
“Dark Horse” e rabo do porco. Cadê a investigação federal a respeito?
Se Wagner é investigado por supostos R$ 3,5 milhões — e não digo que não deva —, por que Flávio não o é por R$ 60 milhões não supostos?

Que coisa, não? O caso dos milhões transferidos por Daniel Vorcaro, a pedido de Flávio Bolsonaro, para o suposto financiamento do filme “Dark Horse” começa a virar uma coisa meio enrolada, assim como o rabo do porco. E sem a devida investigação.
É claro que vocês repararam: até agora, tomados como indivíduos, Flávio e Eduardo Bolsonaro são os destinatários da maior soma de dinheiro enviada pelo ex-banqueiro. E, sim, antes que continue, noto: tudo o que veio a público de conversas travadas por Vorcaro ou pessoas de sua confiança sugerem que o então banqueiro parecia imaginar estar financiando um filme, o que, em si, não é crime. Tampouco o é receber o financiamento. Mas era mesmo isso o que estava em curso? E aí está o busílis. É forçoso reconhecer: em cognação sumária, como gostam de dizer os magistrados, tudo sugere que não. Logo, é preciso investigar.
O senador Jaques Wagner (PT-BA) — que tem de deixar a liderança do governo no Senado se tiver um pingo de juízo — foi alvo de mandado de busca e apreensão por suposta patranha de R$ 3,5 milhões envolvendo o Master. Vamos para o limite? Uma empresa de que é sócia a mulher de seu enteado teria prestado serviços da ordem de R$ 11 milhões para o banco. A ver se reais ou não.
Para o filme (é mesmo?), foram transferidos nada menos de R$ 60 milhões. O senador Jaques Wagner é investigado, mas o senador Flávio não. A questão começa a ser perder no rabo do porco. E aí, ministro André Mendonça?
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) entrou com uma notícia-crime no STF para que Bolsonaro e Flávio fossem incluídos no inquérito de coação, que resultou na condenação de Eduardo. Por prevenção, caiu nas mãos de Alexandre de Moraes, que enviou a petição para a PGR. Esta afirmou, por sua vez, que o caso se insere no âmbito da apuração do caso Master, cujo relator é André Mendonça.
Dada a manifestação, Moraes enviou o caso para a Presidência do STF — o ministro Edson Fachin — para que decida se a petição fica com ele (Moraes), se segue para André Mendonça ou se é encaminhada para livre sorteio.
Saibam: até agora, inexiste uma investigação sobre a destinação multimilionária de Vorcaro a Flávio. Tudo o que se sabe a respeito decorre de reportagens do Intercept:
– o pedido de R$ 134 milhões;
– o envio de R$ 60 milhões;
– o áudio de Flávio pedindo dinheiro;
– a reunião que ele fez com o então banqueiro;
– a existência do fundo Havengate;
– o fato de Eduardo ser também um dos administradores desse fundo;
– contrato sigiloso…;
– a vida nababesca de Eduardo nos EUA;
Por incrível que pareça, a investigação que mais incomoda os bolsonaristas é feita pela Polícia de São Paulo porque a tal Karina da Gama, dona da produtora GO UP, comanda um emaranho de empresas e entes que lidam com milhões de dinheiro público, incluindo um rolo envolvendo instalação de WI-FI para a gestão Ricardo Nunes da ordem de R$ 150 milhões. Ela mora numa das regiões mais pobres da cidade de São Paulo e pediu uma moradia à Prefeitura por intermédio de um programa para pessoas carentes. Sintetizo: não há políticos que tenham recebido de Vorcaro soma tão vultosa como Flávio e Eduardo. E, até agora, inexiste um despacho do STF determinando que se investigue o caso.
NA HIPÓTESE MAIS BENIGNA, CAIXA DOIS
No dia 15 deste mês, Eduardo Bolsonaro e o diretor de “Dark Horse”, Cyrus Nowraste, concederam uma entrevista nos EUA sobre o filme. Eduardo disse que se trata de uma peça destinada à “guerra cultural”, e Cyrus afirmou esperar que os brasileiros se deixem impactar pela obra e “levem Flávio Bolsonaro ao poder como o próximo presidente do Brasil”.
Vale dizer: no caso de a grana ter sido realmente destinada ao filme, trata-se de material de propaganda eleitoral, com custos não declarados. Ou por outra: na hipótese mais benigna, fala-se de caixa dois de campanha. É uma piada que inexista uma investigação federal a respeito do imbróglio, que passe, inclusive, por Karina da Gama. E, como sabem os que me acompanham, faço essa cobrança desde que o caso veio a público. E aí? Vai ser o quê?


