
Mirelle PinheiroColunas

Rei da Amarração: quem é o mentor do golpe que “trazia amor de volta”
O homem publicava anúncios nas redes sociais para atrair as vítimas. Ele tem cerca de 55 mil seguidores
atualizado
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O chefe da quadrilha que lucrou mais de R$ 180 mil operando uma trama de manipulação psicológica, ameaças e extorsão, por meio de falsas promessas de trabalhos espirituais, foi identificado como “Pai Hugo de Oxalá” (foto em destaque).
Na manhã desta quinta-feira (16/10), o grupo criminoso foi alvo de operação da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, com o apoio da Polícia Civil de São Paulo. Oito integrantes da quadrilha foram presos, incluindo o mentor da rede golpista.
A coluna apurou que o chefe da quadrilha mantém um perfil no Instagram em que divulga os falsos trabalhos.
Com cerca de 55 mil seguidores, o homem publicava diversos anúncios e prometia amarrações “dominadoras” que, segundo ele, fariam a pessoa “amarrada” pensar 24 horas em quem solicitou o trabalho.
Hugo também oferecia serviços de limpeza espiritual e fechamento de corpo para dificultar maldade astral e carnal.
Em um vídeo publicado no perfil, Hugo, que se apresenta como o “Rei da Amarração”, afirma ter mais de 20 anos de experiência como pai de santo, no Brasil e no exterior, oferecendo serviços de amarração amorosa e limpeza espiritual.
Veja:
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Os golpes
A investigação que revelou a trama golpista foi conduzida pela 3ª Delegacia de Polícia de Canoas, com apoio do Ciberlab/Diopi/Senasp, vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, e da Polícia Civil de São Paulo.
O caso chegou à polícia quando uma mulher se tornou uma das vítimas após o término de um relacionamento e denunciou o grupo.
Em seu relato, ela contou que, em 29 de maio deste ano, viu em uma rede social um anúncio de uma suposta “mãe de santo” que dizia ter o poder de “trazer o amor de volta” por meio de rituais espirituais. Ela entrou em contato com a mulher.
Logo na primeira conversa, a suposta religiosa afirmou que poderia resolver o problema amoroso mediante um ritual de “amarração”, no valor de R$ 300. A vítima realizou o pagamento via Pix, mas, em seguida, a suspeita alegou que seria necessário um “trabalho de dominação de coração”, exigindo mais R$ 750.
Quando a vítima tentou desistir, foi informada de que o cancelamento não seria possível porque os “nomes já estavam na mesa” e que as entidades poderiam puni-la caso interrompesse o processo. A partir daí, começou uma escalada de exigências e ameaças.
Ameaças
Em poucos dias, a falsa mãe de santo passou a pedir valores cada vez maiores, alegando que as entidades espirituais exigiam novos rituais, como “benzimentos”, “casamento de almas” e “afastamento de rivais”. A mulher garantia que todos os valores seriam devolvidos em poucas horas após cada ritual, o que nunca aconteceu.
No dia 30 de maio, outro personagem entrou em cena: um homem que se apresentou como “pai de santo”, suposto chefe do terreiro. Em tom autoritário, ele começou a intimidar a vítima, dizendo que ela estaria “enganando as entidades” e que sofreria consequências se não realizasse os pagamentos exigidos – o suspeito foi identificado como sendo o Pai Hugo de Oxalá.
Os criminosos se revezavam em mensagens e ligações, utilizando linguagem mística e ameaçadora. A vítima, temendo ser exposta ao ex-companheiro (uma vez que os golpistas afirmavam o conhecer), acabou cedendo às pressões e realizando sucessivas transferências via Pix e TED.
Os valores pagos foram destinados a contas de diversas pessoas físicas, em diferentes instituições financeiras. Os pagamentos variavam entre R$ 1 mil e R$ 37 mil, chegando a somar mais de R$ 180 mil ao longo de um mês.
Em determinado momento, o golpista chegou a inventar que precisava comprar um bode preto para concluir um dos rituais, pedindo mais R$ 1,5 mil. Depois, afirmou que o dinheiro da vítima estava “bloqueado pelo banco” e que seria necessário pagar taxas adicionais de 4%, depois 13,5%, para a liberação dos valores, totalizando novos prejuízos.
Os criminosos ainda enviaram prints falsos de conversas com supostos gerentes bancários e até de um empresário que teria uma loja de carros, tentando dar credibilidade às mentiras.
Mesmo diante de sucessivos pagamentos e promessas não cumpridas, as ameaças continuaram. O golpista dizia que “as entidades estavam furiosas” e exigiam novos valores para “reforçar o trabalho espiritual”. Endividada, a vítima finalmente decidiu procurar a Polícia Civil.
Rede estruturada
Segundo a Delegada Luciane Bertoletti, as investigações indicaram que o grupo criminoso atua de forma organizada, utilizando perfis falsos em redes sociais para captar pessoas fragilizadas, geralmente em momentos de sofrimento emocional.
O diretor da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana de Canoas, Cristiano de Castro Reschke, alertou sobre golpes cada vez mais sofisticados, praticados nas redes sociais, nos quais os criminosos se valem de recursos tecnológicos ou elementos de persuasão e convencimento cada vez mais eficazes, que colocam as vítimas numa relação de envolvimento emocional e dependência capazes de tirar o discernimento para resistir ao golpe.
“Quando sentem que a vítima vai deixar de contribuir, passam a ameaçar e extorquir começando uma segunda fase ainda mais danosa em termos psíquicos e financeiros.”
Durante a operação, 120 policiais civis cumpriram mandados de busca e apreensão e de prisão temporária nas cidades paulistas de São Paulo, Itapevi, Cotia e Jacareí.
Os investigadores também apreenderam um veículo, além de celulares e as contas bancárias dos investigados foram bloqueadas.
