Ao peitar Mendonça, o diretor-geral da PF flerta com a obstrução de Justiça
Quem aponta para essa irresponsabilidade com André Mendonça é o entorno do advogado-geral da União, Jorge Messias

No Brasil, inventou-se o chefe de polícia que não obedece a juiz, em outro capítulo da história nacional da infâmia. Estou falando, outra vez, da quebra de hierarquia do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, na relação com André Mendonça.
Ele continua a peitar o ministro. Soube-se ontem que o diretor-geral da PF insiste que a Advocacia-Geral da União parta para cima de André Mendonça, alegando que ele “interferiu” na corporação ao ordenar que todos os dados brutos da investigação sobre a fraude no INSS, da qual derivou o caso Lulinha, sejam entregues ao seu gabinete, bem como que todas as mudanças na equipe de investigação lhe sejam previamente comunicadas.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, resiste a investir contra o ministro, cujas ordens continuam sendo insolentemente ignoradas por Andrei Rodrigues. O AGU tenta resolver na base do diálogo uma questão que só existe em um país onde os princípios e as regras foram parar no lixo.
Não se trata simplesmente de reconhecimento do AGU pelo apoio que o ministro deu à indicação do seu nome para o Supremo — indicação derrotada no Senado por obra magna de Davi Alcolumbre e Alexandre de Moraes.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA resistência é principalmente porque Jorge Messias não quer flertar com a acusação de obstruir a Justiça, assim como faz Andrei Rodrigues, que tem as costas aquecidas por Alexandre de Moraes e demais políticos do STF.
A jornalista Roseann Kennedy é quem conta sobre a situação mais do que delicada, perigosa, em que colocaram o AGU:
“Aliados de Messias ressaltam que seria impossível aceitar o pedido de Andrei, pois Messias poderia ser acusado de tentativa de obstrução de Justiça. O entendimento encontra amparo na opinião de juristas e criminalistas.
Naquele momento (o do pedido do diretor-geral da PF), nem tinham sido reveladas ainda as relações da lobista com o ex-chefe de gabinete do presidente Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Hoje, diante das revelações, a acusação de obstrução poderia atingir o presidente da República. Afinal, a relação é instantânea: o AGU é o advogado do presidente da República e teria agido para interferir em um inquérito que tem o próprio filho de Lula entre os alvos.
‘Era uma armadilha’, resume um amigo muito próximo de Messias e com trânsito no Planalto. E complementa: não perceberam que aquela solicitação iria explodir no colo de Lula.”
A desobediência do diretor-geral da PF é, portanto, um desserviço ao funcionamento da Justiça e também a quem ela pretende beneficiar. Em bom francês, é uma esculhambação sem precedentes.




