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Ramiro Brites

Derrotado por Peña na eleição, Alegre critica renúncia: “Não quer ir preso”.

Efraín Alegre diz que renúncia de Santiago Peña busca evitar processo penal e cobra devolução do dinheiro na crise do Ueno Bank, no Paraguai

06/11/2026 04:30
Reprodução/Facebook
Derrotado por Peña na eleição, Alegre critica renúncia: “Não quer ir preso”

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia na quinta-feira (5/11), mas a votação do pedido foi suspensa por falta de quórum no Congresso: havia 40 parlamentares, e eram necessários 41. Assim, ele segue no cargo, e o impeachment aprovado por 78 votos na Câmara aguarda análise do Senado.

A crise começou com o colapso do Ueno Bank, banco digital que sofreu intervenção do Banco Central paraguaio na segunda-feira (2/11) por não cumprir requisitos mínimos de solvência. Cerca de 3 milhões de clientes ficaram sem acesso às contas. Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do banco, até março de 2025.

Ao Metrópoles, Efraín Alegre (foto em destaque) fala sobre o rival que o derrotou em 2023, quando Peña teve 42,74% dos votos, contra 27,48% do opositor. Alegre cobrou recontagem, mas a Justiça Eleitoral descartou fraude. O opositor do atual presidente acredita que a renúncia de quinta-feira não provocará novas eleições, mas que deve servir de caldo político para a próxima disputa, marcada para 2028.


“Ele não quer ir preso e não quer devolver o dinheiro”

Santiago Peña apresentou sua renúncia à presidência do Paraguai. Como o senhor interpreta essa decisão? Foi um gesto de responsabilidade ou uma forma de evitar um julgamento político e a prestação de contas ao Congresso? Na verdade, é uma forma de evitar o processo penal, porque com a renúncia ele continua mantendo a imunidade. A responsabilidade de Peña, assim como a do [vice-presidente Pedro] Alliana, é fundamental em toda esta crise. Isso não poderia ter ocorrido sem a cumplicidade do poder político. Além disso, não se deve esquecer que Peña fazia parte desse grupo econômico. Certamente continua fazendo parte, mas, depois que o encontraram como parte desse grupo, ele apresentou uma renúncia.

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Concretamente, a Câmara dos Deputados acaba de iniciar o julgamento político, ou seja, não analisou seu pedido. Tanto Peña quanto Alliana são responsáveis, assim como o Banco Central e a Superintendência de Bancos, porque eles modificaram a norma para habilitar esse banco a obter recursos públicos.

Não se deve esquecer que esse banco era uma financeira quando Peña assumiu a presidência. Depois de quatro meses, virou banco. A partir daí, começou a receber recursos: são quase 900 milhões de dólares do setor público, mais 2 bilhões do setor privado. Peña está tentando escapar. Ele não quer ir preso e não quer devolver o dinheiro. Acho que o Congresso não aceitará sua renúncia e avançará no julgamento político, o que o deixa sem imunidade, porque o que cabe é a intervenção do Ministério Público e do Poder Judiciário.

No Brasil, tivemos o caso Master. O senhor tem conhecimento desse caso? Acha que ele tem alguma relação com o caso do Paraguai? É muito parecido. Nenhum desses casos poderia ter acontecido sem a cumplicidade do poder. Ela se torna uma condição necessária para essas operações, que terminaram em um assalto, em um roubo aos poupadores. É o que aconteceu aí e o que aconteceu no nosso país. Sem que Peña modificasse as normas e desse instruções ao Banco Central e a outras entidades, essas operações não teriam sido realizadas.

Com mais apoio político e melhores condições políticas e econômicas, Santiago Peña poderia ter se mantido no poder? Esse banco construiu uma plataforma interessante, acessível a muita gente. Dois de cada três paraguaios tinham uma conta no Ueno Bank. E quem entrou no banco foram justamente as pessoas trabalhadoras, humildes e mais vulneráveis. Essa crise, esse roubo, impactou os cidadãos de maneira muito forte. São 3 milhões de paraguaios golpeados por esse banco. É um escândalo, e a população está muito irritada. Não acredito que nenhum dinheiro possa ajudá-lo a sobreviver.

É verdade que há uma operação de Horacio Cartes, que articula a sucessão para salvar Alliana, enquanto o presidente Peña tenta pagar o preço de todo este escândalo, embora os dois sejam responsáveis. Ambos são filhos de Cartes, são criação de Horacio Cartes.

Com a renúncia de Peña, que garantias existem de que a transição será ordenada e transparente? Peña deve responder à Justiça por sua gestão? A única garantia está na cidadania. Somente a cidadania mobilizada, como está hoje, exigindo que os responsáveis sejam processados e vão para a cadeia, mas também, como questão central, que devolvam o dinheiro. O problema de ninguém se resolve com Peña deixando de ser presidente.

A grande questão é seguir o caminho do dinheiro. Onde ele está? Os fundos de garantia cobrem uma parte. Mas há todos os fundos públicos, quase 1 bilhão, que não estão cobertos. E a instituição mais impactada, de novo, é a das pessoas mais vulneráveis: o Instituto de Previdência Social.

O senhor acha que haverá novas eleições? Acho que não. Nossa Constituição tem os mecanismos de substituição e, de todo modo, não falta tanto para as eleições. Certamente será um processo constitucional de sucessão, com muito controle cidadão e de olho nas eleições de 2028.

Peña buscou um alinhamento muito próximo com Donald Trump. Como o senhor avalia essa relação? Ela beneficiou o Paraguai ou deixou o governo sem respaldo quando mais precisava? Não. As relações de Peña com Trump não beneficiaram o Paraguai em absolutamente nada, beneficiaram Horacio Cartes. Ele é o chefe político de Peña e de Alliana, é o chefe do crime organizado transnacional, segundo investigações no Brasil, na Colômbia e em outros países, inclusive nos Estados Unidos. Os Estados Unidos o declararam significativamente corrupto, mas as relações de Peña com Trump permitiram levantar essa sanção. Foi isso que Peña conseguiu com o governo dos Estados Unidos.

A vitória de Lula e a derrota de Flávio Bolsonaro mudaram o cenário político regional. O senhor acha que esse resultado contribuiu para a renúncia de Peña? Em primeiro lugar, acho que a vitória de Lula significou um grande alívio e muito oxigênio para toda a região. Víamos com muita preocupação o avanço, a passos muito largos, da extrema direita, e, sem dúvida, a vitória de Lula significa uma barreira importante. Isso nos enche de esperança. Nos assustamos porque, no primeiro turno, os números não foram os esperados.

Esta vitória vai ajudar muito a região, sobretudo diante da prepotência do governo dos Estados Unidos e da linha que eles impuseram à região, a do triângulo Estados Unidos, Taiwan e Israel, à qual Peña se alinhou buscando o perdão para seu chefe, Horacio Cartes.

Diante da atual crise, o que se espera para o Paraguai nos próximos dias? Este é um processo em que o Paraguai joga seu futuro imediato. Não pela saída de Peña, mas por como se resolve esta crise financeira e como fazemos a cidadania voltar a confiar nas instituições. Sobretudo, como fazemos para que os responsáveis sejam punidos e vão para a cadeia, e para que se possa recuperar o dinheiro roubado. Essa é a grande causa pendente de todos os paraguaios.