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Mario Sabino

Se Michelle existe, nem tudo é possível para os irmãos Bolsonaro

Faltou mãe, faltou madrasta, aos irmãos Karamazov; não falta aos irmãos Bolsonaro, como mostra a recente vitória de Michelle

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Flavio, Michelle, Eduardo e Carlos Bolsonaro -- Metrópoles
1 de 1 Flavio, Michelle, Eduardo e Carlos Bolsonaro -- Metrópoles - Foto: Artes sobre fotos do Metrópoles

Os irmãos Bolsonaro são a versão tropicalizada dos irmãos Karamazov, de Dostoiévski. Há certo drama nesses personagens de chanchada, nos quais a fé e a culpa tentam esconjurar o desejo de matar o pai — desejo inconsciente e no plano simbólico, bem entendido — para libertar-se dele e sucedê-lo.

No romance, os irmãos Karamazov testam a premissa de que se Deus não existe, tudo seria possível; na realidade política brasileira, os irmãos Bolsonaro partiram da suposição de que, como Jair está preso, seria possível neutralizar Michelle, a madrasta que pretende alçar voo no horizonte brasiliense.

Só que, assim como Deus provou existir aos irmãos Karamazov, na forma de castigo e esperança, pai e madrasta demonstraram aos irmãos Bolsonaro que ambos não se tornaram café com leite.

As hienas do Centrão já estavam rindo do que seria a “imaturidade” de Michelle, mas ela ficou ainda mais forte depois de ganhar a parada sobre a aliança do PL com o PSDB de Ciro Gomes, no Ceará, costurada pelas hienas e pelos filhos de Bolsonaro para vencer o PT no estado.

Seria uma traição a Eduardo Girão, bolsonarista convicto, embora do Novo, que lançou a pré-candidatura a governador e aparece mal colocado nas pesquisas eleitorais. A traição representava um problema para Michelle, mas não era o único, nem o principal.

Ela ficou mesmo indignada com o partido e os filhos de Bolsonaro terem aceitado compor-se com quem chamou Jair de “ladrão de galinha” (desaforo agravante no universo da ladroagem), é “um perseguidor maledicente”, “não é e nunca será de direita” e, pecado duplamente mortal, orgulha-se de ser autor da petição ao TSE sobre a reunião do então presidente com embaixadores, promovida para esculhambar as urnas eletrônicas, que resultou na inelegibilidade do seu marido.

De fato, um bolsonarista que passasse por cima desse currículo de Ciro Gomes, em nome do pragmatismo, não poderia nunca mais criticar a falta de convicções de Geraldo Alckmin, que se tornou vice de Lula, a quem acusava de “querer voltar à cena do crime”, o Palácio do Planalto.

Os irmãos Bolsonaro acharam que Michelle seria desautorizada pelo pai, avalista da aliança com Ciro Gomes, e que, consequentemente, perderia fôlego para ser vice na chapa presidencial bolsonarista, em 2026. Jair Bolsonaro, contudo, mudou de ideia, concordou com Michelle, disse que não admitia conspirações contra a mulher e retirou o seu aval ao acordo.

A madrasta venceu e ainda levou como troféu um pedido de desculpas do enteado Flávio, isso depois de lhe passar um sabão. Em sinal de reconciliação, os dois se abraçaram, rezaram juntos, e ele até chorou, veja só, segundo foi publicado. Agraciado com a benção da poderosa e absoluta, Eduardo Girão a chamou de “leoa”.

Faltou mãe, faltou madrasta, aos irmãos Karamazov; não falta aos irmãos Bolsonaro. Se Michelle existe, nem tudo é possível para eles, ao menos por enquanto. A leoa é que controla os domadores.

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