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Mês do Orgulho: o que são pessoas intersexo, segundo uma especialista
No Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, a Pouca Vergonha dá espaço à vivência da comunidade intersexo
atualizado
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Junho é considerado Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ e, ao longo do mês, a Pouca Vergonha abordará reportagens para todas as letras da sigla. Uma delas é a vivência intersexo, que se refere a pessoas que nascem com características sexuais físicas (anatomia, os órgãos reprodutores, os padrões hormonais e/ou cromossomos, por exemplo) que não se enquadram nas definições típicas para corpos masculinos ou femininos.

Para entender os desafios e pautas relevantes, a coluna conversou com Thais Emília, uma das fundadoras e atual presidente da Associação Brasileira Intersexo (ABRAI) e professora universitária, que descobriu ser intersexo aos 15 anos. Ela sentiu uma dor abdominal e soube, no hospital, ter alteração gonadal (testículos ou ovários).
“Na época, eu nem entendi muito. O maior impacto foi quando quis engravidar. Me atingiu muito mais quando eu tive um filho com genital atípico do que eu propriamente ter uma condição interna, metabólica, hormonal e intersexo”, explica.
Thais deu à luz a Jacob Cristopher em 2016, mesmo sabendo, desde o pré-natal, que seu filho era intersexo. Amor, no entanto, nunca faltou. Pelo contrário. Ainda hoje, transborda. A mãe conta que quando o bebê nasceu as orientações médicas iniciais foram para ela decidir o sexo da criança, alvo que seria definitivo, e Thais não quis.
Por conta da indefinição quanto ao sexo, a família não conseguiu registrar o nascimento da criança. Sem o documento, a mãe não teve direito à licença-maternidade. Foi nesse cenário que surgiu a ABRAI.
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Vivência
Já sobre sua vivência sexual, Thais comenta que foi tranquila. “Cada vivência em relação à sexualidade é muito singular e única. Algumas pessoas têm sofrimento em relação a isso, e dor por causa de cirurgias que foram feitas na infância. Há ainda a questão de autoestima e pessoas que nunca tiveram relação sexual, por não terem tido uma orientação adequada sobre seu corpo.”
Em relação aos estigmas sociais, ela conta que, por vezes, prefere evitar se declarar intersexo. “Sei que ainda existe um preconceito grande, me guardo para falar apenas em espaços seguros”, comenta Thais.
A ativista e educadora emenda que cada situação é única. “Eu sou casada, tive quatro filhos, para o meu marido é uma relação tranquila, porém, sei de pessoas que não contam nem para o namorado e nem para o marido que são intersexo.”
“Na minha tese de doutorado, que foi sobre intersexo, eu entrevistei ativistas intersexos, e falei sobre a questão da sexualidade. Tem muitas pessoas que nunca tiveram relacionamento, têm dificuldade para tocar seu próprio corpo, não têm prazer… E pessoas que, por outro lado, vivem uma sexualidade plena, saudável, feliz e realizada”, salienta.

Direito de existir
Thais destaca que a luta ainda está longe de ser vencida. Ela lista, por exemplo, uma série de falta de direitos e de acesso, bem como a maneira como mundo está estruturado socialmente e legalmente de forma binária.
A falta de reconhecimento, sequer da existência, também é um ponto delicado, na visão da educadora. “Quando você fala sobre o tema, as pessoas acham que nem existe, mas nós temos 11% da população intersexo, são muitas pessoas que vivem invisibilizadas, dentro até do próprio movimento LGBT+, que nem compreende a nossa vivência.”










