Reinaldo Azevedo - Colunista

Trotsky, Bocage e Paulo nos ajudam a entender por que Ratinho Jr. saiu

O governador do Paraná viu Moro a corroer o seu patrimônio, mas não é só isso: a verdade é que o papo da “polarização” sempre foi uma tolice

atualizado

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O governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), desistiu da candidatura à Presidência. Não topará nem mesmo a eleição certa para o Senado. Mas por quê? Qualquer um que tenha sido um dia militante trotskista, como fui — até um pouco depois da “Primeira Juventude” (21 anos) — , já ouviu a expressão que ele não escreveu “fatores distintos e combinados” de um determinado evento. O conceito era outro, mas essa boa distorção ficou mais ou menos consagrada. Ele bem que poderia tê-la escrito. Há coisas que acontecem por motivações que, embora diversas e até contraditórias, acabam por se combinar.

Ratinho Jr., em princípio, não quer entregar seu legado, que considera inigualável, a Sergio Moro (indo para o PL) de mão beijada. Nem vai tentar a nossa “Câmara Alta”, para onde poderia ir, se quisesse, ainda que ficasse dormindo o dia inteiro. Pode vir a compor com Moro? Olhem, invertendo Bocage, o grande poeta português, digo: eles se distinguem nos transes da ventura, mas se igualam nos dons do pensamento: são dois reacionários de matizes distintas. E nem sempre isso dá liga. Mas nada insuperável, acho. A ver.

Essa é uma das causas. E outra, evidente, é que nunca houve uma demanda por “terceira via”, “candidato alternativo”, “nome nem-nem”. Ou que apelido ainda menos elegante se queira dar. Isso é uma invenção de alguns “pesquiseiros”, que acabaram vendendo o tal conceito furado da “polarização”. Todos ficaram fascinados, entre outas razões, porque é um clichê fácil de entender, como todos, e falso, como quase todos.

Quem lesse pesquisas assegurando que a maioria não queria nem Lula nem Bolsonaro candidatos ficaria com a impressão de que a demanda pela Terceira Via — ou que nome queiram dar — poderia levar as pessoas a atear fogo às próprias vestes. Em dias de ódio à política nas democracias, já que nas ditaduras isso não é possível, perguntar se os que estão por aí deveriam se aposentar não corresponde exatamente a fazer uma pesquisa, mas a produzir proselitismo barato — ou nem tão barato assim…

Aí os respondentes dizem: “Ora, claro que sim!” Não gostamos de nada do que está aí. E, então, alguns caem na conversa e articulam supostas alternativas. E esse tal povo, que logo esquece que queria o nem-nem, não dá a menor bola para o “tertius”. Na sua esmagadora maioria, ou fica com Lula ou fica com Bolsonaro — no caso, com “um” Bolsonaro…

Não se trata de “polarização”, como se fosse uma doença do espírito ou uma ditadura determinada pelos dois líderes. Aí está a tontice essencial da tese. É que o tal “terceira-via”, que Flávio chamou “sequelado”, deveria, afinal, com efeito, ser mesmo um terceiro caminho, não apenas uma espécie de trilha paralela, e ainda mais obscura em muitos casos, da que a segunda ou a primeira — a depender do nome que queiram dar à proposta reacionária.

Alguém tem alguma dúvida de que Ronaldo Caiado, se candidato do PSD for, ficará com Flávio no segundo turno? E Ratinho? O leitor vê Eduardo Leite propondo que se cerrem fileiras com Lula contra Flávio? Ora… Meus queridos, se Trotsky e Bocage ajudam a entender o quadro, o Apóstolo Paulo, mais uma vez, vem para ajudar, como já foi lembrado nesta coluna:
“Da mesma sorte, se as coisas inanimadas, que emitem som, seja flauta, seja cítara, não formarem sons distintos, como se saberá o que se toca com a flauta ou com a cítara? Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha? Assim também vós: se, com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? Porque estareis como que falando ao ar.”

Eu sempre disse que o candidato de Bolsonaro seria um Bolsonaro. E sempre sustentei que esse papo de “polarização” é um dos conceitos mais energúmenos que já frequentaram  o debate político no país. Quis o destino que Trotsky, Bocage e São Paulo nos ajudassem a entender o âmago dessa questão proposta pelo partido de Gilberto Kassab e Ratinho Jr, como na ilustração que abre este texto.

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