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Não sente prazer na penetração? Entenda os motivos e como resolver
Ginecologistas explicam causas físicas, emocionais e hormonais da dor ou falta de prazer na penetração e por que isso sempre merece atenção
atualizado
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Quando a penetração deixa de ser prazerosa, o problema quase nunca está apenas no ato em si. Segundo as ginecologistas Beatriz Tupinambá e Rafaela Britto, em entrevista ao Metrópoles, o desconforto pode surgir por causas físicas, emocionais e hormonais — e, em muitos casos, uma combinação das três.
O ponto em comum, dizem ambas, é que sexo não deve doer, nunca, e que há tratamento para praticamente todos os cenários.
1. Causas físicas: dor, lubrificação e condições ginecológicas
Para Beatriz Tupinambá, a principal causa física de falta de prazer é simples e muito comum: a falta de lubrificação. “Essa é uma das principais causas. A partir da menopausa, especialmente sem reposição hormonal, a atrofia vaginal aparece e causa dor, ardência e dificuldade de chegar ao orgasmo”, explica.
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Rafaela Britto reforça essa observação e acrescenta que a lubrificação insuficiente também é frequente no pós-parto, na amamentação e com determinados medicamentos, como alguns antidepressivos ou anticoncepcionais.
Mas as causas vão além da lubrificação: as duas especialistas destacam a presença de doenças ginecológicas. Tupinambá cita endometriose, vaginismo, hipertonias do assoalho pélvico e até condições menos comentadas, como líquen escleroso, que provoca dor e reduz o prazer.
Britto amplia a lista ao incluir adenomiose, cistos ovarianos, infecções como candidíase e vaginose, além de fatores anatômicos como hímen rígido, fissuras ou cicatrizes de parto. “Tudo isso pode tornar a penetração desconfortável e impactar diretamente a sensação de prazer”, afirma.
As duas são categóricas: qualquer dor, ardência ou sensação de laceração reduz o prazer e precisa ser investigada.
2. Emoções, estresse e traumas: o cérebro também participa
“As mulheres às vezes esquecem que o principal órgão sexual feminino é o cérebro”, diz Beatriz. Por isso, estresse, ansiedade, sobrecarga mental e depressão podem atrapalhar desde a excitação até o orgasmo. “Se você está tentando resolver problemas, preocupada ou tensa, o corpo não relaxa. Isso reduz o desejo, a lubrificação e até o fluxo sanguíneo.”
Britto concorda e enfatiza que mente e corpo atuam juntos na resposta sexual: “Situações de estresse ou ansiedade colocam o organismo em alerta. O corpo não entende que é momento de sentir prazer.”
Traumas também têm um impacto profundo. Tupinambá fala em bloqueios inconscientes e tensão muscular provocados por experiências dolorosas ou abuso sexual. Britto acrescenta que relacionamentos abusivos, conflitos com o parceiro e falta de intimidade podem prejudicar tanto quanto uma causa física evidente.
3. Oscilações hormonais: pós-parto, ciclo, TPM e menopausa
Ambas as ginecologistas reforçam que as mudanças hormonais são um dos pilares da sexualidade feminina. Segundo Tupinambá, a queda de estrogênio e testosterona — que ocorre no pós-parto, na amamentação, na fase pré-menstrual e na menopausa — afeta diretamente desejo, lubrificação, sensibilidade e vascularização da região genital. Isso explica sintomas como secura vaginal, ardência durante e depois da penetração, diminuição da libido e dificuldade de excitação.
Britto detalha que, no ciclo menstrual, especialmente na TPM, o aumento da tensão corporal pode diminuir o conforto sexual. Na menopausa, a mucosa vaginal fica mais fina e menos elástica, o que facilita dor, ardência e irritação.
Para identificar a origem hormonal, Tupinambá orienta observar se os sintomas surgem em fases específicas do ciclo ou momentos de vida, e reforça: “Existe tratamento para todas essas fases. Nada disso precisa ser normalizado.”

4. Quando buscar ajuda? Mais cedo do que você imagina
“As mulheres normalizam muita coisa que não deveriam, especialmente a dor durante o sexo”, afirma Tupinambá. Para ela, basta a penetração causar dor persistente, ardência ou provocar medo e ansiedade para ser motivo de avaliação.
Britto acrescenta que a mulher deve procurar ajuda quando houver dor recorrente ou progressiva, sangramentos, sensação de laceração, impossibilidade de penetração por contração involuntária ou suspeita de condições como endometriose, vaginismo ou ressecamento severo. E lembra que a falta de prazer que afeta autoestima e relacionamento também merece atenção.
A mensagem das duas especialistas é unânime: desconforto sexual nunca deve ser considerado normal.
5. Tratamentos possíveis: um caminho que vai do consultório ao autocuidado
O tratamento sempre depende da causa — mas as opções são diversas.
Do ponto de vista físico, Tupinambá destaca terapias hormonais (locais ou sistêmicas), tratamento da secura vaginal e até tecnologias como o laser de CO₂, muito útil para casos de atrofia. Britto reforça o uso de lubrificantes e hidratantes, além de medicamentos para tratar infecções, dor pélvica crônica ou endometriose.
As duas ginecologistas destacam a fisioterapia pélvica como peça-chave para vaginismo e hipertonias.

No campo emocional, Britto ressalta os efeitos positivos da terapia sexual, psicoterapia e técnicas de relaxamento. Já Tupinambá lembra que a educação sexual é essencial para quebrar mitos, eliminar culpas e ajudar a mulher a conhecer o próprio corpo.
Ambas destacam também: comunicação com o parceiro, mais tempo de estímulo antes da penetração e explorar formas de prazer além do coito.
E Tupinambá deixa claro:
“Se você chega ao orgasmo só com estímulo direto do clitóris, está tudo certo. Isso não é menor nem errado. O que não pode é sentir dor.”










