Mirelle Pinheiro

O líder da máfia que fraudou o CNU para vender método como “infalível”

A aprovação dele no cargo de auditor fiscal do Trabalho, um dos mais concorridos do país, era o melhor marketing do negócio milionário

atualizado

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ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa
1 de 1 ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa - Foto: Arte/Metrópoles

A Polícia Federal (PF) descobriu que o homem apontado como chefe de um dos maiores esquemas de fraudes em concursos públicos do país usou a própria aprovação como vitrine para atrair clientes. O ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa (foto em destaque), 42 anos, tratado pelos investigadores como “líder operacional” da quadrilha, teria se inscrito e feito a prova do Concurso Nacional Unificado (CNU) apenas para “provar” que o método funcionava.

A aprovação dele no cargo de auditor fiscal do Trabalho, um dos mais concorridos do país, era o melhor marketing do negócio milionário que ele e seus familiares construíram.

O áudio que desvendou o esquema foi encontrado no celular de Wanderlan. Gravado em 4 de junho de 2024, semanas antes da realização do CNU, o diálogo entre pai e filho comprova o caráter comercial da fraude: “Você esqueceu que tem o CNU, meu filho. A nossa comissão vai ser lá no CNU, vou batalhar pra nós, ver se ‘nós’ consegue na ‘poiva’ (dinheiro). Tô trabalhando pra isso, entendeu?”

A expressão “nossa comissão”, segundo a PF, mostra que as aprovações eram negociadas como contratos de venda, com pagamento mediante resultado. Wanderlan tratava o crime como um negócio legítimo — “trabalhar pra isso” —, transformando o sistema de mérito em um comércio de vagas públicas.

Empresa familiar

Os bastidores constatado pelas mensagens mostram que o esquema era operado como uma empresa familiar. Os irmãos Wanderlan, Valmir e Antônio Limeira dividiam funções: captação de “clientes”, execução da fraude, cobrança e lavagem do dinheiro.

As provas apreendidas — áudios, prints e registros bancários — apontam que até as dívidas internas eram tratadas como contratos comerciais. A PF identificou um personagem citado de forma recorrente nas mensagens, o “Negrão”. Trata-se de Thyago José de Andrade, companheiro de Lais Giselly Nunes de Araújo — dupla que comandava o núcleo da quadrilha no Recife.

Thyago era o operador técnico do sistema que transmitia as respostas das provas em tempo real, enquanto Lais cuidava da captação de novos “clientes”. Ambos foram presos ao lado de Wanderlan durante a Operação Última Fase.

Conversas mostram que uma dívida dos R$ 400 mil gerou um impasse entre os irmãos Limeira. Wanderlan pressionava Valmir a resolver a pendência: “O cara tá cobrando, Valmir. Ele quer o dele. O dinheiro não caiu.”

O pagamento, segundo a PF, foi negociado em espécie e com motocicletas, utilizando “laranjas” para ocultar a origem do dinheiro. Um dos veículos estava registrado em nome de um jovem sem carteira de motorista ou emprego formal. “Como era que a gente fazia quando aprovar lá?”

Outro áudio obtido pela PF mostra como funcionava o sistema de pagamento aos fraudadores. Um intermediário pergunta a Wanderlan o que deveria fazer quando o cliente fosse aprovado: “Wanderlan, é para essa pessoa aqui, né? Mando a habilitação dele… Ele é vigilante, do Rodoshop. Aí, como era que a gente fazia quando aprovar lá?”

O relatório policial explica. “Os compradores de gabaritos não pagam nada antes das provas. O pagamento é feito apenas após a aprovação, o que reduz o risco para o cliente e reforça a confiança no esquema.” Essa política de “pague só se passar” virou o diferencial competitivo da quadrilha, e a aprovação de Wanderlan no CNU era o selo de garantia do serviço.

A lógica empresarial da fraude

A investigação identificou que o grupo operava com organização típica de empresa, com divisão clara de tarefas:

  • Captação: intermediários identificavam candidatos dispostos a pagar.
  • Execução: o grupo fornecia o gabarito durante a prova.
  • Cobrança: o pagamento era feito após a aprovação, em parcelas ou bens.
  • Lavagem: veículos e contas de terceiros eram usados para movimentar os valores.
  • Lucro: as “comissões” eram divididas entre os irmãos e parceiros.

Tentativas de apagar provas

Quando a PF chegou à casa de Wanderlan, em Patos, ele reiniciou o iPhone 16 Pro Max para tentar destruir mensagens e arquivos. Mesmo assim, os peritos conseguiram recuperar parte dos dados e localizar áudios salvos e prints deletados, além de documentos em nuvem.

A análise mostrou que Wanderlan mantinha dois celulares — um “limpo”, usado para o cotidiano, e outro dedicado às comunicações sensíveis. Além do CNU, a quadrilha também atuou em concursos da Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e universidades federais.

Um áudio revela que, cinco dias após a prova da Caixa, já havia pagamento de R$ 26 mil — indício de que o candidato “comprador” sabia que seria aprovado.

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