
Mirelle PinheiroColunas

Banco Master: PF aponta trama para blindar ex-chefe do Rioprevidência
Deivis foi localizado por policiais da PF e da Polícia Rodoviária Federal na Via Dutra, no Sul Fluminense
atualizado
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A prisão do ex-presidente da Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, nessa terça-feira (3/2), marcou a segunda fase da investigação que já colocou sob suspeita quase R$ 1 bilhão em aplicações do fundo de aposentadoria dos servidores do Estado do Rio de Janeiro no Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central no fim de 2025.
Segundo a Polícia Federal, a detenção não está ligada apenas às decisões de investimento, mas principalmente a indícios de que o ex-dirigente teria atuado para dificultar a coleta de provas, interferir em rastros digitais e reorganizar patrimônio logo após se tornar alvo das apurações.
Deivis foi localizado por policiais da PF e da Polícia Rodoviária Federal na Via Dutra, no Sul Fluminense, enquanto seguia para o Rio de Janeiro em um veículo alugado.
Ele havia desembarcado pouco antes no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), após viagem aos Estados Unidos.
Para os investigadores, o deslocamento terrestre, em vez de uma conexão aérea até o Rio, é considerado atípico e passou a integrar a linha de apuração.
O que despertou a suspeita da PF
A investigação avançou após a primeira fase da Operação Barco de Papel, deflagrada em janeiro, quando foram cumpridos mandados de busca na sede da Rioprevidência e em endereços ligados a integrantes da antiga cúpula do órgão.
Durante a análise do material apreendido, os policiais federais identificaram sinais de remoção de documentos físicos de um imóvel associado ao ex-presidente, alterações em conteúdos armazenados em celulares e computadores, transferência de veículos de alto valor para terceiros e o apagamento de registros de câmeras de segurança em um dos prédios ligados ao investigado
Esse conjunto de elementos levou a PF a concluir que havia risco concreto de destruição ou ocultação de provas, o que motivou o pedido de prisões temporárias.
Além de Deivis, dois homens foram detidos em um escritório de advocacia em Santa Catarina, suspeitos de auxiliar na retirada de materiais e na logística para “limpar” um dos imóveis monitorados.
A raiz do escândalo
O inquérito principal apura decisões que autorizaram a aplicação de valores expressivos do fundo previdenciário fluminense em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master entre 2023 e 2024.
Esses papéis são considerados investimentos de alto risco, não contam com proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e possuem vencimento de longo prazo, características que, segundo investigadores, seriam incompatíveis com a natureza conservadora exigida de um regime próprio de previdência.
Para a PF, há indícios de que os aportes foram aprovados sem lastro técnico consistente e podem ter beneficiado interesses privados em detrimento da segurança do patrimônio público.
O que a PF ainda quer esclarecer
A Polícia Federal busca agora responder quem tomou, de fato, as decisões finais sobre cada aplicação, se houve pressão política ou influência externa para autorizar os aportes, se dirigentes receberam vantagens para viabilizar as operações, para onde migraram parte dos recursos após a liquidação do banco e quem participou da suposta tentativa de esvaziar provas.
Os investigadores também analisam comunicações entre ex-dirigentes, operadores financeiros e pessoas ligadas ao Banco Master para mapear a cadeia completa de responsabilidades.
Impacto para servidores
Apesar da dimensão do caso, o governo estadual afirma que não há risco imediato de interrupção no pagamento de aposentadorias e pensões de cerca de 235 mil beneficiários.
Ainda assim, a PF considera que os recursos foram expostos a um nível de risco elevado e incompatível com a finalidade do fundo.
Deivis Marcon Antunes foi encaminhado ao sistema prisional e permanece à disposição da Justiça. A audiência de custódia está prevista para esta quarta-feira (4).
