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Rodrigo França

Mitologia grega é cultura, mas desenho de Orixá vira caso de polícia

Enquanto símbolos cristãos seguem naturalizados em espaços públicos, as culturas afrobrasileiras e africanas são enquadradas como problema

23/06/2026 10:09
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Reprodução
Imagem colorida mostra PMs em frente à escola onde pai questionou desenho de orixá. Metrópoles

Em um Estado que se declara laico, símbolos cristãos seguem naturalizados em espaços públicos e até surgem propostas de lei que tentam transformar a Bíblia em referência obrigatória de conhecimento escolar. Mas quando culturas afrobrasileiras e africanas entram na sala de aula como patrimônio histórico, artístico e civilizatório, deixam de ser tratadas como cultura e passam a ser enquadradas como problema. A questão não é sobre neutralidade religiosa, é sobre quais tradições receberam o direito de parecer universais e quais ainda precisam pedir autorização para existir.

Existem episódios que ultrapassam o debate escolar e passam a dizer respeito ao tipo de sociedade que estamos construindo. Quando policiais militares entram armados em uma escola pública para questionar uma atividade pedagógica baseada em um livro infantil sobre orixás, não estamos diante apenas de um conflito entre família e instituição de ensino. Estamos diante de um teste democrático. E ele exige respostas públicas.

O caso da EMEI Antônio Bento, em São Paulo, já provocou pedidos de apuração do Ministério Público e abriu um debate que vai muito além do desenho feito por uma criança. Segundo relatos publicados, policiais foram acionados após o incômodo do pai de uma aluna com uma atividade inspirada em um livro sobre orixás. O pai também integraria a corporação policial. Agentes entraram armados na unidade escolar para questionar a direção sobre o conteúdo aplicado em sala. Posteriormente, a própria Polícia Militar concluiu internamente que não houve irregularidade na conduta dos agentes, embora haja investigação civil sobre o episódio.

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Ato reuniu crianças e seus pais e moradores da região
Cartazes a favor da Emei Antônio Bento
Capa do livro "Ciranda em Aruanda", de Liu Olivina, publicado pela Editora Quatro Cantos
Desenho da orixá Iansã que motivou pai de aluna de escola infantil de São Paulo a chamar a polícia
Caso de policiais que entraram em escola por desenho de orixá é alvo de solicitação no MPSP
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Caso de policiais que entraram em escola por desenho de orixá é alvo de solicitação no MPSP

Material cedido ao Metrópoles
Ato reuniu crianças e seus pais e moradores da região
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Ato reuniu crianças e seus pais e moradores da região

Carol Mendonça / Divulgação Mandato Celso Giannazi
Cartazes a favor da Emei Antônio Bento
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Cartazes a favor da Emei Antônio Bento

Carol Mendonça / Divulgação Mandato Celso Giannazi
Capa do livro "Ciranda em Aruanda", de Liu Olivina, publicado pela Editora Quatro Cantos
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Capa do livro "Ciranda em Aruanda", de Liu Olivina, publicado pela Editora Quatro Cantos

Reprodução/Liu Olivina/Editora Quatro Cantos
Desenho da orixá Iansã que motivou pai de aluna de escola infantil de São Paulo a chamar a polícia
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Desenho da orixá Iansã que motivou pai de aluna de escola infantil de São Paulo a chamar a polícia

Material cedido ao Metrópoles

Mas existe uma pergunta anterior a qualquer disputa religiosa: desde quando divergência pedagógica virou matéria policial?

Escola não é quartel. Escola não é templo. A escola não substitui a família, assim como a família não substitui a autonomia pedagógica da escola. A escola pública é espaço constitucional de formação cidadã, produção de conhecimento e convivência com diferenças. Isso não significa que famílias não possam discordar de conteúdos. Podem e devem participar da vida escolar. Existem conselhos, reuniões, canais administrativos, secretarias e instrumentos jurídicos. O que desloca este caso para outro patamar é a aparente transformação de um desacordo pedagógico em demonstração institucional de força.

E aqui surge um ponto que recebeu menos atenção do que deveria: não se trata apenas da entrada de policiais em uma escola. Trata se do efeito simbólico produzido quando agentes do Estado entram para interpelar educadores por uma atividade cultural. Porque foi isso que ocorreu no centro da discussão: cultura.

Há um fenômeno brasileiro pouco debatido. Elementos da tradição europeia costumam circular na escola como conhecimento universal, enquanto matrizes africanas frequentemente precisam justificar sua presença como exceção religiosa. Ninguém questiona quando crianças aprendem sobre Zeus, Atena ou Hércules. Não se costuma dizer que estudar mitologia grega equivale a converter estudantes ao politeísmo helênico. Não há denúncias de doutrinação quando se trabalha iconografia medieval, festas juninas e natalinas de origem cristãs ou referências bíblicas em literatura. Mas quando aparecem Iansã, Oxum ou Xangô, frequentemente desaparece o estatuto de cultura e surge imediatamente a suspeita de catequese. Essa diferença não é neutra. Ela revela quais repertórios receberam historicamente autorização para ocupar o lugar do universal e quais foram empurrados para o lugar do exótico, do religioso ou do tolerado.

Ensinar referências afrobrasileiras não é ensinar religião. É ensinar Brasil.

A escola pública não tem obrigação de reproduzir crenças familiares, assim como também não pode ridicularizá-las, demonizá-las. Seu compromisso é outro: ampliar repertórios, formar pensamento e garantir que crianças conheçam a diversidade que compõe o país. Isso ganha ainda mais relevância porque o ensino da história e cultura afrobrasileira não surgiu como concessão ideológica recente. Ele integra diretrizes educacionais construídas justamente para enfrentar apagamentos históricos.

Nesse cenário, a postura da direção da escola merece atenção. Porque há algo raro no episódio: profissionalismo sob pressão. Segundo os relatos divulgados, a equipe não respondeu com confronto, não expulsou familiares, não transformou discordância em disputa moral. Indicou os canais institucionais adequados, convocou espaços coletivos de debate e sustentou o papel pedagógico da escola. Esse comportamento deveria ser visto como referência institucional. O que não parece ter ocorrido com a mesma consistência do outro lado.

Se agentes públicos realmente abordaram a escola assumindo previamente que havia irregularidade pedagógica, antes de qualquer avaliação técnica da Secretaria de Educação, abre se uma questão grave sobre limites de competência e neutralidade funcional.

Algumas perguntas que precisamos de respostas. O Governo do Estado considera adequada a entrada armada de policiais em uma escola para discutir conteúdo pedagógico? A Polícia Militar entende que divergência educacional pode justificar mobilização ostensiva? Quais protocolos foram observados? Houve tratamento distinto porque o denunciante também integrava a corporação? O Ministério Público pretende avançar apenas sobre a legalidade formal da ocorrência ou também sobre os efeitos institucionais e simbólicos dessa intervenção?

Porque o que está em disputa não é apenas um desenho. É o precedente. Se uma escola pode ser constrangida por apresentar referências afrobrasileiras hoje, amanhã qualquer professor poderá ser intimidado por ensinar literatura, história ou ciência que contrarie convicções particulares.

E quando educadores começam a trabalhar sob medo, quem aprende a se calar são os alunos.

Em um país que ainda naturaliza o racismo religioso enquanto chama isso de opinião, defender autonomia pedagógica não é radicalismo. É o mínimo.