
Farra do INSS: investigação no DF revelou raiz do esquema anos antes do escândalo
O MPDFT aponta que, mesmo após suspeitas internas, o INSS manteve os repasses à Conafer

Antes da queda da cúpula da Previdência, da demissão de ministro e da deflagração de operações policiais em todo o país, o que hoje é conhecido como um dos maiores escândalos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) — revelado pelo Metrópoles – começou de forma discreta. Uma investigação no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) em conjunto com a Polícia Civil (PCDF), apoiada por depoimentos, documentos sigilosos e trabalho de campo, já apontava para um esquema que desviava bilhões de aposentados brasileiros.
Em 2021, um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) constatou irregularidades envolvendo a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil (Conafer). Após denúncias de vítimas, quebra de sigilo bancário e depoimentos, o MPDFT rastreou uma estrutura que já operava com base em um Acordo de Cooperação Técnica com o INSS para efetivar descontos mensais não autorizados nos benefícios de aposentados e pensionistas.
A análise do Ministério Público identificou salto anormal no número de filiações à Conafer entre janeiro e agosto de 2020: de 42.810 para 279.520 pessoas. O aumento ocorreu justamente durante a pandemia da Covid-19, período de maior restrição de acesso às agências do INSS, o que dificultava contestações. A arrecadação mensal da entidade passou de R$ 6,6 milhões para cifras superiores a R$ 40 milhões.
Milhares de beneficiários tiveram valores descontados sem qualquer solicitação ou autorização. As contribuições mensais, que variavam entre R$ 45 e R$ 77, comprometeram orçamentos de idosos em situação de vulnerabilidade. A Conafer não apresentou, quando solicitada, as fichas de filiação assinadas por essas pessoas. Quando o fez, parte dos documentos continha informações incompletas, ausência de datas ou assinaturas suspeitas.
De acordo com o MPDFT, para ampliar o número de filiados e legitimar as cobranças, a Conafer contratou a empresa Target Pesquisas de Mercado por R$ 750 mil. O objetivo formal era recolher autorizações em unidades da Federação, como DF, Goiás, Bahia e Piauí. Porém, uma das empresas ligadas à coleta, a Premiar Recursos Humanos, foi citada em depoimentos como responsável por manipular arquivos e falsificar assinaturas.
Entre no canal de WhatsApp da Coluna Mirelle PinheiroA coluna apurou que um dos depoentes confessou ter alterado documentos em PDF para simular adesões. Em junho de 2021, ele compareceu espontaneamente à Polícia Civil do DF para denunciar o esquema e afirmou ter sofrido ameaças.
O escândalo do INSS foi revelado pelo Metrópoles em uma série de reportagens publicadas a partir de dezembro de 2023. Três meses depois, o portal mostrou que a arrecadação das entidades com descontos de mensalidade de aposentados havia disparado, chegando a R$ 2 bilhões em um ano, enquanto as associações respondiam a milhares de processos por fraude na filiação de segurados.
As reportagens do Metrópoles levaram à abertura de inquérito pela PF e abasteceram as apurações da Controladoria-Geral da União (CGU). Ao todo, 38 matérias do portal foram listadas pela PF na representação que deu origem à Operação Sem Desconto, deflagrada em 23 de abril, e que culminou nas demissões do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e do ministro da Previdência, Carlos Lupi.
Negócio de família
Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer, e seu irmão, Tiago Lopes, aparecem no centro da estrutura. Ambos abriram empresas e ampliaram patrimônio durante o período em que os descontos indevidos aumentaram. Uma das firmas, a Agropecuária Lagoa Alta, foi registrada com capital social de R$ 3 milhões, apesar de escritura indicar valor inferior a R$ 32 mil.
O MPDFT aponta que, mesmo após suspeitas internas, o INSS manteve os repasses à Conafer. Em 2021, um despacho do presidente Leonardo Rolim autorizou a continuidade dos pagamentos, mesmo com questionamentos sobre a legalidade das adesões. Após a identificação de investigados com prerrogativa de foro, a apuração foi transferida ao Ministério Público Federal, com reforço da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal (PF).
Somente após as denúncias do Metrópoles e a mobilização do Congresso, em 2023, os pagamentos foram suspensos e os contratos com entidades sob suspeita começaram a ser revistos.
Em dezembro de 2024, a Justiça Federal recebeu o processo do DF referente a um pedido de busca e apreensão criminal. O caso, agora, inclui documentos da CGU, relatórios internos do INSS e mensagens eletrônicas trocadas entre os envolvidos.
Empresas
Em março de 2024, o Metrópoles revelou, com base na Lei de Acesso à Informação, que 29 entidades autorizadas a descontar mensalidades pelo INSS haviam triplicado seus ganhos em um ano, mesmo sendo alvo de mais de 60 mil ações judiciais. A partir dali, o caso ganhou visibilidade nacional. O INSS abriu apurações internas, a CGU se envolveu e a Polícia Federal deflagrou a Operação Sem Desconto.
Após a publicação das reportagens, o então diretor de Benefícios do INSS, André Fidelis, foi exonerado. Mais tarde, o presidente do instituto, Alessandro Stefanutto, e o ministro da Previdência, Carlos Lupi, também deixaram os cargos.
Nesta semana, a reportagem da coluna esteve na sede da Conafer, no Setor Comercial Sul, em Brasília. A fachada discreta contrasta com os dados do processo. Em horário comercial, a recepção estava vazia. Ao ser questionada, uma funcionária confirmou que o problema de descontos era recorrente, mas evitou responder sobre a origem das cobranças.
Procurada, a Target Pesquisa de Mercado não apresentou sede operacional. O único endereço disponível leva a uma região residencial isolada, sem indícios de atividade comercial.


















