Mario Sabino

Sobre o discurso de Cármen Lúcia contra as redes sociais

O discurso da ministra Cármen Lúcia no TSE não primou pela serenidade. É como se as redes fossem o maior problema da nossa democracia

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

IGO ESTRELA/METRÓPOLES @igoestrela
Cármen Lúcia - Metrópoles
1 de 1 Cármen Lúcia - Metrópoles - Foto: <p>IGO ESTRELA/METRÓPOLES<br /> @igoestrela</p><div class="m-banner-wrap m-banner-rectangle m-publicity-content-middle"><div id="div-gpt-ad-geral-quadrado-1"></div></div>

O discurso de posse da ministra Cármen Lúcia na presidência do TSE não primou pela serenidade. Ao que tudo indica, teremos outra eleição marcada pela excessiva ingerência do tribunal nas campanhas e nas redes sociais.

As redes sociais, aliás, são alvo de uma raiva que começa a adquirir até feições de ódio da parte dos ministros do STF. Parece que elas só divulgam fake news, o que está  longe de ser realidade.

A nocividade das redes sociais têm contrapartida que a ultrapassa em muito. Para bilhões de pessoas, elas são fonte de informação confiável, cultura, ótimo entretenimento, discussão produtiva e meio de estabelecimento de amizades.

Ainda que nos apeguemos apenas ao lado nocivo das redes sociais, e ele existe fortemente, não é  recomendável tratar o assunto com destempero, especialmente se você é juiz.

Tome-se esta fala da ministra:

“Máquinas e telas são apenas coisas – poderosas, algumas. É preciso que sejam usadas para o bem das pessoas, e podem ser usadas, o que não se pode é aceitar o mau uso, o abuso das máquinas falseadoras que nos tornaram cativos do medo com suas mensagens falsas, porque se não rompermos o cativeiro digital, chegará o dia em que as próprias mentiras nos matarão.”

Cativeiro digital? Será que o verdadeiro cativeiro não está fora do mundo digital, com os seus carcereiros que usam de heterodoxias para torcer a lei, condenar, ameaçar, censurar e prender, não necessariamente nessa ordem? 

Em outro trecho do seu discurso, Cármen Lúcia disse: 

“A mentira espalhada pelos poderosos ecossistemas das plataformas é um desaforo tirânico contra a integridade das democracias. Um instrumento de covardes e egoístas.”

Não deixa de ser interessante associar o substantivo desaforo com o adjetivo tirânico, mas não entendi o significado dessa junção. O que é um desaforo tirânico? É desaforo feito por tiranos e, portanto, que se deve levar para casa sem resposta? E quem está tiranizando quem no Brasil? Talvez a ministra não saiba, mas há controvérsias a respeito.

Cármen Lúcia ainda afirmou: 

“O que distingue este momento da história de todos os outros é o ódio e a violência agora usados como instrumentos por antidemocratas para garrotear a liberdade, contaminar escolhas e aproveitar-se do medo como vírus e adoecer pela desconfiança cidadãs e cidadãos.”

Não é bem assim. O método é antigo. Para ficar no exemplo mais evidente, um alemão com bigodinho esquisito usou o ódio e a violência para garrotear a liberdade, contaminar escolhas e aproveitar-se do medo como vírus e adoecer pela desconfiança cidadãs e cidadãos. Só que o lado do amor, da confiança e da democracia não havia redes sociais para tentar desmascará-lo.

Nas eleições passadas, certas verdades não puderam ser ditas porque foram consideradas fake news. Por exemplo, a de que o PT apoia a ditadura cubana. Ao mesmo tempo, mentiras ganharam corpo, como a de que as urnas eletrônicas foram fraudadas para que Lula vencesse Jair Bolsonaro — e deu no que deu, em 8 de janeiro de 2023.

Talvez haja nexo entre proibir verdades como se fossem mentiras e mentiras se espraiarem como se fossem verdades. Acho que está na hora de fazermos uma reflexão sobre o assunto. E de pensarmos sobre se a falta de serenidade em relação às redes sociais, como se elas fossem o grande problema da democracia brasileira, não leva muita gente a pensar — erroneamente, claro — que a nossa Justiça  tem lado. 

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comMario Sabino

Você quer ficar por dentro da coluna Mario Sabino e receber notificações em tempo real?