e R$ 3,1 bilhões de receitas comerciais. Mesmo retirando completamente a venda de atletas da conta, os clubes ainda movimentaram R$ 11 bilhões.

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A pergunta, então, precisa ser outra: como uma modalidade de patrocínio tão recente conseguiu ocupar o lugar de receita indispensável?

As bets encontraram no futebol uma máquina extraordinária de legitimidade. Uma empresa que vende apostas deixa de aparecer apenas como uma plataforma de jogo quando coloca sua marca na camisa do time, dentro da transmissão, nas placas do estádio, nas entrevistas e nas redes sociais. Ela passa a fazer parte da paisagem afetiva do torcedor. É aí que mora o problema.

O futebol brasileiro tem uma relação particular com a população de baixa renda. O torcedor que compra a camisa parcelada, que escolhe entre o ingresso e outras despesas, que acompanha o clube pelo celular, que transforma o domingo em ritual familiar não é um detalhe desse negócio. Ele é parte central dele.

Em agosto de 2024, uma nota técnica do Banco Central mostrou que aproximadamente 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família fizeram apostas por Pix. Foram R$ 3 bilhões enviados às plataformas naquele mês. O levantamento não permite afirmar que todo esse dinheiro tenha sido perdido, porque registrou as transferências, não o resultado das apostas. Também não incluiu outras formas de pagamento. Ainda assim, é um dado difícil de tratar como simples entretenimento. O mesmo Banco Central havia identificado naquele período um crescimento expressivo das transferências para as plataformas e alertado para o possível impacto sobre o endividamento das famílias, especialmente entre as camadas de menor renda. A preocupação não era moralizar quem aposta. Era observar o que acontece quando uma atividade de risco passa a disputar espaço dentro do orçamento de quem tem pouco dinheiro.

O Estado, inclusive, já reconheceu esse problema ao endurecer as regras de publicidade. Desde julho deste ano, os anúncios de apostas precisam apresentar advertências como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”. Não é uma campanha de opinião. É uma regra oficial de publicidade criada pelo próprio poder público.

Por isso, quando os clubes dizem que uma restrição às bets pode prejudicar o futebol, existe uma parte legítima nesse argumento. Patrocínios serão perdidos. Contratos precisarão ser substituídos. Clubes menores podem sofrer mais, porque têm menos alternativas comerciais. O próprio manifesto sustenta que o dinheiro das empresas autorizadas chega a equipes de menor expressão e competições com menor exposição. O problema está em transformar essa consequência econômica em ameaça existencial.

“Sem as bets, acaba o futebol” é uma frase que produz uma pressão enorme sobre qualquer decisão pública. Ela coloca o torcedor diante de uma escolha artificial: ou preservamos as apostas, ou perdemos o nosso clube. Isso se aproxima perigosamente de uma chantagem retórica. Não porque os clubes não possam defender seus interesses econômicos. Podem e devem. O futebol é uma atividade econômica gigantesca. O problema começa quando o interesse financeiro de uma indústria esportiva é apresentado como se fosse necessariamente o interesse do torcedor. São coisas diferentes.

O torcedor não assinou contrato com uma casa de apostas quando comprou a camisa do seu clube. Não autorizou que o escudo da instituição funcionasse como aval para uma atividade que o próprio Ministério da Fazenda determina que seja anunciada com alertas sobre dependência e perda financeira.

O futebol brasileiro não nasceu das bets. E os números mostram que ele não depende exclusivamente delas. Os 20 clubes da Série A produziram R$ 11 bilhões em receitas em 2025 sem contar a venda de jogadores. Existem direitos de transmissão, bilheteria, sócio torcedor, licenciamento, produtos, premiações, transferências, investimentos, propriedades comerciais e uma audiência que nenhum outro esporte brasileiro possui na mesma escala.

O que as bets compraram foi espaço. Compraram visibilidade. Compraram associação com ídolos, clubes e paixão. E por isso que o futebol precise ter cuidado. Porque quando uma camisa que deveria representar uma história centenária passa a funcionar como outdoor permanente de uma indústria que lucra quando o torcedor aposta, a pergunta deixa de ser quanto o clube recebe. Passa a ser quanto custa para o torcedor.