Rodrigo França

Confundido, alvejado, morto: mais um jovem negro é assassinado

A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, segundo a ONU

atualizado

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Guilherme Dias Santos Ferreira
1 de 1 Guilherme Dias Santos Ferreira - Foto: Reprodução

No silêncio áspero de uma noite do extremo sul de São Paulo, um jovem atravessa a rua com uma bolsa nas costas. Dentro, uma marmita fechada, um livro, produtos de higiene e um comprimido de paracetamol. Guilherme Dias Santos Ferreira não fugia de nada, tampouco oferecia ameaça. Caminhava com pressa para casa após um dia comum de trabalho. Era sexta-feira, 4 de julho de 2025, por volta das 22h28. O relógio da cidade marcava o tempo como se tudo fosse seguir seu curso. Mas a bala disparada pela arma do policial militar Fabio Anderson Pereira de Almeida fez ruir a cronologia ordinária das coisas. Guilherme caiu no chão, atingido na cabeça. Morreu sem entender por quê.

Tinha 26 anos. Era marceneiro em uma empresa de móveis sob medida. Trabalhava com o irmão, ajudava nas contas de casa, sonhava em abrir o próprio negócio. Não carregava antecedentes, não portava armas, não representava perigo. O que o matou foi uma política de segurança que se orgulha da velocidade com que reage, mesmo sem saber a quem. O policial alegou ter confundido Guilherme com um dos motociclistas envolvidos em um assalto. Atirou, sem abordagem, sem advertência, sem direito à dúvida. O disparo partiu de quem deveria proteger e atingiu quem não teve chance de se defender.

A autuação foi por homicídio culposo — aquele em que não há intenção de matar —, mas o tiro foi na cabeça. O PM pagou R$ 6.500 de fiança e responde em liberdade. Em poucas horas, já não estava mais detido. Guilherme, no entanto, continua morto. A cidade, que já acostumou seus olhos a esse tipo de manchete, vira a página como se a tragédia fosse estatística. Mas não é. É política.

Há uma falácia perigosa que vem se perpetuando em São Paulo: a de que combater o crime exige antecipar a culpa. A política de segurança pública do estado se construiu nos últimos anos sobre o ideal de eficiência imediata. Mas eficiência que mata inocentes não é segurança — é colapso ético. A doutrina do confronto, aplicada em zonas periféricas e regiões com população majoritariamente negra e pobre, institui um modelo de vigilância que dispensa mediação, presunção de inocência ou processo legal.

O resultado é um Estado que autoriza agentes a matar primeiro e responder depois, quando e se responderem.

O caso de Guilherme expõe essa engrenagem: a desproporcionalidade da ação, o despreparo do agente, a brevidade da apuração e a leniência com o erro. A morte foi tratada como acidente. A vida, como efeito colateral. Mas a Constituição Federal de 1988 é clara: o direito à vida é inviolável. O Código Penal não autoriza fiança para crimes de homicídio doloso. No entanto, ao se enquadrar o disparo como “erro”, ainda que as circunstâncias apontem para imprudência grave, a estrutura se reorganiza para preservar o agente público, não a vítima. Isso não é justiça. Isso é manutenção de um pacto de impunidade que age seletivamente.

Quando o próprio Estado se torna a origem da violência, estamos diante de uma contradição fundadora. Como dizia Giorgio Agamben, o soberano é aquele que decide sobre a exceção — e a exceção, nesse caso, tem cor, classe e endereço fixo. Guilherme foi tratado como ameaça por existir em um corpo que o Estado associa à suspeita. O erro não foi apenas do policial. O erro é do sistema que o formou, que o autorizou, que o protegeu e que rapidamente o liberou.

Se quisermos falar de segurança pública com seriedade, é preciso romper com a lógica do medo como motor de políticas. É preciso investir em inteligência, formação cidadã, presença social do Estado. Uma sociedade que se diz democrática não pode aceitar que trabalhadores sejam executados por equívoco e que os responsáveis sejam acolhidos com a indulgência da burocracia. Não é um caso isolado. É um padrão. Um modelo. Uma escolha política.

Guilherme levava um livro, remédios e sua marmita. A cidade, no entanto, insiste em escrever a mesma história com tinta vermelha. O jovem estava com viagem marcada para comemorar dois anos de casado.

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