"A Metamorfose" – Flávio e a mãe acordam como terroristas monstruosos
A editora Zona Oeste do Rio lança a “Versão Vivendas da Barra” de “A Metamorfose”, de Kafka, aquele que “cafta” não era. E o fim do mundo

Depois de “Os Irmãos Karamazov — Versão Vivendas da Barra”, a Editora Rio-Zona Oeste lança pelo mesmo selo a versão adaptada de “A Metamorfose”, uma releitura do clássico de Kafka, que certo ministro da Educação do bolsonarismo, Abraham Weintraub, chamou “kafta”, aquele espeto de carne moída cuja grafia preferencial, segundo o Houaiss, é “cafta”. Depois retomo o episódio pitoresco e picaresco… Voltemos.
Um dos principais aliados de Flávio Bolsonaro no Rio, um tal Fábio Canella, foi preso pela Polícia Federal durante a deflagração da sexta fase da “Operação Unha e Carne”, que mira um esquema de lavagem de dinheiro estimado em R$ 7,6 bilhões que envolve postos de gasolina e a venda irregular de combustíveis, tudo sob o guarda-chuva de organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho.
Canella já estava com a sua campanha ao Senado no forno — e caiu mais um, como no soneto “As Pombas”, do parnasiano Raimundo Corrêa: “Vai-se a primeira pomba despertada…/Vai-se outra mais… mais outra… Enfim dezenas/ De pombas vão-se do pombal, apenas/Raia, sanguínea e fresca, a madrugada…” Querem adaptar? “Vai-se o primeiro brother criminoso/de Flávio; vai-se outro mais… mais outro,/ enfim dezenas”…
E começa a ficar difícil montar uma chapa para o Senado. Mas há nisso tudo um agravante, não? A pré-candidata a suplente de Canella era ninguém menos do que Rogéria Nantes Bolsonaro, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo. Sim, ex do Mito — do tempo em que este ainda não sabia beijar, segundo revelação de Sóstenes Cavalcante. Deus dos Aflitos! Como a gente “deslê“ e “desouve” o nefando?
Gostar de mãe parece coisa normal até para essa família singular. Suponho que Flávio imaginava um cenário em que todos fossem eleitos, e Canella, ora preso por possível vinculação com organização criminosa, seria guindado a um ministério, e a genitora se faria senadora. “Não nos assuste com distopias, Reinaldo”. Eu? Mas e “A Metamorfose – Versão Vivendas das Barra”?
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Qual a charada, Tio?”
Nenhuma. Tudo muito simples. Quem leu o pequeno grande livro de Kafka não tem como esquecer. Vai aqui na tradução de Modesto Carone (Companhia das Letras):
“Quando Gregor Samsa despertou de sonhos intranquilos uma manhã, viu-se metamorfoseado em sua cama num inseto monstruoso.”
Agora na nossa adaptação:
“Quando Flávio, Eduardo e Rogéria despertaram de sonhos intranquilos uma manhã, cada um deles viu-se metamorfoseado, em sua respectiva cama, num terrorista monstruoso”.
“Ah, você não gosta dos Bolsonaros e está inventando”. Não gosto. Mas não invento. Apenas aplico o fundamento que eles mesmos foram defender nos EUA na certeza de que estavam dando uma grande cartada eleitoral.
Explico direitinho, como busco fazer sempre, para que vocês não percam o fio. A Lei de Imigração e Nacionalidade (Immigration and Nationality Act – INA), na Seção 219, dos EUA, dá ao secretário de Estado — “in casu”, um certo Marco Rubio) — o poder de designar determinados grupos como “Foreign Terrorist Organizations – FTO” — Organizações Terroristas Estrangeiras.
E combatê-las, em nome da segurança dos EUA, passa a ser tarefa do Pentágono e da CIA. Daí que não se trate de nenhum delírio a avaliação de que o Brasil se torna, por força do texto legal, um alvo militar. Não é questão de querer, mas de fato. E o Itamaraty cumpriu seu dever ao apontá-lo.
Há mais: a Ordem Executiva 13.224, amparada na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional – IEEPA), confere ao mesmo Departamento de Estado a competência para categorizar os Terroristas Globais Especialmente Designados (Specially Designated Global Terrorists – SDGT). E, nessa chave, cabe à Secretaria do Tesouro punir indivíduos e empresas que, em algum momento, ainda que indiretamente, tenham se relacionado com as tais “Organizações Terroristas Estrangeiras”.
Vamos juntar Kafka com as disposições legais norte-americanas.
O tal Canella operou a serviço de um grupo ligado a organizações criminosas que os EUA consideram terroristas? Então terrorista — ou seu assecla — é. Trata-se de um aliado, amigo de fé, irmão, camarada de Flávio? Logo, o pré-candidato do PL foi tocado pelo mal. Pior ainda: sua mãe, a suplente, também. Vamos adiante. A empresa que enviou para os EUA recursos para o filme “Dark Horse” transferiu dinheiro para uma outra que, segundo as investigações, lavava dinheiro para o PCC? Então, dizem os norte-americanos — em lei que os Irmãos Karamazov do Vivendas da Barra endossam —, também estes se deixaram inocular pelo vírus do “pececismo” e têm de ser punidos.
Está mais clara agora a minha adaptação?
“Quando Flávio, Eduardo e Rogéria despertaram de sonhos intranquilos uma manhã, cada deles viu-se metamorfoseado, em sua respectiva cama, num terrorista monstruoso”.
Não sou eu que quero assim. Flávio e Eduardo querem assim.
RETOMANDO KAFKA E CAFTA
Volto a maio de 2019, quando Weintraub, o então ministro da Educação de Bolsonaro, confundiu Kafka com “kafta”. Ao responder às críticas, resolveu atacar os “asseclas do PT”. Mas se atrapalhou de novo e os chamou de “acepipes” — sim, cafta é um acepipe… Informação exclusiva: Bolsonaro enviou Jair Renan para uma imersão com Weintraub, e o rapazola aprendeu o plural “cidadões”, com que premiou Balneário Camboriú.
Uma coisa é certa: esses bravos jamais parafraseariam Stálin, um estudioso de linguística (mais detalhes em “A Corte do Czar Vermelho”, de Simon Sebag Montefiori), que: “Fizemos a revolução, mas conservamos a bela língua russa”. Se um dia houver mesmo a revolução bolsonarista, não restará nem a “Inculta & Bela”, que perderá todo o esplendor e será apenas sepultura. Leiam depois o soneto “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac, outro parnasiano…
Os terroristas nos prometem a prefiguração de Sofonias, um profeta menor que antevia a disposição do Senhor:
“Destruirei completamente tudo o que há sobre a face da terra. Destruirei os homens e os animais; destruirei as aves do céu e os peixes do mar… eliminarei os homens da face da terra”.
Será o fim dos “cidadões” .
O Deus do Velho Testamento era (ou “é”; o Senhor não tem pretérito) meio neurastênico. Fulminou Onan por uma coisinha divertida. Imagino o que não poderia fazer por causa de um plural desatinado. Eu, ao menos, faria. Que essa gente esquisita seja grata por minha “melancólica humanidade”.



