
Mirelle PinheiroColunas

Bolsas, Rolex e carrões: PF detalha uso da ostentação no esquema de Ryan
Investigações da PF apontam que os bens de alto padrão eram usados como ferramentas para disfarçar a origem do dinheiro ilícito
atualizado
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Para além do lago artificial construído em uma mansão de alto padrão, as investigações da Polícia Federal (PF) revelam que o cantor MC Ryan SP teria usado bens de luxo para lavar dinheiro adquirido na engrenagem ilícita que movimentou bilhões.
As garagens de alto padrão, recheadas com automóveis avaliados em milhões, chamaram a atenção dos investigadores. A PF verificou que a coleção do funkeiro incluía modelos como Porsche, Land Rover e BMW.
Para além dos veículos, a fortuna acumulada contava com diversas bolsas de grife e relógios Rolex. Os bens foram apreendidos durante a operação Narco Fluxo, que culminou na prisão do cantor.
Segundo a PF, a transformação de liquidez financeira em bens de luxo é uma prática comum em esquemas de integração patrimonial, na qual recursos são convertidos em itens físicos para consolidar patrimônio e permitir que pessoas jurídicas possam usufruir dos valores movimentados.
Nesta investigação, um pagamento de R$ 300 mil a uma joalheria de alto padrão foi apontado como exemplo da conversão de recursos financeiros em bens físicos, reforçando a estratégia de aquisição de itens de alto valor como forma de materialização de riqueza.
As apreensões
A Polícia Federal divulgou o balanço consolidado dos bens apreendidos durante a operação. Entre os itens estão:
- 55 carros de luxo e motocicletas, avaliados em mais de R$ 20 milhões
- 120 armas e munições
- 56 itens de joias e relógios, incluindo modelos da marca Rolex
- 53 celulares
- 56 mídias eletrônicas, como computadores, tablets e notebooks
- R$ 300 mil em espécie
- US$ 7,3 mil em espécie (cerca de R$ 36 mil)
- Documentos e registros financeiros
Entre os bens de maior destaque estão:
• Uma Mercedes-Benz G63 rosa, avaliada em cerca de R$ 2 milhões
• Uma réplica de um carro de Fórmula 1 da McLaren, encontrada na mansão da influenciadora Chrys Dias
Na residência de MC Ryan SP, os agentes também apreenderam um colar de ouro com a imagem do narcotraficante Pablo Escobar, emoldurada pelo mapa do estado de São Paulo.
O caminho do dinheiro
Documentos analisados pela PF mostram que o esquema operava com uma estrutura sofisticada, baseada nas três etapas clássicas da lavagem de dinheiro, mas executadas em escala industrial, com uso de tecnologia, empresas de fachada e uma rede de operadores.
Plataformas ilegais, como o chamado “Jogo do Tigrinho”, funcionavam como porta de entrada para o dinheiro. Milhares de pessoas realizavam depósitos, principalmente via Pix, em contas ligadas a empresas intermediadoras.
Os valores eram, em sua maioria, fragmentados em pequenas quantias, uma técnica conhecida como “smurfing”, usada para evitar alertas do sistema financeiro.
Segundo a PF, esse fluxo inicial só era possível devido a falhas, ou, em alguns casos, à chamada “cegueira deliberada”, de instituições que aceitavam cadastros inconsistentes e movimentações incompatíveis com a renda declarada.
Com o dinheiro já dentro do sistema, começava a fase mais complexa, esconder sua origem
A investigação aponta que o grupo utilizava uma rede de “contas de passagem”, empresas de fachada e pessoas interpostas, os “laranjas”, para embaralhar o rastro financeiro.
Operadores recebiam grandes volumes e redistribuíam os valores em múltiplas transações, dificultando o rastreamento.
Entre os mecanismos identificados estão negócios aparentemente legítimos usados para “esfriar” o dinheiro, como empresas do setor de sucata e até estabelecimentos comerciais que funcionariam como pontos de arrecadação ligados à facção.
Até familiares eram inseridos na estrutura, assumindo participação em empresas para dar aparência de legalidade aos ativos.
É na etapa final que o dinheiro reaparece, já com aparência limpa. A PF identificou que os valores eram misturados ao faturamento de atividades formais, especialmente na indústria do entretenimento, com shows. A partir daí, eram convertidos em bens de alto valor: carros de luxo, itens de grife, como bolsas Gucci, imóveis e obras milionárias
Um dos exemplos citados é a construção do lago artificial avaliado em quase R$ 1 milhão, pago por meio de uma “via paralela corporativa”, segundo os investigadores.
Outro ponto sensível envolve um acordo judicial firmado após um episódio de dano a patrimônio. A Polícia Federal sustenta que o valor, próximo de R$ 1 milhão, não saiu diretamente do artista envolvido, o MC Ryan, mas de empresas ligadas a apostas.














