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Déficit do Piauí põe à prova possível ida de Fonteles à Fazenda

Governador ampliou investimentos e reduziu o peso da folha, mas resultado primário piorou; articulação política pode ser o diferencial

28/10/2026 12:44, atualizado 28/10/2026 13:14
Reprodução/PT
Rafael Fonteles (PT)

A possível indicação do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), para o Ministério da Fazenda entrou no radar das discussões sobre a formação de uma eventual nova equipe ministerial de Luiz Inácio Lula da Silva. Embora Geraldo Alckmin seja apontado como o nome mais cotado pelo setor financeiro, Fonteles é visto como uma surpresa que não necessariamente seria recebida de forma negativa pelo mercado.

Nos bastidores do governo, a montagem da equipe ministerial é acompanhada por listas de possíveis nomes para diferentes pastas. Entre as alternativas mencionadas estão Camilo Santana, Fernando Haddad, Carlos Fávaro, além de outros nomes.

Para o economista Caio Augusto, sócio da consultoria Terraço Econômico, o diferencial de Fonteles não está necessariamente em apresentar um histórico incontestável de austeridade fiscal, mas na combinação entre experiência técnica, capacidade de articulação política e interlocução com o setor privado. Na avaliação do economista, a habilidade para negociar medidas difíceis e construir apoio político pode pesar na escolha de um ministro da Fazenda tanto quanto o histórico profissional.

Investimentos cresceram, mas déficit aumentou

Dados do Tesouro Nacional e do Balanço Geral do Estado apontam que, durante a gestão de Fonteles, os investimentos estaduais passaram de R$ 7,1 bilhões para R$ 13,1 bilhões, representando uma expansão de aproximadamente 85%, segundo os dados levantados para esta análise econômica.

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No mesmo intervalo, o resultado primário acumulado saiu de um déficit de R$ 147 milhões, no governo anterior, para um saldo negativo de R$ 3,7 bilhões durante a gestão de Fonteles. O indicador considera a diferença entre receitas e despesas primárias, sem incluir os juros da dívida.

A combinação revela a estratégia adotada pelo governo estadual: utilizar a capacidade de endividamento para ampliar investimentos e acelerar entregas em infraestrutura e serviços públicos. O desafio é demonstrar que essa expansão poderá ser sustentada sem comprometer o equilíbrio das contas no longo prazo.

A situação fiscal, portanto, não permite classificar o Piauí, sem ressalvas, como um exemplo incontestável de austeridade. O aumento dos investimentos precisa ser analisado em conjunto com a evolução das receitas, das despesas, da dívida e da capacidade de pagamento do estado.

Regra fiscal tenta conter avanço das despesas

Em 2025, Fonteles aprovou uma regra fiscal que limita o crescimento das despesas estaduais e prevê mecanismos de correção caso metas não sejam cumpridas. A medida começou a produzir efeitos em 2026 e ainda precisa de tempo para que sua eficácia seja avaliada.

Outro indicador chama a atenção: a despesa com pessoal recuou de 42,3% da receita corrente líquida, em 2022, para 37,8%, em 2025, último ano com dados anuais consolidados mencionados na análise econômica.

Na classificação de capacidade de pagamento do Tesouro Nacional, o Piauí tem nota B+, segundo os dados levantados para a matéria. A classificação permite ao estado acessar operações de crédito com garantia da União, observadas as demais exigências legais.

Os resultados econômicos também precisam ser considerados à luz das dificuldades estruturais do estado. Apesar dos investimentos, o Piauí continua enfrentando desafios relacionados ao mercado de trabalho, à informalidade e à geração de renda. 

Articulação política pode pesar na escolha

A experiência de Fonteles à frente da Secretaria da Fazenda do Piauí, antes de assumir o governo estadual, também pode ser considerada na discussão sobre seu nome para o ministério. A interlocução com agentes privados e a capacidade de negociar reformas são características apontadas por Caio Augusto como relevantes para a função.

“O desafio, caso seja escolhido, seria levar essa experiência para uma estrutura muito maior e mais complexa. A Fazenda federal lida com uma escala distinta de receitas, despesas, dívida e responsabilidades, além de influenciar as expectativas dos mercados e a trajetória macroeconômica do país.”

Fonteles, portanto, reúne elementos que podem alimentar sua entrada na discussão ministerial, mas seu histórico fiscal também deixa questões em aberto. O aumento dos investimentos e a redução relativa da despesa com pessoal são pontos relevantes de sua gestão. Já a piora do resultado primário torna indispensável acompanhar os efeitos da nova regra fiscal e a capacidade de estabilizar as contas.

A eventual indicação para a Fazenda dependerá não apenas do balanço de sua administração no Piauí, mas também da confiança política de Lula e da capacidade de construir sustentação para as decisões econômicas do governo federal.

“O que faz o Fonteles ser visto como nome muito bom mesmo sem grandes números fiscais do Piauí é essa visão de que ele é técnico como Guedes, conciliador como Haddad e decodificador de política e área fiscal como Mansueto. Tudo isso em uma pessoa só”, explica o economista Caio Augusto.