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Para enfrentar o negacionismo, é preciso lidar com a aversão à solução

Talvez negacionistas não sejam completamente contra a ciência e os fatos, eles apenas não concordam com as soluções apresentadas

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Arte Metrópoles
Ilustração sobre o coronavírus

Vamos imaginar uma situação hipotética. Você vai ao médico e ele diz que você tem uma doença rara que é causada pelo consumo de alguma comida que você goste muito, daquelas que não gostaria de viver sem. Neste exemplo, vamos usar o chocolate.

O médico diz que a única maneira de controlar a doença é nunca mais comer chocolate na vida. Seja sincero: como você reagiria a essa notícia? Frente à possibilidade de nunca mais poder degustar seu quitute predileto, você não tenderia a desconfiar do diagnóstico? Buscar uma segunda opinião? Ou até negá-lo de todo?

Isso acontece porque a mente humana tende a negar o problema em si quando a solução não nos agrada. A esse fenômeno, dá-se o nome de aversão à solução.

Ele é um dos vários viéses cognitivos abordados pelo autor Dan Ariely em seu recém-traduzido livro “Desinformação: o que faz pessoas racionais acreditarem em fake news, teorias da conspiração e outras coisas irracionais” (Sextante), para explicar por que seres humanos inteligentes são capazes de acreditar em falsidades estapafúrdias.

Para muito além do exemplo corriqueiro usado acima, a aversão à solução também está por trás das mais diversas formas de negacionismo, do climático ao da Covid. Entender como a aversão à solução se manifesta é útil para discutir temas polarizantes, que dividem famílias e o país.

Em seu livro, Ariely cita o estudo de dois acadêmicos que nos ajudam a avançar nessa compreensão. Os cientistas formaram dois grupos, ambos compostos apenas por republicanos conservadores — pessoas cujo viés político aumenta a probabilidade que sejam negacionistas do clima.

A um dos grupos foi pedido que lessem um artigo sobre mudanças climáticas. No texto, o aumento da regulação e da intervenção governamentais foi incluído como condição indispensável para a diminuição da emissão de gases do efeito estufa.

O segundo grupo recebeu outro texto, que apontava para menos regulação, menos intervenção estatal e mais iniciativas do livre mercado como caminhos para a diminuição das emissões de CO².

Quando perguntados se concordavam com o consenso científico de que as mudanças climáticas, provocadas pelo homem, aumentariam em até 4,4°C a temperatura da Terra ainda neste século, apenas 22% daqueles que leram o artigo que ressaltava a importância da regulação governamental disseram que sim.

Curiosamente, 55% dos republicanos que leram o artigo que foca no livre mercado como solução concordaram com o consenso científico de que mudanças climáticas são provocadas pelo homem. Ou seja, mudam-se as soluções e as pessoas estão mais abertas a concordar que o problema é real.

Anticiência

O estudo sugere que os negacionistas do clima não são necessariamente anticiência, mas, quando as soluções apresentadas vão contra crenças pessoais arraigadas, a aceitação do fato é dificultada.

Afinal, é mais fácil negar a urgência de se agir contra as mudanças climáticas do que reduzir o uso de combustíveis fósseis e a ingestão de carne, aumentar intervenções e custos estatais, além de lidar com todos os impactos econômicos que isso implicaria.

A mesma lógica pode ser aplicada ao negacionismo à Covid. Novamente, é mais fácil negar a gravidade do vírus do que não sair de casa, usar máscara, fechar escolas, comércio, tomar vacinas e lidar com as restrições impostas pelo poder público para frear a pandemia.

Para provar que a aversão à solução faz parte da condição humana e não é uma questão de viés político, os cientistas fizeram o mesmo teste com democratas. Dessa vez, contudo, os textos eram sobre violência urbana e assaltos a casas.

Um grupo de democratas recebeu um texto que defendia que maior controle de venda de armas impediria que as pessoas pudessem se defender de invasões, aumentando o problema da segurança pública (um argumento que os democratas não gostam).

O segundo grupo leu um texto que defendia que as leis frouxas para regulamentar o porte de armas estariam agravando o problema porque elas facilitam o acesso a armas também dos invasores e aumentam o número de mortes (um argumento que democratas gostam).

Após a leitura do texto, os participantes do experimento foram convidados a responder algumas perguntas sobre o problema da violência em si e não suas soluções. O padrão que se viu foi o mesmo com os republicanos negacionistas do clima. Quem já entendeu como a aversão à solução funciona não vai se surpreender com o resultado.

Os democratas (que costumam ser favoráveis ao controle do porte de armas) tenderam a minimizar o problema da violência quando apresentados a um afrouxamento do acesso a armamentos como solução. Já os que leram o texto que propunham leis mais rígidas, julgaram o problema em si como mais grave.

O senso comum nos leva a crer que precisamos primeiro concordar com os fatos, para depois pensarmos em soluções. Mas pesquisas como essa mostram, que, para contornarmos a aversão à solução, seria mais frutífero reverter essa ordem.

Primeiro, nos livramos dos medos e resistências das possíveis soluções. Depois, vamos aos fatos. Afinal, o esforço para trazer mais e mais dados científicos e informações se revela inútil, quando, na verdade, a motivação para negação não está nos fatos em si, mas em suas soluções.