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Reinaldo Azevedo

Mendonça infeliz com punição de golpistas? E seu instituto milionário

Ministro faz profissão de fé em humildade econômica que não tem e se mostra insatisfeito com o que o Supremo fez de melhor pela democracia

26/08/2026 12:10
Mendonça infeliz com punição de golpistas? E seu instituto milionário
Mendonça infeliz com punição de golpistas? E seu instituto milionário

Não vou, desta feita, indagar ao ministro André Mendonça, do STF, por que os inquéritos sobre Lulinha que estão com ele são uma peneira — tudo vaza — e por que nada vaza sobre o “Dark Horse”. E igualmente não vou perguntar por que, até agora, ninguém se interessou pelas lambanças da GO UP, a produtora que pertence a Karina da Gama (que fez o tal filme), que também é a chefona de um tal Instituto Conhecer Brasil, uma de suas ONGs (ou algo parecido) que movimentam valores milionários, inclusive em emendas. Nota: o ministro Flávio Dino só determinou o compartilhamento das investigações conduzidas pela Polícia Civil de São Paulo porque é o relator da investigação sobre a esbórnia das emendas. Não vou perturbá-lo com nada disso. Hoje, as minhas dúvidas dirigidas ao douto Mendonça têm a ver com Lupicínio Rodrigues, talvez até com Assis Valente… Vou explicar tudo. E terei de perguntar: ele acalentava golpistas?

Na sexta passada, o ministro fez a palestra de encerramento do 5º Seminário Nacional da Anamel (Associação Nacional de Magistrados Evangélicos), no Instituto Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo. “Anamel” só não é um nome mais poético, quando considero a etimologia de “Ana” e de “mel”, do que “Deserto Feliz”, a cidade alagoana para onde Arthur Lira correu para não ter de se encontrar com Flávio Bolsonaro em Alagoas… “Anamel”… Algo como a “A Doçura da Graça”. Ou “A Graça da Doçura”. Em qualquer ordem, a misericórdia de Deus grita com fúria lírica. Mas voltemos.

Mendonça fez um discurso cuja síntese poderia ser esta: ninguém deve ambicionar ser ministro do STF para ficar rico. Quem nasceu anteontem — como é o meu caso, embora pareça ter sido ontem, claro! —, entendeu que ele manda recados a alguns possíveis desafetos do tribunal, com os quais pretende contrastar a sua suposta humildade — não direi “franciscana” porque, na chave do cristianismo, ele deriva de um cisma.

Se bem que São Francisco é anterior ao grande racha, né? Pode servir de inspiração ao ministro. E, antes deste, talvez conviesse prestar atenção a Santo Agostinho: “Mais vale quem me critica porque me corrige do que quem me adula porque me corrompe”.  Espero que o ministro não se tenha deixado levar pela concupiscência da adulação, a mais perigosa de todas.

ITER

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Mendonça é um dos sócios do Instituto Iter, uma Sociedade Anônima de capital fechado, que vem a ser a mais opaca das formas possíveis de se ter uma empresa. Já celebrou dezenas de contratos com entes públicos, e ele sabe disso. “Ah, você é um antimendoncista! Não acredito em você!”. Tá bom. Acreditem, então, no Estadão, em reportagem de 21 de outubro de 2025. Com um pouco mais de um ano de existência, o Iter havia celebrado contratos com entes públicos de R$ 4,8 milhões. Hoje, as, bem…, celebrações, então em R$ 11,1 milhões. São Francisco preferiria renunciar às próprias vestes.

E ninguém sabe quantas são as contratações com empresas privadas. O ministro não está obrigado a revelá-las. O fato é que, quando votou pela absolvição de Cláudio Castro, num crime eleitoral que o magistrado admitiu ter acontecido, o Instituto Iter mantinha um contrato com a área de Segurança Pública do Rio. Quero a cabeça do Mendonça ou seu impeachment? Não. Para eu cruzar essa fronteira perigosa, que vive sendo visitada por irresponsáveis, seria preciso que ele implicasse um risco grave de crise institucional. Não acho que chegue a tanto. Embora, como diria Leonel Brizola, costeie o alambrado.

GOLPE
Depois da profissão de fé nessa humildade que navega em milhões — seu instituto dá curso de oratória… Topo ou não? —, Mendonça resolveu fazer uma confissão, que saiu assim:
“Queria dizer para vocês que os dois primeiros anos, não os três em que eu fiquei, mas os dois primeiros anos ali no tribunal, foram períodos de muita infelicidade para mim. Ou seja: se aquilo fosse um ideal de vida, eu teria que deixar no dia seguinte. E, mesmo hoje, podem ter a certeza: é (sic) muito mais o ônus e a responsabilidade do que qualquer outra coisa. Minha esposa está aqui e sabe as limitações pessoais, as pressões, os momentos difíceis, em que, muitas das vezes, você até coloca: ‘Deus, eu queria ter uma vida mais normal, vamos dizer assim, num ato até humano, de pedido de misericórdia e ajuda de Deus para os desafios. Mas, na essência, eu quero dizer para vocês: “Não coloque seu coração no poder; não coloque seu coração no dinheiro porque você vai se frustrar. Se esse for o seu propósito, ouçam a experiência de quem poderia dizer: ‘Cheguei ao ápice do poder na Justiça!’ Você vai se frustrar. Eu convivo com outros colegas. E conversamos alguns colegas mais abertamente: e tenho certeza de que o ônus e a responsabilidade é (sic) muito maior do que qualquer outra coisa”.

COMENTO

Há várias coisas aí. Jamais caio no truque de um poderoso que pede para que dele me compadeça. Aliás, eu mesmo evito isso com pessoas que sei com muito menos poder de intervenção sobre a sua vida do que eu próprio. Acho um discurso indecente… Minha mãe foi doméstica, e meu pai trocava mola de caminhão. Já eu sou muito mais dono das minhas vontades. Não esperem que eu diga para uma pessoa pobre: “Não sabe como eu sofro”. Tenho um pouco de nojo desse discurso. Na verdade, muito nojo! Não quero ter pena de ministros do Supremo. Quero ter respeito. Nem sempre é possível. Mas sou decoroso.

Mendonça sofreu muito nos dois primeiros anos? “Felicidade foi-se embora, e a saudade no meu peito…” Huuummm… “Ou então felicidade é brinquedo que não tem”. Vamos de Lupicínio ou de Assis Valente?

Infeliz justamente no período em que os golpistas estavam sendo punidos? Por que o nosso terrivelmente cristão não se alegrou? Foram mandados para a cadeia bandidos que planejavam um banho de sangue no país; que arquitetaram o assassinato do presidente da República, do vice, de um ministro do STF, parceiro do nosso infeliz da hora… O cristianismo, como eu o entendo, foi reverenciado pelo tribunal a que Mendonça pertencia. Ainda assim, ele estava infeliz.

É tratado agora, relator das investigações sobre as lambanças do INSS e do Master, como “o homem mais poderoso do país”. Não parece infeliz, claro! E o tal o Iter o coloca, indubitavelmente, na “classe A”. Falta que demonstre que suas afinidades eletivas não pautam as suas escolhas. Mas olhem que já nem espero tanto.

Por ora, bastaria a mim que, membro do corte, não se dissesse infeliz justamente quando coube a ela dizer que suprema é a Constituição. Por que ele ficou triste? Faltam-lhe os afetos de alegria da democracia? Assim não há misericórdia cívica.