Rodrigo França

Roubos de luxo e a estética da passabilidade: “Boa aparência”

Adolescente branco que roubou milhões em condomínios de luxo foi apontado como de “boa aparência” por delegado

atualizado

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Imagem colorida mostra adolescente que invadia condomínios para praticar furtos - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra adolescente que invadia condomínios para praticar furtos - Metrópoles - Foto: Reprodução/TV Globo

No domingo (29/6), o Fantástico exibiu reportagem sobre a perseguição a um adolescente de 17 anos que invadiu condomínios de luxo em São Paulo e furtou mais de R$ 30 milhões. O delegado responsável pelo caso, Fábio Sanchez Sandrin, ressaltou a “boa aparência” do suspeito. Sabemos bem que esse termo funciona como eufemismo para dizer “branco, com ar de pertencente à elite”. Afinal quem consegue transitar com naturalidade entre porteiros e moradores de edifícios de alto padrão, se não alguém que conforta os olhos e não gera suspeita imediata?

Não foi por acaso que o delegado destacou esse ponto. Ele orientou o discurso para sublinhar que o jovem se encaixava visualmente naquele universo de privilégios. Se ele fosse negro, alta probabilidade de rejeição seria imediata, insuperável. Racismo estrutural não é hipótese, é realidade para grande parte da população negra, sobretudo jovens. Boa aparência, nesse contexto, significa invisibilidade garantida; a palavra “passabilidade” traduz isso de forma ainda mais contundente: alguém que “passa”, sem ser questionado.

A reportagem destacou a rapidez com que a polícia agiu após identificar os locais de invasão, com helicópteros e equipes especializadas. Mas seria a mesma estratégia de segurança caso o jovem fosse negro? Sabemos que, historicamente, adolescentes negros são tratados como suspeitos em potencial, enquanto brancos investidos de classe social mais alta têm o benefício da dúvida, no crime vira estudante. No caso em pauta, a narrativa de boa aparência reforça essa disparidade: o autor vai de um jovem invisível a figura digna de destaque, por fugir ao estereótipo da criminalidade.

A comunicação oficial reforça ou combate o preconceito?

O delegado procurou tranquilizar a comunidade dizendo que o adolescente “tinha aparência tranquila, parecia um visitante comum”. Essa expressão revela como valorizar adequação estética funciona como atestado de convicção. Ou seja, se eu pareço, se eu visivelmente me apresento como alguém que pertence ao lugar, então estou passando. E racismo é isso: muitos relatos mostram que pessoas negras sequer conseguem entrar num condomínio sem chamar atenção, mesmo sendo moradores — imagine furtar milhões de reais.

É preciso que repensemos criticamente a forma como nossas instituições falam sobre crime. Usar termos como “boa aparência” não é inocente. Esses clichês reforçam uma lógica que naturaliza as diferenças de tratamento por cor da pele. Uma pessoa de pele clara, sem histórico de pobreza ou envolvimento com violência, tem passabilidade automática; alguém negro, não importa o quão gentil e benquisto, começa com o peso da suspeita.

Para além da ação policial, que incluiu descobrir túneis entre apartamentos e levantar movimentações milionárias, cabe a nós questionar os termos usados para descrever o suspeito. Afinal, considerar boa aparência um atestado de inocência reforça a lógica de que pessoas de pele clara têm direito de passar sem controle enquanto a presunção de suspeita permanece maior para negros.

Sob esse olhar, o caso ganha um segundo ponto de partida: se o adolescente fosse negro, não seria a opinião do delegado sobre aparência que comandaria a narrativa e certamente a cobertura seria completamente diferente. Mais importante ainda: a experiência cotidiana de jovens negros revela que barreiras invisíveis dificultam qualquer chance de “passar”. O episódio expõe essa realidade de forma explícita — e a sociedade precisa fazer mais do que naturalizar essas brechas no acesso e na presunção de legitimidade.

Foi nas portarias, mas também acontece no mercado de trabalho e na seletividade da polícia.

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