
Paulo CappelliColunas

Feminista processa Erika Hilton após ser chamada de “criminosa”
Isabella Cêpa, militante feminista que conseguiu asilo político na Europa, acusa Erika Hilton de ter cometido crimes de calúnia e injúria
atualizado
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Militante de movimento feminista, a designer gráfica Isabella Alves Cêpa apresentou queixa-crime por calúnia e injúria contra Erika Hilton (PSol) após ser chamada pela deputada de “criminosa”, “fracassada” e ser comparada a um integrante do regime nazista.
Os desentendimentos entre militante e a deputada tiveram início em 2020, quando Isabella Cêpa, influenciadora na época, criticou o PSol e disse estar “muito decepcionada com São Paulo” porque a mulher mais votada nas eleições para vereadora naquele ano “era um homem”.
“A querelada [Erika Hilton] iniciou a perseguição judicial contra a querelante [Isabella Cêpa] por discordâncias acadêmicas sobre o feminismo materialista. Tal histórico demonstra que a fala ofensiva proferida em 02 de março de 2026 é apenas o desdobramento de uma animosidade pretérita e privada, desprovida de vinculação com a atividade legislativa”, diz a denúncia protocolada.
Erika Hilton reagiu às declarações de Isabella Cêpa com um processo por transfobia na Justiça Federal e uma reclamação apresentada ao STF. O inquérito foi arquivado pela 7ª Vara Federal em São Paulo em agosto de 2025, e a reclamação foi considerada improcedente pelo STF em setembro do mesmo ano.
“Portanto, em março de 2026, a querelante ostentava o status jurídico de absoluta inocência, com decisões transitadas em julgado que atestavam a licitude de seu comportamento. Não havia processo em curso, condenação pretérita ou qualquer título jurisdicional que permitisse rotulá-la como infratora”, argumenta a feminista.
Entrevista
Em entrevista ao programa “20 minutos”, do canal Opera Mundi no YouTube, divulgada no dia 2 de março, Erika Hilton voltou a classificar as declarações de Isabella Cêpa como crime. “Essa menina é uma criminosa, porque o Supremo Tribunal Federal já tem a sua decisão acerca do que é a transfobia. Se você comete transfobia, você é criminosa, você comete um crime que inclusive é equiparado ao crime de racismo. A sua crença, o que você acredita, não pode embasar os seus comportamentos na sociedade”, disse a deputada.
“A Ku Klux Klan acreditava que negros eram inferiores. Hitler tinha uma crença de que judeus eram inferiores. Isso não pode servir de instrumento para suas relações pessoais. O que você acredita tem que ficar no mínimo dentro da sua cabeça ou no máximo dentro da sua própria casa. Quando você sai da porta para a rua, você vai viver em sociedade. E viver em sociedade pressupõe que você tem regras para viver em sociedade”, afirmou Erika Hilton.
“O que esta moça comete é crime e será processada ela e todas as outras ou outros que praticarem crimes. Nós não podemos nos basear nas nossas próprias crenças, porque se nós nos basearmos nas nossas próprias crenças, o nazismo está autorizado, o racismo está autorizado”, sustentou.
Justiça comum
A denúncia por injúria contra a deputada foi apresentada à Justiça de São Paulo uma vez que, de acordo com a militante, as declarações não tiveram relação com o exercício do mandato de Erika Hilton, o que ensejaria a abertura de ação no STF.
“A querelada não estava exercendo sua função de deputada ao rotular a querelante como ‘criminosa’ e compará-la ao nazismo; estava, sim, abusando de sua visibilidade para retaliar uma pesquisadora cujo pensamento a desagrada. Ressalte-se que a própria querelada, ao ser questionada, não relacionou suas críticas a qualquer atividade parlamentar em curso, mas sim às convicções pessoais e acadêmicas da querelante”, argumenta Isabella Cêpa.
Asilo político
Em 2025, Isabella Cêpa teve asilo concedido a ela pelo governo de um país europeu que interpretou a atuação judicial de Erika Hilton contra a militante como perseguição política. Em entrevista à coluna, a designer disse ter sofrido ameaças no Brasil após suas declarações serem reproduzidas pela editora de uma revista de moda em suas redes sociais.
“Recebi e-mails não rastreáveis de gente falando o nome e o endereço da minha mãe, dizendo que iam fazer coisas com ela. Várias pessoas me ameaçaram de estupro e de morte. Foram muitas ameaças. Registrei queixa contra a editora, mas a Polícia Civil entendeu que era só uma ‘treta de blogueiras’ e arquivou o inquérito”, contou Isabella.
A designer conta que percorreu nações europeias até chegar, em junho de 2025, ao país que lhe concedeu o asilo. Por questões de confidencialidade impostas pelo processo, ela não pode divulgar qual nação a acolheu. Todo o trâmite durou pouco mais de um mês e foi conduzido pela Agência da União Europeia para o Asilo (EUAA).





