Mirelle Pinheiro

Propina, cartel e influência: como R$ 110 mi sumiram da Novacap

As investigações do Gaeco apontam que as empresas envolvidas atuavam como um cartel organizado para fraudar licitações

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Hugo Barreto/Metrópoles @hugobarretophoto
Gaeco investiga esquema que movimentou R$ 316 milhões na Novacap - metrópoles
1 de 1 Gaeco investiga esquema que movimentou R$ 316 milhões na Novacap - metrópoles - Foto: <p>Hugo Barreto/Metrópoles<br /> @hugobarretophoto</p><div class="m-banner-wrap m-banner-rectangle m-publicity-content-middle"><div id="div-gpt-ad-geral-quadrado-1"></div></div> </p>

Um pacto criminoso que atravessou a estrutura da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) desviou mais de R$ 110 milhões dos cofres públicos. A investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) revelou que a corrupção não se limitava a um servidor isolado, mas era alimentada por uma rede de operadores e empresas que atuavam em conluio para controlar contratos e pagamentos.

No centro do esquema, estava Francisco José da Costa, conhecido como “Chiquinho”, servidor de carreira que, segundo o Ministério Público, transformou a Diretoria Financeira da Novacap em um balcão de negócios. Ele manipulava processos, acelerava liberações e priorizava determinadas empreiteiras em troca de propinas que chegavam a 2% do valor de cada contrato.

O Gaeco descreve o funcionamento da fraude como uma “engrenagem bem azeitada”, onde cada peça tinha um papel definido. Francisco José era o elo interno da estatal, mas quem ditava as ordens eram os operadores do cartel. Jonas Felix dos Santos, Luciano Neves Garcia e Marcos Boechat Lopes de Souza agiam como representantes das empresas, garantindo que nada saísse do planejado.

Jonas Felix, que operava para ao menos seis empreiteiras — entre elas Central Engenharia e Construteq — tinha acesso privilegiado às decisões da Novacap. Foi ele quem indicou Francisco José para o cargo estratégico na Diretoria Financeira, consolidando a presença do grupo dentro da estatal.

Em mensagens interceptadas, Jonas não apenas cobrava a liberação de pagamentos como também orientava quem deveria ser beneficiado. Francisco José, em tom submisso, respondia pedindo instruções: “O que faço com esses contratos?”. “Pagar”, determinava o operador, sem espaço para questionamentos.

 Negociações

Além de Jonas, a dupla Luciano Garcia e Marcos Boechat atuava para as gigantes NG Engenharia e Sigma Incorporações. Luciano conduzia as tratativas diretamente com Francisco José, enquanto Marcos, apelidado de “Zé do Bode”, cuidava da etapa mais sensível: a entrega do dinheiro. Os encontros, quase sempre realizados após a liberação dos valores pela Novacap, seguiam uma rotina repetitiva que se manteve por anos sem ser detectada.

Para mascarar a origem dos recursos ilícitos, parte das propinas era transferida para contas de “laranjas”, inclusive das irmãs de Francisco José, Emilene Ferreira da Costa e Maria Emília Neta do Nascimento, que receberam quase R$ 1 milhão em depósitos fracionados. O dinheiro, depois, era pulverizado em novas transações ou retirado em espécie para dificultar o rastreamento.

Cartel

A parceria entre as empreiteiras, que em tese deveriam competir entre si, é um dos pontos mais graves da apuração. Segundo os promotores, elas atuavam como um cartel organizado para fraudar licitações, eliminar concorrentes e dividir os contratos mais rentáveis da estatal. Em uma das conversas mais emblemáticas, Jonas Felix resume o conluio em uma única frase: “Estão todos no mesmo barco”.

Para o Gaeco, essa mensagem comprova que não havia disputa, mas uma aliança para explorar o patrimônio público. As empresas, representadas pelos mesmos operadores, garantiam que o dinheiro sempre retornasse para o grupo, criando um ciclo de favorecimentos que se retroalimentava.

A sofisticação do esquema chamou a atenção dos promotores, que compararam Francisco José a Arnold Rothstein, o lendário gângster americano apelidado de “O Cérebro”, conhecido por arquitetar operações criminosas complexas. Para os investigadores, a forma como o servidor controlava pagamentos e articulava pessoas dentro e fora da estatal lembra a estrutura de organizações mafiosas.

A Novacap, responsável por obras e serviços de infraestrutura no Distrito Federal, foi convertida, segundo o Ministério Público, em uma extensão dos interesses privados do grupo. O pagamento de propina deixou de ser uma exceção e passou a ser tratado com naturalidade.

O outro lado

À coluna, a Novacap informou que continua colaborando com as investigações na prestação de informações, mas relembra que o processo transcorre em sigilo na Justiça e, por isso aguarda o seu desfecho.

“De toda forma, cabe ressaltar que a Companhia adotou todas medidas administrativas cabíveis visando esclarecer os fatos, e apurar as responsabilidades. É preciso destacar, inclusive, a nomeação do novo diretor de Suporte, José Itamar Feitosa (nomeado pelo próprio governador Ibaneis Rocha), que é auditor de controle interno do Distrito Federal e atuou como secretário de Fazenda da capital federal, e será fundamental na execução desse serviço.”

“Ressalta-se ainda que a Novacap, na condição de uma das empresas públicas mais tradicionais e respeitadas do país, preza pelo compromisso com a verdade, a transparência e, principalmente, com o cidadão. Assim, acredita que tudo vai ser esclarecido em seu tempo”, escreveu.

Em nota enviada à coluna, a NG Engenharia e Luciano Neves Garcia declararam que reafirmam “compromisso inabalável com a ética, a transparência e o cumprimento rigoroso da legislação.”

“Diante das alegações apresentadas, manifestamos total serenidade e confiança nas instituições competentes, certos de que as investigações em curso trarão à luz a verdade dos fatos. A empresa e o Sr. Luciano Neves Garcia colocam-se à disposição e já colaboram plenamente com as autoridades, fornecendo todos os esclarecimentos necessários ao devido apuramento”, diz a nota.

“Reiteramos nosso respeito ao processo legal e nossa convicção de que a justiça prevalecerá”, finalizou.

A reportagem também busca localizar a defesa dos demais envolvidos. O espaço segue aberto.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?