
Renan fora da disputa é irrelevante para Lula e muito útil para Flávio
O dito Zero Um será o principal beneficiário caso prospere a decisão de Toffoli. Livra-se do único crítico que o incomoda na direita

Não sou do tipo que toma consequência por causa ou que, dados dois eventos em sequência, considera que o primeiro é causa necessária do segundo, incorrendo no erro lógico expresso na frase latina “Post hoc ergo propter hoc”, a saber: “Depois disso, logo por causa disso”.
Vou tratar aqui da decisão do ministro Dias Toffoli, do TSE, que, no domingo, concedeu medida cautelar suspendendo a propaganda digital do candidato Renan Santos, do Missão. Ele fica ainda impedido de participar de debate de rádio, televisão, podcasts etc. E também não pode receber recursos do Fundo Partidário. Não vou me abster de opinar sobre o mérito mais adiante. Mas o meu ponto inicial é outro. Flávio Bolsonaro, do PL, se solidarizou com o alvo da decisão de Toffoli. Como crer na sua sinceridade? Não creio, claro!
Vamos lá. Para Lula, essa suspensão é irrelevante porque os demais candidatos de direita continuarão a fustigá-lo. Ademais, as acusações mais virulentas contra o petista são feitas pela imprensa por intermédio dos vazamentos ilegais, ainda que os tipos penais não sejam nem sequer apontados. Quem quer que desrespeite o devido processo legal dia sim e dia também opera com mais eficácia do que os próprios adversários declarados do petista.
Pôde-se perceber isso de maneira irrespondível na entrevista de Lula ao “Jornal Nacional”. Foram 10 minutos de variações sobre o mesmo tema. Não eram as “Variações Goldberg” do jornalismo, mas a simples reiteração do que já havia sido perguntado e com a mesma resposta do presidente: “Se fez, paga”. Mas foi preciso repetir muitas vezes o invariável. A questão é saber se quem toca essa música veste uniforme preto ou toga.
Volto ao ponto: estar Renan fora do embate eleitoral é irrelevante para Lula, mas não para Flávio. No X, o candidato do PL se solidarizou nos seguintes termos:
“Espero que o candidato Renan Renan restabeleça sua candidatura.
O Presidente @jairbolsonaro está com suas redes sociais bloqueadas há mais de um ano e a censura não pode mais ser banalizada no Brasil!”.
Espera nada! O candidato do Missão diz algumas coisas que estão à direita do próprio Flávio e é evidente que lhe tira votos no primeiro turno. No segundo, apontam as pesquisas, nem todos os que escolhem o líder do MBL migram para a candidatura do PL. Trata-se do único nome da direita que confronta o Zero Um para valer — pode, às vezes, dizer coisas piores, mas isso reforça a minha tese, não a contesta. Demonstra, de resto, que, não tendo o “carisma” do pai — ainda que eu gele de melancolia ao escrever essa palavra —, o filho não é recompensado por algum especial talento. O Missão questiona o monopólio que a família pretende exercer nesse campo ideológico. É um confronto lá deles, mas existe.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesÀ diferença do que ocorre no Novo, é, sim, permitido atacar os Bolsonaros no Missão. E tal coisa, sabemos, não é tolerada por essa coleção de zeros à esquerda que descendem do Falso Messias e Verdadeiro Bolsonaro. Flávio já reclamou de críticas que vinham da direita. Eduardo e Jair Renan expressaram a vontade de dar uns sopapos em membros do MBL. O risco, é preciso aqui advertir a PF, é o vereador de Balneário Camboriú sair por aí armado com um plural.
Não sei, reitero, agora apelando à imagem bíblica, se, nesse caso, pelo fruto se conhece a árvore. Mas sei que o único que tem razões para comemorar a decisão de Toffoli é mesmo Flávio Bolsonaro, o que não quer dizer, voltando ao começo deste texto que “post hoc ergo propter hoc”. Não se ceda, não obstante, à hipocrisia solidária com Renan. De verdade, um Bolsonaro só é solidário com outro — e tem de ser de sangue, não é mesmo, Michelle?
QUANTO AO MÉRITO
Mas qual foi mesmo o motivo? Segundo o ministro, o candidato recorreu a perfis irregulares nas redes ao registrar a candidatura e informou haver apenas dois por meio dos quais faria campanha. Doze dias depois, no entanto, a legenda reportou serem 16. O partido alega erro técnico.
Estou entre aqueles que avaliam, incluindo ministros do TSE, que a falha — e mesmo que haja dolo — deveria ensejar ação por propaganda irregular ou até abuso de poder. Não se está diante de um dos requisitos para deferir o registro da candidatura, que estão no Artigo 14, Parágrafo 3º da Constituição, afastadas as causas de inelegibilidade. Seja como for, Toffoli deveria submeter decisão tão importante ao pleno.
VOLTO AO PONTO
Se Renan fica fora, Lula terá, claro!, um crítico de direita a menos na disputa. Dada a inflação deles, no entanto, não lhe é assim tão relevante. Ademais, a principal fonte de sua dor de cabeça é a parceria entre o VIL (Vazador dos Inquéritos de Lulinha) e a imprensa.
Flávio não está nem solidário nem chateado porque sabe que o candidato do Missão lhe tira uma fatia dos votos e que pode obter um ganho efetivo se o TSE calar o seu principal crítico na direita. Não é assim porque eu quero. É assim porque assim são os fatos.



