Surfar a onda azul ao lado de Milei não é boa ideia para Flávio
Brasileiro não dá bola para o que acontece além das fronteiras. Mas surfar a onda azul ao lado de Milei pode fazer o inútil virar danoso

A democracia brasileira é coisa mais bonita de ver: enquanto Lula ocupa-se em quebrar o país, endividando o governo (e, por tabela, os cidadãos ignaros ou não) em níveis impagáveis nos dois sentidos, Flávio Bolsonaro tenta projetar uma imagem de estadista.
Estadista para brasileiro é ter interlocutor que fala outra língua.
O estadista esteve na Argentina para fazer fotinho ao lado de Javier Milei e comemorar a “onda azul”, como está sendo chamada a virada da América Latina à direita.
A virada agora inclui a Colômbia, que passou a ser governada por Abelardo de la Espriella, cuja candidatura foi apoiada por Donald Trump.
Milei espera entusiasticamente que o Brasil entre na onda azul pelas mãos de Flávio, como postou nas redes sociais com todas as exclamações de praxe.
Flávio aposta no momento estadista para fugir da sombra lançada por Michelle Bolsonaro sobre a sua candidatura.
Antes de ir à Argentina, ele foi aos Estados Unidos para fugir do caso Dark Horse e fazer fotinho com Trump. Voltará lá para vender a imagem de que está empenhado em diminuir as tarifas impostas por seu mestre às exportações brasileiras.
Lula também está fugindo, desta vez do caso Jaques Wagner, por meio de mais gastos com o nosso dinheiro, o Desenrola adimplentes, outro troço imaginado para fazer as pessoas imaginarem que têm crédito farto.
Se tivessem algo na cabeça, os eleitores brasileiros deveriam se perguntar se vale a pena votar em candidatos que estão sempre tentando escapar de alguma coisa. Mas não adianta cultivar expectativas desmedidas às nossas ambições nacionais.
Onda azul, eu ia dizendo. Nada de novo no fronte. A América Latina oscila pendularmente entre o azul da direita e o vermelho da esquerda, sempre movida por razões imediatas. Por aqui, vive-se na urgência.
A urgência é a criminalidade rampante, que a direita promete exterminar, levando de cambulhada os direitos humanos, ao passo que a esquerda compactua com a bandidagem, levando de cambulhada os direitos humanos.
Neste momento, os direitistas, e não apenas latino-americanos, espelham-se em Nayib Bukele, o inefável presidente de El Salvador que teve a ideia bastante original de suspender o Estado de Direito para prender marginais. Como é ninguém havia pensado nisso?
O colombiano Espriella, aliás, é xerox de Bukele, com aquela barba de contornos retos à la boneco Falcon, com o perdão da referência lúdica bem de acordo com os meus 64 anos.
A onda azul na América Latina precisa do Brasil ou será marola. A joça verde-amarela representa um terço do PIB da região e, junto com o México, que permanece no vermelho com a presidente Claudia Sheinbaum, mais da metade de toda a riqueza produzida no subcontinente.
Já o contrário não é verdade. Vivemos de costas para o estrangeiro, em especial para essa gente que fala espanhol aqui ao lado, desprovida de sex appeal, a não ser a barba de boneco Falcon, mas isso parece, sei lá, um tantinho gay.
Eleitor brasileiro nunca deu bola para o que acontece além das nossas fronteiras, a não ser quando o além das nossas fronteiras resolve meter o bedelho aqui, como é o caso de Trump. Aí, a gente sobe nas tamancas da soberania. Ninguém pode dar lição aos brasileiros de como arruinar o próprio país.
Surfar a onda azul não parece, assim, boa ideia para Flávio impulsionar a sua candidatura. Especialmente, ao lado de Javier Milei, que deixou de ser bom garoto-propaganda e faz correr o risco de o inútil virar danoso.
Pois é, rapaz, eu também achava que Milei estava indo bem, mas, no máximo, ele está fazendo o possível — e o possível não é suficiente para a Argentina dopada de peronismo.
Anote aí, Sidônio: a taxa de desemprego argentina atingiu o pior nível desde a pandemia, a informalidade continua a grassar, os aposentados estão à míngua e o cálculo da inflação não bate com a realidade dos pobres.
Como a luz no fim do túnel peronista apontada por Milei parece cada vez mais longe para milhões dos seus concidadãos, é melhor o estadista Flávio não escapar para a Argentina. Vamos fugir pra outro lugar, baby.



