
Lucas PasinColunas

Marjorie Estiano revela violências sofridas ao falar de Ângela Diniz
Atriz Marjorie Estiano comenta impacto pessoal ao interpretar socialite Ângela Diniz e diz que já viveu violências de gênero
atualizado
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Um crime que movimentou a sociedade brasileira no final da década de 1970 volta a ser assunto com o lançamento da série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, que chega ao HBO Max nesta quinta-feira (13/11). No papel principal da produção, que é dirgida por Andrucha Waddington, Marjorie Estiano revisita a história da socialite morta por seu então namorado, o empresário Doca Street.
Durante entrevista coletiva nesta terça-feira (11/11), que este colunista do Metrópoles participou, Marjorie refletiu sobre a importância de dar vida a uma mulher que desafiou padrões e pagou um preço alto por isso. A atriz destacou como o papel de Ângela Diniz ultrapassa a narrativa de um crime e se conecta a questões culturais e sociais ainda presentes no Brasil, especialmente sobre liberdade feminina, culpa e prazer.
“Ter feito a Ângela, uma personagem que se dedica ao prazer é algo muito importante na cultura brasileira. A gente sente a culpa de sentir prazer, de tirar férias, de se divertir… A Ângela se autorizava a se dar prazer, a se oferecer liberdade. Isso é um ensinamento muito importante, para todos nós. Me identifico muito com essa falta de autorização de prazer, de liberdade. Para mim a vida sempre foi muito trabalho, compromisso e seriedade. Foi uma oportunidade de me experimentar na leveza. É um processo e exercício para a vida inteira.”
Marjorie também destacou como o processo de construção da personagem despertou nela novas percepções sobre a condição feminina e sobre a estrutura social que ainda perpetua desigualdades.
“Foram muitas coisas que viver essa personagem me trouxe e continua me trazendo: consciência histórica sobre a luta pelo direito das mulheres, a consciência sobre o impacto e a força de uma formação de gênero, de uma sociedade machista. Quando você estuda sobre isso, você começa a enxergar melhor. Enxergar melhor a sociedade, a sua própria vida, as suas relações.”
Violência de gênero
Marjorie relacionou ainda a história de Ângela Diniz com as violências de gênero que ainda persistem na sociedade brasileira, além de ultrapassar a sua trajetória pessoal.
“É algo que me impacta diretamente, o fato de ser uma violência de gênero. Eu não só já sofri inúmeras, como vou continuar sofrendo. Porque essa é uma realidade, a gente está aqui justamente tentando trabalhar em uma reeducação, de uma transformação de pensamento, de sociedade. Essas transformações são mais lentas. A gente consegue comprovar isso de acordo com as leis. A teoria da legítima defesa da honra caiu em 2023.”
Liberdade feminina
A atriz também fez uma reflexão sobre a permanência da desigualdade de gênero e a necessidade constante de criação de novas leis de proteção às mulheres. Para Marjorie, esse cenário evidencia que a transformação social ainda é limitada e reforça o quanto sua personagem representa uma ruptura simbólica com padrões impostos às mulheres, tanto na vida real quanto na ficção.
“A gente continua tendo de fazer novas leis de proteção à mulher. O que reflete para mim que a mentalidade não mudou. A gente está precisando das leis, porque a gente continua sendo ameaçada. O fato de ser tão diretamente impactada, é um elemento que me trouxe um engajamento muito grande. O fato da personalidade da Ângela ser muito livre, muito dada ao prazer, a curtir a filha, a praia, os amigos, beber, festa, transar… Isso é inédito, inovador. Não só para as minhas personagens. De uma maneira geral, as personagens femininas não são construídas para sentir prazer, as personagens femininas estão sempre ali para sofrer.”
Aprendizado com Ângela Diniz
Por fim, Marjorie Estiano destacou que interpretar Ângela Diniz foi um processo contínuo de aprendizado e reflexão sobre o papel das mulheres e o que molda suas experiências. A atriz afirmou que o contato com a história da personagem ampliou sua percepção sobre desigualdades de gênero e sobre as próprias relações pessoais e profissionais.
“Foram muitas coisas que viver essa personagem me trouxeram e continuam me trazendo: consciência histórica sobre a luta pelo direito das mulheres, a consciência sobre o impacto e a força de uma formação de gênero, de uma sociedade machista. Quando você estuda sobre isso, você começa a enxergar melhor. Enxergar melhor a sociedade, a sua própria vida, as suas relações.”










