
Rodrigo FrançaColunas

A Pérola Negra do Samba
Espetáculo musical celebra a vida e a obra de Jovelina Pérola Negra e fica em cartaz até 9 de novembro no Rio de Janeiro
atualizado
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Sentei na poltrona e, de repente, fui tragado por uma máquina do tempo. O som que ecoava do palco me levou às lembranças mais íntimas. Vi meu pai, saudoso, com o rádio de pilha encostado no ouvido, acompanhando a Tropical no anos 80. Ouvi novamente a vitrola rodando seus discos preferidos, preenchendo a casa de vida, como se a música fosse também alimento. Naquele instante, dentro do teatro, o presente se encontrou com o passado, e o samba voltou a pulsar como sempre pulsou em nossas memórias afetivas.
O que testemunhei no Teatro Carlos Gomes foi mais do que um espetáculo. Foi uma celebração da vida e da obra de Jovelina Pérola Negra, mulher que, com sua voz grave e inigualável, escreveu sua própria página na história do samba de partido-alto e do pagode carioca. Uma artista que representou o subúrbio, a mulher negra, a força de quem transforma dor em canto e resistência em poesia.
Com dramaturgia de Leonardo Bruno, direção de Luiz Antonio Pilar e direção musical de Rodrigo Pirikito e Matheus Camará, A Pérola Negra do Samba não é apenas uma homenagem, mas um manifesto cultural. É memória, justiça e afeto. O palco se ilumina com Afro Flor, que encarna Jovelina com intensidade rara, ao lado de Thalita Floriano, Fernanda Sabot e Thiago Thomé, artistas que evocam personagens fundamentais da trajetória da cantora, entre eles Clementina de Jesus, sua inspiração e guia espiritual.
Mais de vinte músicas costuram a narrativa: sucessos como Bagaço da Laranja, Sorriso Aberto e Luz do Repente convivem com lados B como Amigos Chegados e Samba Guerreiro. Cada canção não é apenas lembrança, mas testemunho da negritude orgulhosa, da fé, do cotidiano suburbano, do trem lotado e da confusão na esquina. O cenário e o figurino, inspirados na canção Feirinha da Pavuna, trazem para o palco o colorido das feiras livres, os caixotes, as placas de letras em filete, a alma do subúrbio.
No palco, além das vozes, os músicos dão corpo e ritmo à celebração: Matheus Camará (violão), Rodrigo Pirikito (cavaco), Daniel Esperança (teclado), Wesley Lucas (bateria), Pedro Ivo e Thainara Castro (percussões). É deles a batida que costura memórias e dá cadência à dramaturgia.
Assistir a este espetáculo é compreender que Jovelina foi mais do que uma cantora. Foi mulher negra que venceu barreiras, enfrentou o racismo e o machismo, e que, mesmo reconhecida tardiamente, aos 41 anos, conquistou um espaço definitivo na música brasileira. Seu nome está lado a lado com gigantes como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão e Almir Guineto. Mas sua força vai além: Jovelina soube impor-se num terreno que, por muito tempo, foi considerado masculino, trazendo a malandragem e o improviso para o partido-alto com humor, picardia e coragem.
O espetáculo conduz o público a essa dimensão. É sobre samba, mas também sobre o Brasil, sobre o povo preto e periférico que todos os dias luta por dignidade. É sobre a mulher que sonhou, que conquistou, que marcou, e que continua sendo lembrada nos pagodes da cidade.
Saí do teatro com a sensação de que A Pérola Negra do Samba é hoje uma das maiores belezas em cartaz no Rio de Janeiro. E torço, de coração, para que esta obra percorra o Brasil, levando consigo a chama de Jovelina, para que nunca mais sua história seja apagada.
No Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, até 9 de novembro.
