Flávio é um “Bolsonaro vacinado”? E uma questão: “Liberdade para quê?”
O vírus da tolerância com a agressão à democracia contamina a imprensa: vulnera instituições, e bactérias da fascistização se multiplicam
atualizado
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Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, já lembrei aqui mais de uma vez, ameaçou o país com um golpe de Estado caso o STF decida que indulto ou anistia são inconstitucionais (a concordância, nesse caso, é no plural mesmo). Assim será, claro!, na hipótese de que vença a eleição. Como a frase não foi retirada, a ameaça golpista continua em vigor. Não é desse modo porque eu queira, mas porque assim são os fatos. Quem será o primeiro a indagar no Brasil “Liberdade para quê?”. Guardem esta frase porque voltaremos a ela quando eu evocar um filme espetacular. Sigamos.
Como o Supremo se tornou o alvo principal da cobertura política, o “Risco Flávio” tem sido ignorada pela imprensa, e se fica com a impressão de que os dilemas e desafios postos no futuro pós-eleitoral dizem respeito apenas à economia. Trata-se de uma versão fraudulenta dos fatos, plasmada por uma cobertura jornalística, lamento que assim seja, que, sob o pretexto de corrigir eventuais desvios do tribunal, o atinge com fúria destruidora enquanto condescende com autoritários abaixo de qualquer suspeita de adesão ao estado de direito. Não acho que triunfem, mas a determinação impressiona.
Se eu tivesse de sintetizar uma divisa a respeito, escreveria assim: com democracia, seremos sempre livres para tratar dos embates econômicos; sem ela, ou na sua versão rebaixada, os interesses dos grupos que se aboletarem no poder tentarão se fingir de imperativos categóricos.
FLAVINHO PAZ E AMOR
Há um vídeo de Flávio no Instagram em que ele expõe um tanto de sua rotina doméstica com as filhas, além dos primórdios do namoro com Fernanda, sua mulher. E nós a ouvimos dizer: “Não é à toa que você é um Bolsonaro moderado”. Acrescenta: “Reeduquei ele (risos)”. Na sequência, o próprio pré-candidato afirma: “Quando algumas pessoas começam a falar, né?, [que] eu sou um Bolsonaro vacinado… Olhando isso tudo, Deus foi me preparando para esse momento”. Ela, então, anuncia a aurora: “O brasileiro pode esperar um presidente com muita garra para lutar por esse país, para lutar por Justiça”.
Numa análise fria, pode-se afirmar que ambos reconhecem que o bolsonarismo, no seu estado puro, no formato do Bolsonaro original, é perigoso para o país. Foi preciso que ela “educasse” o marido. Sei. A frase dita pelo próprio pré-candidato é plena de simbolismos: “[as pessoas falam que] eu sou um Bolsonaro vacinado”.
IRONIA E TRAGÉDIA
Ironia e tragédia de dimensões bíblicas se misturam na sua fala. A Covid matou quase 700 mil pessoas. E aqui cumpre evocar, mais uma vez, o Supremo, que determinou um calendário de imunização e impediu o candidato a tirano que governava o país de mandar outros milhares para a morte, já que lhe foi negado o monopólio que reivindicava, contra a Constituição, da decisão sobre distanciamento social.
Falei do morticínio. Agora a ironia que vem na forma de uma metáfora: Flávio é mesmo um “Bolsonaro vacinado”? Ainda que tenha se permitido tomar o imunizante — depois de inicialmente combatê-lo —, não tenho como evitar a pergunta: ele também está infenso ao vírus do golpismo? Voltem às primeiras linhas do texto. Mais: no que respeita à diversidade, já tomou a vacina antirrábica (outra metáfora), que protege contra a intolerância, o comportamento fascistoide, a discriminação? Lembro que apanhou de sua base porque votou a favor da extensão das penas previstas na Lei 7.716 para quem pratica misoginia. Fez o quê? Mostrou-se imune? Que nada! Atacou a iniciativa e ainda se disse enganado… Flávio é mesmo um bolsonarista vacinado?
DIVERGÊNCIAS
Li outro dia o libelo furioso de um militante de extrema direita que gosta de se esconder na pele de acadêmico. Sustentava que a esquerda, mais uma vez, pretende fazer um embate entre “democracia” e “não democracia” para esconder seus desastres econômicos e impedir o país de encontrar uma alternativa.
Ainda que houvesse algum caminho na economia descolado das escolhas políticas, eu teria de perguntar: “Qual é o de Flávio?” No pouco que falou a respeito, anunciou que pretende arrendar o Brasil aos EUA e se juntar a Trump na hostilidade à China, nosso principal parceiro comercial. Exceção feita à promessa da sabujice, nada há que se conheça como uma nova via. Reitero: ainda que tivesse mesmo o “Moisés” de todos os planos econômicos, cumpriria indagar: é possível conciliar avanços nessa área com uma agenda de degradação institucional? E aqui chegamos ao ponto: a extrema direita sempre acreditou nisso. Mais do que acreditar: vulnerar a democracia é ingrediente de sua receita.
O que é um tanto surpreendente nestes tempos é o retrocesso na cobertura jornalística, aí sim. Se a imprensa brasileira, como exporia uma bibliografia elementar, nunca foi estranha ao golpismo, julgava-se que já tivesse se curado dessa doença. Mas não. Essa vacina não “pegou”. Flávio tem desfilado imune, como se fosse, de verdade, um “Bolsonaro vacinado”…
“MEPHISTO”
Tenho aqui de recomendar o espetacular “Mephisto” (1981), do diretor húngaro István Szabó, vencedor do Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro” em 1982. Trata-se de uma obra-prima inspirada no romance de Klaus Mann, filho de Thomas. Há algumas diferenças entre o texto e a adaptação, mas ficarei no que os une.
Contam a história do ator Hendrik Höfgen (interpretado por Klaus Maria Brandauer), oriundo, no enredo, dos embates do teatro brechtiano, de esquerda. Ele se destaca, mesmo depois da ascensão do nazismo, interpretando Mefistófeles numa adaptação para o teatro de “Fausto”, de Goethe. Sua atuação desperta a admiração do “general” ou “Primeiro Ministro”, inequivocamente o Número Dois do regime. Vocês sabem quem era o Um…
Percebem? No teatro, Hendrik fazia o papel do diabo que seduzia almas, enquanto ele próprio era seduzido pelo mal na figura do “General” que tinha grandes planos para ele desde que abdicasse de seu passado de esquerda e passasse a ser uma estrela cultural do regime. E foram muitos os seduzidos na vida real, a exemplo da roteirista Thea von Harbou, mulher do gigantesco Fritz Lang. Ele se exilou; ela serviu ao nazismo…
Há dois momentos emblemáticos do filme. Hendrick era amante de Juliette, uma dançarina negra. Seus novos “amigos” ordenam que se livre dela: vai para o exílio em Paris. No último encontro de ambos ainda na Alemanha, ele deixa claro que o relacionamento acabou. Na despedida, a câmera registra o momento em que desce as escadarias da estação de metrô U-Bahn, em Berlim. Sua vida pregressa morria ali, quando se embrenhava nos subterrâneos do novo poder.
Tempos depois, ele aproveita uma ida à capital da França como um embaixador do “vigor cultural” nazista e se encontra com Juliette. Ela tenta convencê-lo mais uma vez a deixar a Alemanha e exalta os valores da liberdade. Ao caminhar depois, sozinho, pelas ruas de uma Paris que ainda não tinha sido ocupada, murmura: “O que eu poderia fazer aqui? Liberdade? Para quê?”
“HENDRIK EXISTIU”
Realmente existiu um “Hendrick”. Seu verdadeiro nome era Gustaf Gründgens. Foi casado com Erika, irmã de Klaus entre 1926 e 1929. Tudo indica que era uma relação de conveniência porque há a suspeita de que seu verdadeiro par amoroso fosse o cunhado… Isso não importa. A família Mann — e Thomas já era um gigante da literatura; tinha recebido o Nobel em 1929 — se exilou em 1933, perseguida pelos nazistas. O poderoso que capturou a sua alma foi o marechal Hermann Göring, que se disse inocente no julgamento de Nuremberg…
Após a morte de Gründgens (1963), seu filho adotivo, Peter Gorski, pediu, em 1964, a proibição do livro de Klass alegando que difamava a honra do pai, o que foi concedido pelo Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, em 1971, Fundamento: o direito à personalidade teria prevalência sobre a liberdade de expressão. A interdição só caiu depois que o filme de Zsabó ganhou o mundo.
O próprio diretor de um dos maiores filmes da história do cinema viu a sua reputação um tanto arranhada quando veio a público, em 2006, a informação de que tinha sido um informante do regime comunista húngaro entre 1957 e 1963, o que ele confirmou, alegando, no entanto, que atuara para proteger pessoas…
ENCERRO
Hoje, infelizmente, parece-me que setores que aturam na defesa intransigente das liberdades desde o fim da ditadura estão a se perguntar, em nome de valores supostamente maiores, “democracia para quê?” E fingem acreditar, por estupidez ou conveniência, que Flávio é mesmo um “Bolsonaro vacinado”. É inegável que, neste momento, um vírus contamina a imprensa: o da tolerância com a agressão à democracia sob o pretexto do apreço pela pluralidade. Ele vulnera as instituições, e as bactérias oportunistas da fascistização do cotidiano se multiplicam e fazem o seu trabalho. Vamos ver no que vai dar. Se há uma moral nessa história toda, talvez seja esta: jamais será cabível a pergunta “Liberdade para quê?”.

