
Mario SabinoColunas

A pergunta certa é: por que Toffoli parece querer ajudar o Master?
O que importa no jornalismo é fazer a pergunta certa. E a pergunta certa é: por que Toffoli parece empenhado em ajudar o Master de Vorcaro?
atualizado
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Mais do que em qualquer outro aspecto da vida, à exceção da medicina, o que importa no jornalismo é fazer a pergunta certa. E a pergunta certa a ser feita no caso do Banco Master é: por que Dias Toffoli parece empenhado em ajudar Daniel Vorcaro?
Se não, recapitulemos os passos do ministro nesse sentido. Será a minha retrospectiva 2025.
Toffoli lançou mão de um pretexto mixuruca oferecido pela defesa do “banqueiro” — uma proposta de negócio imobiliário, encontrada na casa de Vorcaro, em que aparece o nome de um deputado federal — para puxar para a sua alçada no STF as investigações sobre as operações com títulos podres perpetradas pelo banco para obter bilhões de reais junto ao BRB, para o qual Vorcaro queria vender o Master.
Na sequência, no mesmo dia em que viajou a Lima na companhia do advogado de um diretor do Master, Toffoli decretou sigilo completo sobre as investigações e ordenou que nada prosseguisse sem a sua autorização.
Para completar, o ministro inventou uma acareação sem pé nem cabeça, antes que houvesse qualquer depoimento dos envolvidos, entre o investigado Vorcaro, o investigado ex-presidente do BRB e um diretor do Banco Central, que não deveria figurar em investigação nenhuma.
O espanto aumentou entre os já pasmos espectadores do imbróglio, porque não há nada de remotamente normal em o BC ter de prestar satisfação a um ministro do STF (ou a um ministro do TCU, estranheza adicional nessa história) sobre a liquidação de um banco.
A acareação foi vista pelo BC, pelo setor financeiro, bem como por brasileiros ainda capazes de ligar lé a cré, como intimidação contra a instituição que selou o destino do Master. A avaliação geral é que o ministro estaria fazendo pescaria para achar uma brecha que lhe permitisse anular a liquidação do banco.
Diante da repercussão negativa, com o BC tentando evitar o absurdo de ver um diretor seu colocado no mesmo plano dos investigados, Toffoli mudou de ideia e decidiu que a PF tomaria os depoimentos de todos em etapa anterior a eventual acareação.
O atropelo do ministro é tamanho que houve confusão entre a delegada da PF responsável por conduzi-los e o juiz auxiliar do gabinete de Toffoli destacado para acompanhá-los. Ela ainda achava que a sua tarefa era acarear, porque a PF não foi informada com a devida formalidade da mudança determinada pelo ministro.
Diante do impasse, foi preciso ligar para Toffoli. Resolvido o ponto, o juiz auxiliar repassou à delegada perguntas formuladas pelo ministro.
Houve outro quiproquó, já que juiz não deveria fazer o papel de investigador, e delegados não podem funcionar como bonecos de ventríquolo de ninguém. Ocorreu, então, um segundo telefonema, agora para o diretor-geral da PF.
A saída para mais essa esculhambação do sistema acusatório, teoricamente em vigor no país, foi fazer a ressalva de que as perguntas entregues à delegada pelo juiz auxiliar eram da lavra de Toffoli.
Finalmente tomados, os depoimentos trouxeram o esperado, com Vorcaro dizendo que é a alma mais honesta do Brasil, o ex-presidente do BRB afirmando que não havia nada de errado nos procedimentos que visavam à aquisição do Master, e o diretor do BC dizendo que a liquidação se justificava. Ao final, houve apenas uma acareação de meia hora entre os dois primeiros, que mostraram ter “percepções distintas sobre os mesmos fatos”, segundo a defesa do ex-presidente do BRB.
Não se sabe quais serão os próximos passos de Toffoli. Ele vai insistir no suposto objetivo de anular a liquidação do Master ou vai se concentrar apenas em garantir que um inocentíssimo Vorcaro não seja preso pelas fraudes que o seu banco perpetrou?
De qualquer modo, tais questões são decorrentes da pergunta certa a ser feita: por que Toffoli parece empenhado em ajudar Daniel Vorcaro?
PS: desejo 129 milhões de motivos para você ser feliz em 2026.