Mirelle Pinheiro

PF vê organização criminosa em esquema de castração envolvendo deputado

A investigação da PF envolve suspeitas de corrupção ativa e passiva, fraude à licitação, lavagem de dinheiro e organização criminosa

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Reprodução/Câmara dos Deputados
Deputado Marcelo Queiroz
1 de 1 Deputado Marcelo Queiroz - Foto: Reprodução/Câmara dos Deputados

A Polícia Federal (PF) investiga um suposto esquema de fraude em contratos milionários de castração de cães e gatos no Rio de Janeiro, envolvendo empresários, servidores públicos e o deputado federal Marcelo Queiroz (PP-RJ), ex-secretário estadual de Agricultura.

A investigação tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro Flávio Dino, que autorizou mandados de busca e apreensão após a PF apontar indícios de organização criminosa infiltrada na administração pública.

Segundo a decisão, a apuração envolve suspeitas de corrupção ativa e passiva, fraude à licitação, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

De acordo com a representação da PF citada por Flávio Dino, as investigações revelaram “a atuação de uma verdadeira organização criminosa” dentro da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária, Pesca e Abastecimento do Rio de Janeiro (Seappa).

Os investigadores afirmam que havia dois núcleos de atuação: um empresarial e outro dentro da administração pública. A empresa Consuvet — Soluções em Saúde Animal aparece como principal beneficiária dos contratos investigados.

Entre 2021 e 2023, a subsecretaria de Proteção e Bem-Estar Animal, responsável pelo programa RJPET, celebrou 19 contratos com a Consuvet, totalizando R$ 193,6 milhões.

Segundo a PF, a empresa foi criada em julho de 2021 com capital social de apenas R$ 20 mil e, poucos meses depois, passou a firmar contratos milionários com o governo estadual.

A decisão do STF destaca que a Consuvet não possuía filiais nem estrutura operacional compatível com os serviços contratados quando venceu as primeiras licitações.

Ainda assim, a empresa apresentou contratos de locação supostamente assinados em 2020, antes mesmo de sua constituição formal, ocorrida apenas em 2021. Para a PF, isso gera “indícios de fraude”.

Os investigadores também apontam que propostas mais vantajosas para o poder público eram desclassificadas de forma recorrente, favorecendo sistematicamente a empresa.

A PF afirma ainda que houve aumento injustificado de contratos por meio de aditivos e ausência de comprovação efetiva dos serviços prestados, como esterilizações cirúrgicas e microchipagem de animais.

Um dos trechos destacados na decisão envolve um contrato de R$ 2,3 milhões firmado em outubro de 2021.

Segundo a PF, o então secretário Marcelo Queiroz autorizou rapidamente aditivos que ampliaram os valores do contrato sem justificativa técnica adequada.

Em outro caso, a investigação aponta que, apenas quatro meses após a primeira licitação, um novo estudo técnico elevou em mais de 462% a necessidade de castrações na mesma região.

Apesar de pareceres jurídicos apontarem ausência de fundamentação para o aumento, o processo seguiu adiante.

Segundo a PF, a tramitação acelerada dos aditivos, sem registros intermediários de pareceres técnicos ou jurídicos, pode indicar fragilidade deliberada nos controles administrativos.

A investigação também cita o crescimento político de Marcelo Queiroz ligado ao programa RJPET.

Segundo a PF, o deputado “se beneficiou do serviço prestado pela Consuvet”, tanto por eventual enriquecimento ilícito quanto pelo “engajamento político”.

A representação policial afirma que o parlamentar ganhou projeção pública com a pauta animal enquanto os contratos investigados eram executados.

Os investigadores também mencionam aumento patrimonial de 665% nas declarações de bens apresentadas pelo deputado entre as eleições de 2022 e 2024, passando para R$ 7,6 milhões.

A PF ressalta que parte do crescimento pode ter relação com herança familiar após a morte do pai do parlamentar.

Outro ponto considerado relevante pela PF envolve a tentativa frustrada de apreensão do celular da ex-subsecretária Camila Costa da Silva, apontada como peça-chave do esquema.

Segundo os investigadores, durante uma operação da Polícia Civil, Camila afirmou inicialmente que havia descartado o aparelho.

No entanto, o sistema de localização da Apple indicou que o telefone estava em um imóvel ligado a Anna Caroline Vianna Dupret dos Santos, companheira de Marcelo Queiroz.

A PF afirma que Anna apresentou versões contraditórias sobre o paradeiro do aparelho e se recusou a entregá-lo aos policiais.

Para os investigadores, a recuperação das mensagens trocadas entre Camila, Anna e Marcelo Queiroz pode ajudar a esclarecer o grau de participação dos envolvidos.

A investigação também alcança outros servidores ligados à secretaria.

A PF aponta que Antônio Emílio Santos, ex-diretor de Administração e Finanças da Seappa, teria atuado como operador do esquema. Após deixar o governo, ele ingressou na própria Consuvet cerca de dois meses depois.

Outro investigado, Leonardo Rego Blanchart, servidor estadual, movimentou R$ 1,6 milhão em apenas cinco meses, valor considerado incompatível com sua renda de R$ 18 mil mensais.

Segundo a PF, ele realizou centenas de saques fracionados abaixo de R$ 10 mil, prática conhecida como “smurfing”, usada para tentar burlar mecanismos de controle bancário.

Já a servidora Francisca Maria Ferreira de Andrade recebeu R$ 535 mil de Antônio Emílio Santos via Pix e TED, além de realizar depósitos em espécie considerados incompatíveis com sua remuneração.

A decisão cita ainda que, em junho de 2025, a Controladoria-Geral do Estado do Rio suspendeu duas licitações de castramóveis do programa RJPET que somavam cerca de R$ 40 milhões.

Segundo auditoria da CGE-RJ, houve tratamento não isonômico entre concorrentes e outras irregularidades nas propostas técnicas.

A PF afirma que a nova fase da investigação busca aprofundar o possível envolvimento de agentes políticos e identificar “o destino do dinheiro destes contratos fraudados”.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?