
Reinaldo AzevedoColunas

Na prática, Valdemar diz que Flávio mentiu: pediu mais grana a Vorcaro
À GloboNews, presidente do PL diz que Flávio foi a casa do banqueiro para pedir ainda mais dinheiro, não para abrir mão dele
atualizado
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Valdemar Costa Neto, presidente do PL, concedeu ontem uma entrevista à GloboNews e, na prática, sustentou que Flávio Bolsonaro, pré-candidato do partido à Presidência, mentiu quando disse, no dia 19, ter ido ao encontro de Daniel Vorcaro para, todo pimpão, anunciar que não queria mais o seu dinheiro porque, afinal, não sabia que as denúncias eram tão graves…
O chefão do PL, um homem sincero a seu modo — vive a repetir por aí que “Bolsonaro não é um cara normal” —, desmentiu miseravelmente o Zero Um. Segundo Valdemar, o senador foi à casa do então banqueiro para tomar mais dinheiro. Transcrevo mais adiante a conversa. O vídeo está aqui.
Para lembrar: confrontado no dia 13 com a informação dos recursos milionários que teriam sido aportados por Vorcaro ao filme, o senador riu com desdém, desconversou, tratou o repórter como maluco e correu. Algumas horas depois, emitiu uma nota sem desmentir uma única linha da reportagem do Intercept Brasil. E as contradições e revelações constrangedoras só se avolumaram.
No dia 19, depois de se reunir com as respectivas bancadas do PL na Câmara e do Senado, Flávio falou à imprensa. Tentou fingir firmeza:
“Fui, sim, até o encontro dele [Vorcaro]. Ele estava restrito e não podia sair do estado de São Paulo. Então fui até ele. Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo, e o filme não correria risco”.
Grande homem! Que valente! Nota: o encontro aconteceu um dia antes de a sua candidatura ser anunciada.
Vamos ao trecho da entrevista de Valdemar à Globo News.
VALDEMAR: O Vorcaro não tinha problema nenhum quando ele [Flávio] pediu dinheiro. Ele [Flávio] foi visitar [Vorcaro] depois para ver se conseguia o restante do dinheiro. Para ver se conseguia…
ANDRÉIA SADI: Mas já sabendo que ele [Vorcaro] era um criminoso investigado, não é?
VALDEMAR: Ele era investigado, mas não foi na… Calma! Estava sendo investigado… Não tinha nada. Não tinha! Não foi condenado a nada… Está sendo investigado. Nós não temos dúvida de que ele [Vorcaro] passou dos limites, e foi uma barbaridade o que Vorcaro fez no país. Mas isso é normal! O que o Flávio fez é natural! É a coisa mais normal do mundo!
SADI: Qual parte? Visitar o Vorcaro?
VALDEMAR: Visitar o Vorcaro também porque o Vorcaro tinha ajudado ele, e ele queria terminar a relação com o Vorcaro: ‘Olha, vai me pagar? Vai pagar o restante? Dá pra me pagar o restante ou não dá?”
SADI: Mesmo sabendo que o Vorcaro era enrolado?
VALDEMAR: Sim, ué, fazer o quê? Enrolado! Mas fazer o quê?
SADI: Investigado, preso, tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar…
Vamos ver. Valdemar não é notório por ser idiota. Ou, convenham, dada a sua trajetória, não estaria no comando do partido com a maior bancada do Congresso e com a maior naco do Fundo Eleitoral. Nas respostas que deu:
– desmente Flávio: “pegar o restante”; “vai me pagar?“; “vai pagar o restante?”; “dá pra me pagar o restante ou não dá?”;
– evidencia a proximidade da dupla: “o Vorcaro tinha ajudado ele”;
– parece dizer que Flávio não tinha alternativa: “Enrolado, mas fazer o quê?”;
– com o que parece ser disposição para chocar, um peso que recai sobre Flávio, fala e reitera: “Mas isso é normal! O que o Flávio fez é natural! É a coisa mais normal do mundo!”
Coube a Gaspar notar que o presidente do PL estava desdizendo o candidato:
GASPAR: Mas espera aí. O senhor está dando uma informação nova pra gente. [DIRIGINDO-SE AOS COLEGAS DE ESTÚDIO]. Ele [Valdemar] está dizendo que o Flávio Bolsonaro foi lá tentar saber se dava para pagar o restante. É isso?
VALDEMAR: Eu penso que sim. Eu não conversei esse assunto com o Flávio depois…
GASPAR: Não? O senhor não conversou com ele?
VALDEMAR: Não, não. Da visita, não; da visita, não. Só quando estourou o problema, e nós nos reunimos para saber o que ele iria responder.
GASPAR: Então… E, nessa ocasião, ele falou que foi tentar saber o quanto mais dava para pagar, é isso?
VALDEMAR: Não, não, não. Não tocou nesse assunto. Eu só soube depois. Eu não sabia disso, que ele tinha voltado lá…
GASPAR: Nessa reunião, então, é que ele contou para o senhor…?
SADI: Nessa da bancada, com todo mundo?
VALDEMAR: Não, não, não. Só soube depois pela imprensa.
SADI: Ele [Flávio] não disse que contou para a bancada que foi lá no Vorcaro, na versão dele, encerrar a relação?
VALDEMAR: Falou…
SADI: Então… O senhor está dizendo que ele foi lá pedir o restante para pagar o filme, certo? De quanto? Qual era o valor?
VALDEMAR: Não sei. Não tenho ideia. Não conversei com ele esse assunto.
SADI: Ele não falou também, não quis contar, de livre e espontânea vontade?
VALDEMAR: Não conversei esse assunto com ele.
PERCEBERAM?
Valdemar está a dizer que, definitivamente, não tem nada com isso e que Flávio enganou todo mundo: ele próprio, os parlamentares, o partido. Soube tudo pela imprensa.
Reza o adágio que o diabo é diabo porque é velho — experiente — não porque é sábio. Observem que o ditado emprega o “é”, não o “seja”, no subjuntivo, que é o modo da dúvida. Logo, o diabo também é sábio para as suas safadezas, mas é a sua experiência que lhe garante o lugar de poder. E Valdemar vem de longe.
Das duas, uma ou as duas:
1: Valdemar quer ver Flávio pelas costas;
2: prepara o terreno para novos sortilégios.
O candidato não se manifestou. Uma curiosidade adicional: se R$ 61 milhões já haviam sido repassados e se o filme custou pouco mais do que isso — e na hipótese de que o dinheiro repassado por Vorcaro tenha realmente servido para financiar essa obra que não nasce prima, mas certamente já é única —, que destino Flávio pretendia dar aos outros R$ 70 e tantos milhões?
Valdemar, no entanto, jura que seu candidato é o Zero Um. Numa fala que carrega uma ambiguidade que não depende da sua vontade, diz que vai com Flávio “até o fim”. Pois é…
Acusem Valdemar de qualquer coisa. Só não apostem na sua falta de inteligência — que não é sinônimo de caráter nem para amigos nem para inimigos. Por que Valdemar falou o que falou? Não foi, certamente, para tornar mais fácil a vida do pré-candidato.
Até que Flávio não desminta o presidente do seu partido, vale a versão de que foi à casa de Vorcaro em busca dos outros milhões.