"Doses homeopáticas": PF mostra origem da fraude das Americanas
A informação consta da decisão que embasou a segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada pela Polícia Federal

As investigações da Polícia Federal (PF) apontam que as irregularidades contábeis que deram origem ao escândalo das Americanas começaram anos antes de o rombo bilionário vir a público, quando a empresa ainda se preparava para abrir capital na Bolsa.
Segundo uma decisão da Justiça Federal à qual a coluna teve acesso, um dos depoimentos prestados à PF indica que a orientação da alta administração era corrigir as inconsistências gradualmente para evitar impacto nos resultados financeiros da companhia.
A informação consta da decisão que embasou a segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada pela Polícia Federal em junho deste ano.
Na ocasião, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão e a Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 54 bilhões em bens e ativos.
Entre no canal de WhatsApp da Coluna Mirelle PinheiroDiferentemente da primeira fase, voltada aos ex-executivos da companhia, a nova etapa busca apurar a eventual participação de acionistas de referência e de representantes de instituições financeiras nas fraudes investigadas.
De acordo com a decisão, a ex-diretora de Controladoria Flávia Carneiro relatou à Polícia Federal que, ao ingressar na então B2W, em 2007, identificou inconsistências contábeis e elaborou uma planilha apontando os problemas encontrados.
Segundo o depoimento reproduzido no documento judicial, ao levar o assunto à administração, recebeu a orientação de que as correções deveriam ocorrer “em doses homeopáticas”, porque a companhia estava prestes a realizar sua abertura de capital e um ajuste imediato poderia provocar “um baque no resultado”.
Ainda segundo o relato reproduzido na decisão, a partir daquele momento o orçamento da companhia deixou de ser tratado apenas como um reflexo da situação financeira e passou a funcionar como uma meta que precisava ser alcançada.
Conforme o depoimento da colaboradora, reproduzido pela Polícia Federal, esse modelo fez com que as inconsistências aumentassem progressivamente. Nas palavras atribuídas a ela, “isso passou a virar uma bola de neve”.
A decisão também registra que, segundo a investigação, as manipulações se tornaram mais sofisticadas ao longo dos anos.
A Polícia Federal afirma que, para manter o funcionamento do esquema, passaram a participar das operações integrantes de áreas como tecnologia da informação e suporte comercial, em um grupo restrito de colaboradores responsável pela operacionalização das práticas investigadas.
De acordo com a PF, a sofisticação das manobras permitiu que as irregularidades permanecessem ocultas por anos, até serem reveladas ao mercado em janeiro de 2023.
A investigação sustenta que as manipulações influenciaram a divulgação de resultados financeiros da companhia e fazem parte do conjunto de fatos que deram origem à Operação Disclosure, ainda em andamento.
Escândalo
As investigações apuram um suposto esquema de manipulação contábil que, segundo a Polícia Federal, perdurou por mais de dez anos.
Conforme a PF, operações financeiras deixavam de ser registradas corretamente e receitas eram artificialmente infladas, fazendo com que os balanços apresentassem uma situação financeira mais favorável do que a realidade.
O caso veio à tona em janeiro de 2023, quando a Americanas divulgou fato relevante informando inconsistências contábeis bilionárias, episódio que culminou na recuperação judicial da empresa e na abertura da investigação criminal.





