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Manoela Alcântara

O que é o "cristofascismo bolsonarista" usado em pesquisa da Ufes

Expressão é utilizada por parte da academia para analisar a relação entre religião e o movimento político ligado ao ex-presidente Bolsonaro

26/06/2026 09:40, atualizado 26/06/2026 17:32
Divulgação/Ufes
O que é o “cristofascismo bolsonarista” usado em pesquisa da Ufes

A expressão “cristofascismo bolsonarista”, utilizada em um projeto que será desenvolvido por um professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), é empregada por parte da academia para analisar a relação entre determinados segmentos do cristianismo e o movimento político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Conforme a coluna revelou, o professor da Ufes Vitor Cei irá a Lisboa, em Portugal, para desenvolver um projeto que analisa os primeiros romances de Machado de Assis à luz do “cristofascismo bolsonarista”.

O termo “cristofascismo” não é um conceito jurídico nem uma classificação oficial. A expressão também não integra os principais dicionários da língua portuguesa e circula principalmente em estudos acadêmicos sobre religião e política.

Nesses estudos, o conceito é utilizado para descrever a associação entre determinadas correntes do cristianismo e projetos políticos de caráter autoritário, por meio do uso de símbolos, discursos e referências religiosas para legitimar ações e agendas políticas.

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A expressão foi cunhada pela teóloga alemã Dorothee Sölle, na década de 1970, para analisar a relação entre igrejas cristãs e o regime nazista na Alemanha.

Décadas depois, pesquisadores brasileiros passaram a adaptar o conceito ao contexto nacional. Entre eles está o teólogo Fábio Py, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), autor de estudos que utilizam a expressão “cristofascismo brasileiro” para analisar aspectos do movimento político ligado ao ex-presidente e da relação entre religião e política no país.

Em nota encaminhada à coluna, o professor informou que o projeto de pesquisa foi aceito pela Universidade NOVA de Lisboa antes da concessão da licença pela Ufes. O estudo será desenvolvido no Instituto de Filosofia da instituição portuguesa, sob supervisão do filósofo João Constâncio, diretor do instituto (leia a íntegra ao fim da reportagem).

“O aceite comprova não apenas a relevância do tema como a credibilidade do projeto de pesquisa, que será supervisionado pelo professor Dr. João Constâncio, diretor do Instituto de Filosofia da Universidade NOVA de Lisboa e filósofo português reconhecido internacionalmente”, escreveu.

Procurada, a Ufes informou que a licença para capacitação foi aprovada pela Câmara e pelo Conselho do Departamento de Letras, ao qual o professor é vinculado, antes de ser encaminhada à Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas e formalizada pela Reitoria (leia a nota completa abaixo).

“Cabe ressaltar ainda que o projeto de pesquisa do professor foi aceito pela Universidade Nova de Lisboa, instituição de reconhecida relevância acadêmica e internacional”, informou a instituição.

Pesquisa

O professor foi autorizado pelo reitor da Ufes, Eustáquio Vinicius Ribeiro de Castro, a desenvolver um projeto de pesquisa em Portugal.

O estudo analisa os primeiros romances de Machado de Assis à luz do “cristofascismo bolsonarista”, conforme portaria publicada no Diário Oficial da União (DOU).

Segundo o documento, a pesquisa tem o título “‘O trabalho surdo da destruição’: pessimismo cristão e niilismo nos primeiros romances de Machado de Assis à luz do cristofascismo bolsonarista”.

O afastamento foi concedido na modalidade de licença para capacitação e terá duração de 90 dias, entre 1º de setembro e 29 de novembro deste ano.

Durante o período, o docente desenvolverá as atividades no Instituto de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, em Portugal.

A licença foi concedida com ônus limitado para a Ufes. Nessa modalidade, o servidor mantém a remuneração do cargo, mas a universidade não arcará com diárias nem passagens.

Nota da Ufes

A coordenação do Departamento de Letras, ao qual o professor Vitor Cei Santos está vinculado, informa que licenças solicitadas por servidores docentes são encaminhadas para aprovação pela Câmara Departamental, que analisa o requerimento em reunião e, posteriormente, se aprovada, encaminha para aprovação em reunião do Conselho Departamental.

Em caso de aprovação pelo Conselho, a solicitação é encaminhada à Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas da Universidade. Se o pedido for indeferido, retorna ao servidor com as razões nos autos.

O Departamento de Letras destaca que a licença capacitação é um direito – previsto no artigo 81 da Lei nº 8.112/1990 e no Decreto nº 9.991/2019 que dispõe sobre a Política Nacional de Desenvolvimento de Pessoas – concedido ao servidor pelo prazo de até 90 dias, após cada quinquênio de efetivo exercício, sem prejuízo da remuneração do cargo, para participar de ações de desenvolvimento.

Cabe ressaltar ainda que o projeto de pesquisa do professor foi aceito pela Universidade Nova de Lisboa, instituição de reconhecida relevância acadêmica e internacional. 

Nota do professor

O Reitor da Universidade Federal do Espírito Santo só pôde liberar o Prof. Dr. Vitor Cei Santos porque antes a Universidade NOVA de Lisboa, instituição portuguesa de reconhecida relevância acadêmica e internacional, classificada entre as três melhores de Portugal e posicionada entre as melhores instituições de ensino superior do mundo em diversos rankings, aceitou receber o projeto de pesquisa intitulado “O trabalho surdo da destruição”: pessimismo cristão e niilismo nos primeiros romances de Machado de Assis à luz do cristofascismo bolsonarista. O aceite comprova não apenas a relevância do tema como a credibilidade do projeto de pesquisa, que será supervisionado pelo Prof. Dr. João Constâncio, diretor do Instituto de Filosofia da  Universidade NOVA de Lisboa e filósofo português reconhecido internacionalmente. 

O projeto de pesquisa sobre Machado de Assis à luz do cristofascismo bolsonarista é baseado em extensas pesquisas e publicações prévias do Prof. Dr. Vitor Cei nos últimos dez anos, dentre as quais destacam-se os livros Metafísica de Carrasco (Catraia, 2026) e A voluptuosidade do nada: niilismo e galhofa em Machado de Assis (Annablume, 2026). O livro de 2016 é resultado da tese de doutorado do autor, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais, com intercâmbio na Universidade Livre de Berlim.

O intercâmbio, importante para a internacionalização da Educação Superior brasileira, contará com financiamento estadual por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo – FAPES, por causa de aprovação em processo seletivo regido por edital público, no qual o Prof. Vitor Cei concorreu com 14 docentes de todas as áreas do conhecimento, tendo obtido o segundo lugar geral por mérito do currículo e do projeto, conforme as normas do edital. Esse dado é relevante porque demonstra que a concessão do financiamento decorreu de processo seletivo acadêmico, com avaliação comparativa entre os pares, e não de favorecimento pessoal ou decisão ideológica.