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Além dos apagões: como a Operação Ecossistemas do Cobre ataca a economia do crime

Furtos de cabos cresceram 25% no DF em 2026; PCDF mira lavagem de dinheiro e empresas de fachada para asfixiar o mercado bilionário do metal

Foto de Ronney Augusto MatsuiRonney Augusto Matsui
30/06/2026 16:41
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Imagem gerada por IA
Além dos apagões: como a Operação Ecossistemas do Cobre ataca a economia do crime

A imagem clássica do furto de cabos de cobre evoca um indivíduo isolado, alicate em mãos, agindo na escuridão da madrugada. No entanto, a Operação Ecossistemas do Cobre, deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) em 25 de junho, revela que essa cena é apenas a ponta visível e mais vulnerável de uma engrenagem financeira complexa.

O caso transforma a teoria da “economia do crime” em um diagnóstico empírico: o furto de cabos, responsável pelos apagões de serviços de internet, telefonia, energia, metrô e outros, impactando a vida de centenas de milhares de pessoas no DF, alimenta um mercado bilionário de lavagem de dinheiro, empresas de fachada e fraudes fiscais.

Segundo as investigações, o esquema operava por meio de dois núcleos interdependentes. O primeiro concentrava-se na receptação e na comercialização do metal furtado no DF. Empresas de sucata e reciclagem teriam recebido mais de R$ 45 milhões, em menos de um ano, de uma empresa de fachada sediada em Tocantins — tudo sem documentação fiscal que justificasse os repasses.

O segundo núcleo funcionava como a “fábrica” de legalização do produto. A polícia aponta que 21 empresas fantasmas baseadas no Distrito Federal, sem funcionários ou estrutura física, emitiram mais de R$ 1,4 bilhão em notas fiscais para a mesma firma tocantinense. O objetivo da fraude era duplo: dar aparência de legalidade ao cobre de origem criminosa e gerar créditos tributários falsos ao longo da cadeia logística.

Sequestro de bens

A resposta estatal também mirou o bolso da organização. A Justiça autorizou o sequestro de bens e valores que somam cerca de R$ 239 milhões, em uma ação coordenada que cumpriu mandados no DF e em outros estados.

Os suspeitos agora respondem por crimes que vão de organização criminosa e lavagem de dinheiro a falsidade ideológica e crimes tributários.

Essa investigação muda o eixo do debate sobre segurança pública. Em vez de tratar o problema como pequenos delitos de rua, a PCDF expõe um mercado estruturado com fluxos financeiros robustos, logística interestadual, precificação e concorrência ativa.

No ano passado, 2025, foram registradas 2.858 ocorrências de furto de cabos, média de 7,83 ocorrências por dia. Apesar de todo o esforço empregado com rondas das empresas nas suas redes, investimento em monitoramento eletrônico, intensificação do policiamento a partir de mapeamento de locais mais vulneráveis, investigação de crimes isolados etc., o crime aumentou em 2026.

Até o dia 25 de junho deste ano, foram registradas 1.711 ocorrências de furto de cabos. A média subiu para 9,77 casos por dia, um aumento de 24,9%.

Repressão eficiente

Fica evidente que prender apenas quem corta o fio é enxugar gelo. A repressão eficiente exige sufocar o ecossistema financeiro que torna o metal atraente. Ao confiscar patrimônio, investigar a lavagem de dinheiro e desestruturar as empresas “noteiras”, o Estado eleva o custo do crime e reduz a sua margem de lucro.

Verificamos, assim, que as soluções tradicionais aventadas não funcionaram, mas que a investigação das organizações criminosas envolvidas no processo deve surtir uma regressão destas ocorrências, com a implosão da cadeia de receptadores, peças fundamentais no processo de desfazimento do produto do crime e obtenção da vantagem financeira.

Na lógica econômica, um crime patrimonial persiste enquanto o ganho esperado supera o custo da punição. O criminoso avalia a facilidade do acesso, o valor de revenda e a chance real de ser preso. Se há um mercado estruturado pronto para absorver e “limpar” o metal, o furto torna-se uma atividade racional e escalável.

No Distrito Federal, as consequências desse cálculo são sentidas no cotidiano. A verdadeira vítima não é a concessionária de serviço público que repõe o material, mas o trabalhador que perde a conectividade, o comerciante impedido de trabalhar e o cidadão que transita por ruas escuras.

A virada de chave definitiva, contudo, depende de medidas regulatórias e administrativas integradas. É preciso criar mecanismos rígidos de rastreabilidade do cobre, fiscalizar de forma implacável os ferros-velhos e recicladoras e exigir a comprovação de origem do material em toda e qualquer transação comercial. Outras soluções, a exemplo da proibição temporária de envio de cobre para reciclagem fora do DF, foram propostas no artigo Furto de cabos de cobre e a economia do crime.

A lição que fica da Operação Ecossistemas do Cobre é pedagógica: enquanto o metal furtado puder ser convertido em dinheiro rápido e limpo, o crime continuará compensando. O jogo só muda quando a cadeia de receptação se tornar perigosa e cara demais para todos os envolvidos. No enfrentamento ao furto de infraestrutura, a pergunta central nunca deve ser apenas quem puxou o cabo, mas sim quem lucrou com ele.

  • Ronney Augusto Matsui é delegado na 30ª DP (São Sebastião), mestre em Governança e Desenvolvimento pela Fundação Escola Nacional de Administração Pública (Enap), ex-secretário adjunto da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e ex-subchefe adjunto de Segurança e Defesa na Subchefia de Análise e Acompanhamento de Políticas Governamentais