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Mario Sabino

Você pode ficar feliz com a morte de Khamenei, mesmo sem apoiar Trump

É boa nova que ditadores sejam extirpados do convívio humano, e, assim, pode-se ficar feliz com o fato de Trump ter decidido matar Khamenei

atualizado

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Imagem colorida de Trump, Ali-Khamenei e Nethanyahu - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida de Trump, Ali-Khamenei e Nethanyahu - Metrópoles - Foto: Lara Abreu / Arte Metrópoles

Fomos dormir ontem com a notícia de que o assassino Ali Khamenei está morto, assim como outros cúmplices seus que pertenciam à cúpula da teocracia que barbariza o Irã há 47 anos.

A reconstrução feita pela imprensa americana diz que todos estavam reunidos no bunker de Khamenei, em Teerã, quando Israel desfechou o bombardeio que os despachou ao encontro das 72 virgens prometidas pelo Profeta.

Não foi o Mossad que descobri que haveria essa janela de oportunidade, mas a CIA. Os americanos avisaram os israelenses, que mandaram caças para bombardear o bunker, o objetivo mais difícil de toda a operação.

Trinta mísseis foram despejados sobre o complexo, e Khamenei e seus camaradas, que não estavam na área subterrânea mais profunda da fortaleza, foram eliminados imediatamente.

É sempre boa nova que ditadores e asseclas sejam extirpados do convívio humano, e, assim, pode-se ficar feliz pelo Irã, mesmo quando se é opositor ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, responsáveis pela ação militar de ontem.

Você pode aplaudir o que ambos fizeram no caso particular ainda que os critique ou os odeie no contexto geral. Criticar ou odiar apenas pelos bons motivos é uma conquista da maturidade.

Há que se ter presente, e acho que já disse isto aqui, que, frequentemente, coisas certas são feitas por motivos não inteiramente louváveis ou até completamente errados na sua essência, seja na política internacional, na política nacional e até na nossa vida pessoal, veja você.

Há a bondade impulsionada pela maldade; o altruísmo movido pelo egoísmo; a generosidade exercida pelo interesse — e desse modo caminha a humanidade, ainda que não se saiba exatamente para onde, o que nos leva a outro ponto, bem mais circunstancial.

O que acontecerá agora no Irã? Ninguém sabe. Não há plano grandioso para o Irã, a não ser o de obliterar o seu programa nuclear e a sua capacidade de produzir mísseis balísticos, os pretextos para o ataque fulminante do sábado.

Nem Trump nem Netanyahu, preocupados que estão principalmente com a sua própria sobrevivência política, fazem o que fazem em prol da erradicação do atual regime no Irã, apesar de toda a prosopopeia nesse sentido.

Obviamente, a mudança de uma teocracia para algo próximo a uma democracia ocidental seria o melhor subproduto para lustrar a biografia do presidente americano e do primeiro-ministro israelense. Mas basta que o Irã deixe de ser ameaça para Estados Unidos e Israel, e que os dois possam vender o feito aos seus respectivos públicos internos, que eles pouco se importam se o regime iraniano continuará a ser um ditadura ou não.

Trump disse que será ouvido sobre o nome que substituirá Khamenei no comando do Irã. Afirmou que os americanos estão informados de que a Guarda Revolucionária, os militares e demais forças de segurança iranianos não querem mais lutar e que procuram apenas obter imunidade da parte dos Estados Unidos.

Talvez Trump tenha a ilusão de que o Irã seja uma versão da Venezuela. Não é. O Irã é um país muito maior e mais complexo do que o vizinho latino-americano. Khamenei não era um Nicolás Maduro, e não haverá um aiatolá moderado para bancar a Delcy Rodriguez.

A revolução iraniana que colocou os aiatolás no poder tem a sua razão de ser no ódio aos Estados Unidos, o “Grande Satã”, ao modo de vida ocidental e a Israel, visto como intruso no Oriente Médio.

Os aiatolás nunca brincaram em serviço nesse sentido — o terrorismo islâmico patrocinado por Teerã está aí para mostrar ao que essa gente veio –, e quase meio século de teocracia sanguinária deixou os iranianos sem oposição organizada que ofereça opção viável neste momento.

Tanto é que os cidadãos que arriscaram e sacrificaram as suas vidas para protestar contra Khamenei e a sua camarilha voltaram-se para esse patético filho mais velho do xá Reza Pahlavi, homônimo do pai, exilado nos Estados Unidos desde a juventude, como se ele pudesse ser líder de um movimento democrático.

Fiquemos felizes pelos iranianos; assistamos embevecidos à sua comemoração pela morte do aiatolá que infernizava as suas vidas, principalmente as das mulheres, as mais oprimidas pelo regime teocrático; aceitemos que coisas certas podem ser feitas por motivos não inteiramente louváveis ou completamente errados. Essa história, no entanto, ainda está longe de ter final razoavelmente feliz, o regime pode permanecer acuado por longuíssimo tempo, salvo prova em contrário, e eu vou adorar estar enganado.

PS: o ex-presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, amigão de Lula, também foi morto ontem. Outro a pagar tarde pelos seus crimes.

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