Mirelle Pinheiro

Prejuízo de R$ 1 milhão: vítimas relatam golpe com energia solar

Grupo com 34 vítimas relata prejuízos que totalizam cerca de R$ 1 milhão; suspeito é identificado como Heitor Gonçalves Santana

atualizado

metropoles.com

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Reprodução/Redes Sociais
Heitor Gonçalves Santana
1 de 1 Heitor Gonçalves Santana - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Um engenheiro eletricista identificado como Heitor Gonçalves Santana (foto em destaque) é alvo de ao menos 18 boletins de ocorrência por suspeita de estelionato no Piauí. Segundo relatos obtidos pela reportagem, ele comercializava sistemas de energia solar, recebia o pagamento integral dos clientes e não realizava a instalação dos equipamentos.

A coluna teve acesso a contratos, comprovantes de pagamento, registros de conversas e boletins de ocorrência que apontam um padrão recorrente na atuação do investigado. Um grupo em um aplicativo de mensagens já reúne 34 pessoas que afirmam ter sido lesadas em negociações semelhantes, envolvendo a promessa de fornecimento e instalação de sistemas fotovoltaicos.

De acordo com os relatos, o engenheiro atuava por meio da empresa HGS Consultoria, oferecendo propostas com valores atrativos e prazos reduzidos. Após a formalização dos contratos, no entanto, os serviços deixavam de ser executados dentro do período acordado e, em muitos casos, sequer eram realizados.

Nos registros, após o recebimento dos valores, o profissional passava a apresentar justificativas sucessivas para o não cumprimento dos prazos. Entre os argumentos mais frequentes estavam atrasos na entrega de materiais, dificuldades logísticas e problemas financeiros.

Mensagens obtidas pela coluna mostram que os clientes tentavam manter contato constante para acompanhar o andamento dos serviços. Em resposta, o investigado frequentemente prometia novas datas para entrega e instalação, que não eram cumpridas. Com o passar do tempo, as respostas se tornavam escassas, até cessarem completamente em alguns casos.

Vítimas

Um dos episódios envolve uma mulher de 65 anos que transferiu R$ 14 mil após firmar contrato para instalação de um sistema com geração estimada de 1.200 kWh. Conforme apurado, o acordo foi fechado após insistência do engenheiro.

Após o pagamento, o serviço não foi executado e o recibo prometido não foi apresentado de imediato. Um familiar da vítima passou a intermediar a comunicação e registrou diversas tentativas de contato entre novembro e dezembro de 2025. As mensagens revelam cobranças frequentes e pedidos de atualização sobre a entrega dos materiais. Em resposta, o investigado indicava novos prazos e afirmava que a instalação ocorreria em breve.

Em 26 de novembro, após quase um mês sem execução do serviço, o familiar cobrou uma posição definitiva e sugeriu a rescisão contratual caso o prazo não fosse cumprido. No dia seguinte, o contrato foi encerrado, com promessa de devolução integral do valor. A restituição, porém, não ocorreu.

“Heitor, eu tentei conversar com você, mas sem sucesso. Dei prazos e busquei resolver da melhor maneira possível. Infelizmente, você afirmou que faria a devolução hoje até o meio-dia e isso não ocorreu. Diante disso, teremos que resolver a situação formalmente. Irei à Delegacia do Idoso para registrar queixa por violência patrimonial. Também farei a formalização no Crea e no Procon.”

Em mensagens posteriores, o engenheiro pediu que medidas legais não fossem tomadas e afirmou que conseguiria resolver a situação no mesmo dia. Horas depois, disse estar “de mãos atadas” e solicitou mais tempo. Ainda assim, o valor não foi devolvido.

Em uma das ocorrências, um cliente afirma ter pago R$ 10,5 mil por um sistema completo, com inversor e placas solares, que nunca foi entregue. O boletim aponta tentativa de solução amigável, sem sucesso.

Prejuízos relatados pelas vítimas chega a quase R$ 1 milhão

Em outro caso, o pagamento foi de R$ 13 mil, realizado via cartão de crédito. A promessa era de instalação em nove dias úteis. Após informar que estava “organizando o material”, o investigado deixou de responder às mensagens e ligações.

Há também relatos de pagamentos parcelados, como o de uma cliente que adquiriu oito placas solares por R$ 6 mil. Segundo a denúncia, apenas duas parcelas foram devolvidas após insistência, e o restante segue em aberto.

Entre as vítimas, há idosos que procuraram a Delegacia de Segurança e Proteção ao Idoso após prejuízos significativos. Um homem de 88 anos relatou perda de cerca de R$ 25 mil após contratar a instalação de uma usina fotovoltaica completa.

Familiares afirmam que, ao cobrar o cumprimento do contrato, receberam justificativas relacionadas a problemas de saúde. O próprio investigado teria enviado um laudo médico para justificar o atraso, enquanto já não estaria mais no estado.

O escritório utilizado pelo engenheiro em Teresina foi desativado, dificultando ainda mais o contato por parte das vítimas. Além disso, as vítimas apontam que Heitor teria fugido da cidade. Em uma das mensagens, uma pessoa não identificada envia uma mensagem para Heitor dizendo: “Tá famoso”. Ele, então, responde: “Demais! Já tem até fã clube”.
Heitor aparece falando sobre “fama” em conversa

As vítimas também apontam que Heitor utilizava sua formação e o título de doutorando na Universidade de São Paulo (USP) para transmitir credibilidade. Há ainda denúncias de que ele teria acompanhado pessoalmente clientes até agências bancárias para garantir a transferência dos valores.

Somados, os prejuízos relatados pelas vítimas chegam a quase R$ 1 milhão. Há também registro de um prestador de serviço que afirma não ter recebido cerca de R$ 6 mil por um trabalho executado para o investigado.

Heitor poderá responder por crime de estelionato, com pena prevista de 1 a 5 anos de reclusão mais multa, ou de 4 a 8 anos.

O que diz a defesa?

Procurada, a defesa do engenheiro afirmou à coluna que a empresa enfrenta uma crise financeira, atribuída ao cenário do setor de energia solar.

“Em 2025, o setor registrou queda de 40% nas instalações, devido à alta de juros, escassez de componentes importados e redução de incentivos fiscais. Isso impactou diretamente nossa liquidez”, diz o posicionamento.

A defesa informou ainda que a empresa ingressou com pedido de recuperação judicial na Justiça de Teresina, com o objetivo de organizar o pagamento aos credores.

“Nunca houve intenção de descumprir contratos. Todos os serviços foram iniciados com boa-fé; atrasos decorrem exclusivamente da crise setorial. Estamos honrando obrigações na medida do possível e priorizando soluções”, afirmou.

Segundo a nota, um cronograma detalhado para quitação dos débitos deve ser divulgado em breve, incluindo correção monetária e juros.

A coluna procurou a Universidade de São Paulo (USP) e a Polícia Civil do Piauí (PCPI), mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem. O espaço permanece aberto para novas manifestações.

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