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Transar “como homem”: sexóloga fala sobre prazer sem culpa feminina
Música viral reacende debate sobre autonomia sexual e o direito de viver o prazer sem promessa, segundo sexóloga
atualizado
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“Tem vezes que eu só taco o foda-se e ajo igualzinho os cara.” O verso da música P.I.T.T.Y., de Nanda Tsunami que, viralizou nas redes e está dominando playlists e vídeos curtos, virou mais do que uma letra musical: transformou-se em uma declaração de independência sexual. A frase resume uma mudança de comportamento cada vez mais visível entre mulheres que reivindicam o direito de viver o sexo casual sem culpa, cobrança ou expectativa romântica.
Mas o que, afinal, significa “transar como um homem”? O Metrópoles ouviu a sexóloga Alessandra Araújo para entender o fenômeno que mistura liberdade, autoconhecimento e ainda enfrenta o peso do julgamento social.
Entenda
- Prazer sem promessa: a expressão reflete o desejo de separar sexo e compromisso. É a busca por viver o prazer pelo prazer, sem a obrigação de vínculo emocional ou expectativa de continuidade.
- Mudança cultural: o sexo casual, historicamente associado aos homens, passa a ser assumido por mulheres que deixam de ocupar o papel de “escolhidas” para assumir o de quem escolhe.
- Riscos emocionais existem? Não há regra geral. O impacto depende do alinhamento entre desejo e prática. Quando há coerência interna, pode ser libertador; quando há carência disfarçada, pode gerar frustração.
- O peso do julgamento: o chamado duplo padrão ainda persiste: homens são exaltados por múltiplas parceiras, enquanto mulheres enfrentam rótulos e críticas, o que pode afetar a saúde mental.
Compartimentalizar é a palavra-chave
Do ponto de vista da sexologia, “transar como um homem” está ligado à ideia de compartimentalização.
“Historicamente, fomos ensinadas que o sexo feminino precisa de amor, velas e um futuro juntos. Quando elas usam essa expressão, estão pedindo o direito de sentir prazer sem a ‘ressaca moral’ ou a ansiedade de saber se ele vai ligar no dia seguinte”, explica Alessandra Araújo.
Trata-se, segundo ela, de uma busca por autonomia emocional. Ou seja: viver o encontro pelo que ele é, sem projetar desdobramentos.
Do objeto à agente
A mudança também aparece no consultório. Se antes o sexo casual era visto como “território masculino”, hoje mulheres questionam o roteiro tradicional que colocava seu prazer como secundário.
“Elas não querem apenas transar. Querem ter o próprio prazer garantido, com ou sem compromisso”, afirma a sexóloga. É a transição da mulher “objeto”, que aguarda ser escolhida, para a mulher agente, que escolhe, conduz e estabelece condições.

Liberdade ou fuga emocional?
A liberdade sexual, no entanto, não é fórmula mágica. Segundo a especialista, tudo depende do chamado “contrato interno” — aquilo que a pessoa realmente deseja naquele momento da vida.
Se a fase é de autoconhecimento e diversão, o sexo casual pode ser leve e libertador. O problema surge quando ele é usado como tentativa de preencher carências ou provar algo a si mesma. “Se o desejo por afeto é grande, mas a prática é fria, o resultado pode ser uma sensação de vazio”, alerta.
O duplo padrão ainda pesa
Apesar do discurso de empoderamento, a sociedade ainda reage de forma desigual. O homem com múltiplas parceiras costuma ser visto como “garanhão”. A mulher, muitas vezes, recebe rótulos depreciativos.
Esse julgamento social contribui para que muitas ainda escondam seus desejos ou sintam culpa após encontros casuais. O impacto não é apenas moral, mas psicológico, criando barreiras para que vivam a sexualidade de forma plena.
Liberdade com responsabilidade
Para quem deseja experimentar essa fase com consciência, a especialista aponta pilares fundamentais:
- Saúde em primeiro lugar: camisinha é indispensável.
- Comunicação clara: dizer o que quer — inclusive “só o momento” — evita frustrações.
- Autoconhecimento: saber o que dá prazer permite conduzir a experiência.
- Respeito aos próprios limites: liberdade não significa aceitar qualquer coisa.
No fim, a chamada liberdade de “transar como um homem” não é sobre competir com o masculino, mas sobre igualdade no direito ao prazer. É afirmar que o corpo feminino pode expressar desejo sem amarras, rótulos ou culpa — desde que em sintonia com os próprios sentimentos.
















