Mirelle Pinheiro

Obra em hospital: mochila com quase R$ 10 milhões entra na mira da PF

O episódio aparece em documentos da Polícia Federal citados na decisão do ministro Flávio Dino

atualizado

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1 de 1 abre03 - Foto: Arte/Metrópoles

A investigação sobre a licitação de R$ 69 milhões para construir o Hospital Geral Municipal de Macapá mostrou um padrão incomum de movimentação financeira: quase R$ 10 milhões sacados em dinheiro em espécie e transportados em mochilas.

O episódio aparece em documentos da Polícia Federal citados na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito da Operação Paroxismo, que investiga suspeitas de fraude e desvio de recursos públicos no município.

Segundo a investigação, após a assinatura do contrato com a empresa responsável pela obra, começou uma sequência de saques que os peritos classificaram como “movimentação financeira sistemática e anômala”.

O hospital foi prometido como uma das principais obras da gestão municipal.

59 saques em menos de dois anos

Entre janeiro de 2023 e setembro de 2024, os dois sócios da empresa Santa Rita Engenharia Ltda. realizaram 59 saques em espécie, totalizando R$ 9.892.800,00.

De acordo com a análise financeira da investigação:

  • Rodrigo de Queiroz Moreira realizou 42 saques, somando cerca de R$ 7,4 milhões;
  • Fabrizio de Almeida Gonçalves efetuou 17 operações, que totalizaram R$ 2,46 milhões.

A cronologia das operações chamou a atenção dos investigadores uma vez que os saques ocorriam logo após os repasses do contrato feitos pela prefeitura à empresa.

O dinheiro público entrava na conta da construtora e, em seguida, era retirado em espécie.

Segundo os documentos da investigação, os valores não retornavam ao sistema bancário e não havia registro de pagamentos relacionados à execução da obra.

O saque de R$ 850 mil na véspera de Natal

Um dos episódios destacados pela investigação ocorreu em 23 de dezembro de 2024, quando Rodrigo Moreira sacou R$ 850 mil em espécie em uma agência do Banco do Brasil. A operação foi documentada pela Polícia Federal.

De acordo com a decisão judicial, funcionários da agência retiraram da gaveta uma grande quantidade de cédulas, principalmente notas de R$ 50 e R$ 100, que foram entregues ao empresário.

Rodrigo deixou o banco acompanhado de outra pessoa ainda não identificada.

Outro caso considerado relevante pelos investigadores ocorreu em 23 de maio de 2025. Naquela manhã, equipes da Polícia Federal monitoravam Rodrigo Moreira quando ele chegou a uma agência bancária no centro de Macapá.

Após entrar no banco, saiu carregando uma mochila preta. Dados do próprio banco confirmaram que, naquele momento, havia sido realizado um saque de R$ 400 mil na conta da empresa.

Rodrigo deixou a agência e seguiu para seu apartamento, onde permaneceu cerca de dez minutos. A PF aponta que o intervalo poderia ter sido utilizado para conferência ou redistribuição do dinheiro.

Em seguida, ele foi até o Laboratório Dr. Paulo Albuquerque, também localizado no centro da capital.

A troca da mochila

Segundo o relatório policial, um homem entrou no laboratório e saiu cerca de dez minutos depois acompanhado de outro indivíduo.

Este segundo homem carregava a mochila preta. Ele embarcou em um Fiat Cronos branco estacionado nas proximidades e deixou o local.

Os policiais iniciaram acompanhamento do veículo, mas a perseguição foi interrompida para evitar exposição da operação.

Uma consulta aos registros oficiais revelou que o carro estava registrado em nome de Antônio Paulo de Oliveira Furlan, então prefeito da cidade.

O padrão se repete

A Polícia Federal registrou novos episódios semelhantes em junho de 2025.

Em uma das diligências, agentes observaram a presença de um homem identificado como Hulgo Márcio Bispo Corrêa, ligado a uma clínica associada ao prefeito.

O indivíduo foi visto aguardando nas proximidades do laboratório enquanto novas movimentações bancárias ocorriam.

Dois dias depois, outra vigilância identificou novamente o Fiat Cronos do prefeito estacionado nas imediações de uma agência bancária enquanto os empresários investigados realizavam novos saques.

O homem visto acompanhando as movimentações funcionaria como elo logístico no transporte dos valores.

A cadeia de evidências

A decisão do Supremo descreve a sequência registrada pela investigação como uma cadeia probatória relevante.

Segundo os investigadores, o padrão se repetia:

  • entrada de recursos públicos na conta da empresa;
  • saque imediato em dinheiro;
  • transporte em mochila;
  • passagem por imóveis ligados a aliados políticos;
  • entrega a terceiros vinculados ao prefeito.

Na interpretação da investigação, o percurso indica possível repasse dissimulado de vantagem indevida a agentes públicos.

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