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Mario Sabino

Em dia de debate entre Flávio e Lula, prefiro falar de um francês honesto

Diante do factoide da quebra de sigilos inventada por Lula e abraçada por Flávio, resolvi falar um pouco de Charles de Gaulle

23/10/2026 12:09
Reprodução/Istagram
Montagem com fotos coloridas de Lula e Flávio Bolsonaro

Este é o último artigo que escrevo antes da votação do segundo turno. Quando voltar a escrever, já saberemos se o Brasil continuará a insistir no mesmo erro, Lula, ou se resolveu mudar de equívoco, elegendo Flávio Bolsonaro e consertando um pouco a economia.

Diante do factoide da quebra de sigilos inventada pela campanha de Lula e abraçada pela de Flávio, resolvi falar um pouco de um presidente de verdade, o general francês Charles de Gaulle, que morreu no já longínquo ano do Senhor de 1970, dias antes de completar nove décadas de vida.

De Gaulle visitou o Brasil em 1964, seis meses depois do golpe militar, para selar o fim da chamada Guerra da Lagosta (procure no Google), uma ridicularia pesqueira que quase degenerou em conflito armado.

A minha avó divertia-se com a história de que os anfitriões brasileiros precisaram improvisar uma cama para o 1m96 de altura do general — altitude da qual ele gostava de proclamar “la grandeur de La France”, a grandeza da França, desde que, refugiado em Londres, comandou a resistência francesa aos invasores nazistas. Atenuou, assim, a vergonha colaboracionista do Marechal Pétain.

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Credita-se a De Gaulle uma frase que ele jamais disse, mas que poderia ter dito: “o Brasil não é um país sério”.  A frase, na verdade, saiu da boca de um brasileiro atilado, Carlos Alves de Souza Filho, embaixador em Paris quando ocorreu a Guerra da Lagosta.

É que o general De Gaulle era um frasista e tanto. Uma das suas frases famosas é “a política é uma coisa séria demais para ser confiada aos políticos”; outra é “como vocês querem governar um país onde há 258 tipos de queijo?” (o número varia conforme a fonte).

A depender do dia, a minha preferida pode ser “o fim da esperança é o começo da morte”, com a qual tento superar o pessimismo dos dias muito ruins, ou “a dificuldade atrai o homem de caráter”, que gosto de repetir quando acordo mais quixotesco.

Há ainda uma terceira boa para dizer a amigos atolados em problemas: “entre o possível e o impossível, há somente duas letras e um estado de espírito”.

Eu nutria antipatia por De Gaulle quando morava em Paris. Sempre que passava pela estátua dele, ali perto do Grand Palais, era tomado por certa indignação com o nacionalismo que havia construído uma estátua tão grande na forma e no pedestal para o general da terra — e reservado uma relativamente pequena e quase ao nível do chão, perto do Petit Palais, para quem realmente venceu os nazistas e salvou a França, o inglês Winston Churchill. Menos mau que a avenida ali leva o nome do primeiro-ministro.

Quem desfez a minha antipatia em relação a De Gaulle foi um inglês, veja só, o historiador Julian Jackson, autor de uma biografia que foge da hagiografia habitual feita por autores franceses, sem demonizar o biografado.

É fascinante acompanhar, por meio da narrativa de tom jornalístico de Jackson, o general que resistiu a Hitler e que redemocratizou a França. O presidente que enfiou os franceses na guerra perdida da Indochina e que fez do seu país uma potência nuclear. O estadista que cedeu a Argélia aos argelinos e que enfrentou quase uma guerra civil por causa disso. O cabeça-dura que tentou se contrapor à hegemonia americana na Europa. O homem de pulso firme que ainda teve de se haver com a agitação revolucionária de 1968.

Jackson contabilizou 3.600 logradouros públicos na França batizados com o nome de De Gaulle. Ele está à frente de Louis Pasteur (3.001) e de Victor Hugo (2.258).

Não é para menos. Em 2010, uma pesquisa de opinão mostrou que os franceses consideravam De Gaulle o personagem mais importante da sua história, muito à frente de Napoleão Bonaparte. Direitistas, centristas e esquerdistas o admiram e o odeiam por motivos diferentes.

Não que ele fosse um camaleão oportunista, longe disso. De Gaulle simplesmente se moldava às realidades que se impunham. Como disse um colaborador seu a um sujeito preocupado com a possibilidade de ele se tornar ditador durante a Guerra da Argélia, “De Gaulle não é um general, mas um campo de batalha”.

É uma formulação invejável, daquelas que só podem ser produzidas por uma cultura literária que nos deu um Balzac, um Flaubert, um Maupassant. “Ele quis dizer que o resultado seria determinado não só pelas decisões tomadas por De Gaulle, mas pelas forças políticas sobre as quais ele tinha controle limitado”, escreve o biógrafo Jackson.

Mas desçamos aos tristes trópicos, este campo de flagelados. Ia dizendo que estava lendo e ouvindo sobre o factoide da quebra de sigilos inventada pela campanha de Lula e abraçada pela de Flávio para o debate de hoje à noite, quando me lembrei de De Gaulle.

Explico: a vida dele era um livro aberto do ponto de vista contábil. Dificilmente haverá alguém mais honesto, incorruptível e cioso do dinheiro público.

Na presidência da França, De Gaulle se recusava a fazer uso particular de um centavo do dinheiro do pagador de impostos.

Ele instalou um relógio de eletricidade separado na ala privada do Palácio do Eliseu para pagar a sua própria conta de luz. A conta dos seus telefonemas privados, bem como os da sua mulher, Yvonne, eram pagas com o seu salário, assim como a comida da família e até os selos das cartas pessoais.

A louça de uso cotidiano nos apartamentos privados do Palácio do Eliseu era comprada por Yvonne para evitar usar a louça oficial, utilizada apenas nos almoços e jantares de trabalho e nas recepções a chefes de Estado estrangeiros e outros convidados da República.

Mais: ele congelou o seu salário de presidente durante os 11 anos de mandato e, ao sair do poder, recusou-se a  receber a aposentadoria destinada a ex-presidentes. Passou a viver com a pensão de general.

Sujeito formidável, o De Gaulle, era da sua natureza governar pelo exemplo. Pena que a sua França, hoje mais uma vez conflagrada, esteja adquirindo traços do Brasil dessa gentinha aí, que nunca será um país sério.