Mario Sabino

A sala VIP da Justiça do Trabalho e essa gentinha problemática

O Tribunal Superior do Trabalho vai construir uma sala VIP para os ministros no aeroporto de Brasília. Faz bem: brasileiros criam problemas

atualizado

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Rafaela Felicciano/Metrópoles
Pessoa segurando carteira de trabalho igualdade salarial - Metrópoles
1 de 1 Pessoa segurando carteira de trabalho igualdade salarial - Metrópoles - Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

O Tribunal Superior do Trabalho vai construir uma sala VIP, reservada aos seus 27 ministros, no aeroporto de Brasília, ao preço de R$ 1,5 milhão.

Eles também poderão contar com acompanhamento pessoal durante o tempo em que permanecerem no aeroporto, além de carro privativo para não terem de entrar no avião pela ponte de embarque.

Nessa montanha de dinheiro, não estão incluídos mobiliário, bufê e alimentação de funcionários.

O jornalista Raphael di Cunto questionou o TST sobre o motivo da construção da sala VIP e recebeu uma nota com a seguinte resposta:

“A forma como eram realizados os embarques e desembarques aéreos das autoridades propiciava a aproximação de indivíduos mal-intencionados ou inconvenientes, o que aumentava significativamente os riscos evitáveis para essas autoridades.”

Ninguém de bom senso quer ver juiz nenhum, de nenhum tribunal, correr riscos evitáveis ou inevitáveis. Mas seriam esses riscos tão frequentes assim para justificar gasto tão expressivo, pago também por essa gente mal-intencionada ou inconveniente?

Tenho cá para mim que a cúpula da Justiça brasileira adquiriu algo mais do que espírito de corpo. Ela mostra ter agora espírito de casta.

Os salários altíssimos, as regalias monárquicas, o poder absoluto, tiveram esta consequência sociológica natural: os juízes dos tribunais superiores se acreditam também superiores aos demais cidadãos e, portanto, acham-se no direito de ficar apartados do vulgo, naquele tipo de apartheid que realça a graça e a elegância da elite nacional. Como dizem os franceses, noblesse oblige.

Pensando bem, é compreensível que eles temam a massa de brasileiros, e não apenas porque estão na ponta da pirâmide social. Afinal de contas, estamos sempre criando problemas.

Os magistrados sacrificam carreiras na iniciativa privada, certamente brilhantes e bem remuneradas, para se dedicar ao trabalho público, como já disse o ministro Luís Roberto Barroso. E o que fazemos nós? Não reconhecemos o desprendimento e criticamos a gaita que eles recebem por ano, veja só.

Compomos, ainda, “uma ágora de 213 milhões de pequenos tiranos”, como apontou a ministra Cármen Lúcia, coitada, que se vê obrigada, assim, a renunciar provisoriamente dia sim, outro também ao “cala a boca já morreu”,  do qual é defensora intransigente. Tsc, tsc.

Diante da necessidade urgentíssima de conter os nossos ímpetos tirânicos, o abnegado STF fez uso da sua atribuição de “editor de uma nação inteira”, na definição cirúrgica do ministro Dias Toffoli, e instituiu a censura prévia nas redes sociais, a título de regulação, indo contra as profundas convicções democráticas do tribunal. Imagine-se a dor.

Para completar o rol dos nossos defeitos incorrigíveis, há, entre nós, indivíduos mal-intencionados e inconvenientes que ameaçam ministros do TST e os levam a ter de construir uma sala VIP no aeroporto de Brasília. Somos mesmo uma gentinha problemática.

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