Pouca vergonha

Elas traem mais? Site de adultério tem alta de usuárias em 2020

Sexóloga aponta possíveis motivos para mulheres estarem engatando mais relacionamentos extraconjugais e explica a monogamia compulsória

atualizado

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Foto: Peter Cade/Getty Images
Mulheres traem
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Apesar de, na teoria, as pessoas pensarem que a pandemia iria ser um impeditivo para os “puladores de cerca” de plantão, na prática foi diferente. De acordo com o relatório anual do site de relacionamentos extraconjugais Ashley Madison, o coronavírus teve pouco efeito na capacidade de trair.

Segundo os dados da plataforma, em 2020 foram mais de 5,5 milhões de novos usuários pelo mundo, incluindo homens e mulheres. Além disso, o levantamento aponta que, no Brasil, há o dobro de mulheres para cada homem na plataforma (2,2 mulheres por homem).

Isso deixa o questionamento: mulheres estão traindo mais do que homens? De acordo com a terapeuta sexual Tâmara Dias, não necessariamente. Além do fato de que a pesquisa analisa apenas o universo dos usuários, a especialista afirma que não existe um gênero que traia mais – o que muda é a forma como cada traição é vista.

“Ambos traem, mas a traição masculina é vista de forma mais leve, e é constantemente justificada com o mito de que ‘homens têm mais desejo sexual que mulheres’. Culturalmente foi dada ao homem mais liberdade para vivenciar a sua sexualidade, sem contar com a permissividade velada de ‘procurar fora o que ele não consegue em casa’”, explica.

O que pode estar acontecendo é que, nos dias de hoje, haja mais traição por parte das mulheres, como reflexo do movimento de liberdade sexual. “Muitos mitos e tabus foram desconstruídos, e entender de onde eles vinham deu às mulheres o poder de escolha entre se culpar ou não por sentirem prazer e desejo assim como os homens”, aponta Tâmara.

Contudo, a psicóloga afirma que, no ciclo da resposta sexual humana, homens e mulheres têm motivações diferentes para os sexo, o que pode fazer que os motivos para trair sejam diferentes entre eles.

“O homem busca na relação sexual o prazer, enquanto a mulher costuma se basear em recompensas. Não necessariamente sexuais, mas como intimidade, contato. Dessa forma, os motivos podem ser diferentes, mas a liberdade sexual trouxe a reflexão sobre o sexo pela simples satisfação, sem precisar que falte algo dentro do relacionamento”, diz.

Monogamia compulsória

Independente de gênero, o que muitas vezes leva pessoas à infidelidade é não saber lidar com a atração inevitável por outras pessoas que não o(a) parceiro(a). Isso acontece por conta da imposição cultural da monogamia ao ser humano, que, evolutivamente, não é monogâmico. “Não somos monogâmicos, nós nos tornamos. Mesmo amando alguém, você vai se sentir atraído(a) por outras pessoas. É natural”, afirma.

O conceito de monogamia é, hoje em dia, reforçado pela cultura do amor romântico, que coloca como ideal em um relacionamento as ideias de posse, completude e de ciúmes como prova de amor. Também por isso há ainda muita resistência em relação a relacionamentos mais liberais.

“Inseridos nessa cultura, se torna um desafio pensar na ideia de que se está ‘dividindo’ o ‘meu’ com alguém. Surgem insegurança, comparação, medo de que o outro vá ser melhor, de ‘ser trocado’, entre várias outras crenças que são colocadas na nossa cabeça”, explica.

Logo, uma vez que a teoria “trair” não é necessariamente se relacionar com outra pessoa, mas sim quebrar um acordo pré-estabelecido (seja ele qual for), a solução seria alinhar expectativas ainda no início do relacionamento e, talvez, considerar outras configurações.

“É preciso identificar o que é traição para cada um, porque muitas pessoas separam amor de sexo e não assumem, movidos pelo sentimento de posse, com medo de que a parceria faça o mesmo. Então decidem por não deixarem o outro livre também, mas traem”, finaliza.

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