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Ilca Maria Estevão

Por que o termo "tomara que caia" pode ser banido da moda?

Entenda o movimento que defende o fim de expressões consideradas sexistas e aproveite para ver como aderir ao estilo de peças sem alças

10/03/2020 05:30, atualizado 10/03/2020 09:30
Dean Mouhtaropoulos/Getty Images
Celebridades em tapete vermelho de premiação

Com a expansão do feminismo e a conscientização da população mundial sobre diversos problemas estruturais, como o machismo, a moda também é impactada. Nesse contexto, algumas marcas e personalidades passaram a refletir sobre costumes obsoletos e lançaram um movimento pelo fim do uso de expressões consideradas sexistas. Uma delas é o “tomara que caia”, usado, durante décadas, para definir peças sem alças. Entenda por que o termo deve ser banido da indústria fashion e aproveite para conferir uma seleção inspiradora da coluna para aderir ao estilo.

Vem comigo!

Segundo Renata Soares, professora de Direito da Moda da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o termo “tomara que caia” surgiu em 1946, como uma variação de roupas íntimas, como os corpetes sem alças. “Rita Hayworth, atriz inesquecível de Hollywood, no filme Gilda, foi a primeira a usar um modelo ‘tomara que caia’ criado por Jean Louis”, destacou.

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“A década de 1950 exaltava a perfeição feminina e o luxo e apostava nos tailleurs formais com luvas, para o dia; e nos tubinhos, para a noite”, completou a pesquisadora.

Columbia Pictures/Sunset Boulevard/Corbis via Getty ImagesAtores em set de gravação do filme Gilda
Jean Louis criou um modelito de cetim para a atriz Rita Hayworth, no filme Gilda. Na foto, ela posa com Glenn Ford, colega de elenco
Columbia Pictures/Sunset Boulevard/Corbis via Getty ImagesAtriz em set de gravação do filme Gilda
Os tubinhos sem alça são uma variação dos corseletes, criados no século 16

Neste ano, aproveitando o timing do Dia Internacional da Mulher, celebrado no último domingo (08/03), a Hering promoveu uma série de ações sobre empoderamento. A label anunciou que vai abolir a expressão de toda a sua comunicação. A ideia é levantar um debate e incentivar outras empresas e pessoas a fazerem o mesmo.

A marca lembrou que “tomara que caia” só é falado no Brasil. Em inglês, por exemplo, a palavra usada é strapless. Em italiano: senza spalline. Já em espanhol, é sin tirantes. “Se existe um presente que as mulheres merecem todo dia, é respeito”, comunicou pelo Instagram.

“A origem do termo é popular, e próxima do significado que os portugueses deram ao modelo ‘cai, cai’, por ser de fácil deslizamento pelo corpo”, explicou Renata Soares, em entrevista à coluna.

Hering/Reprodução
A Hering lançou uma campanha pelo fim do termo “tomara que caia”

De acordo com Renata Soares, a linguagem tem origem, mas também adaptação. “Vivemos em um mundo de exaltação à igualdade, com razão. A troca do nome por ‘blusa de alça’ pode ser uma campanha para conscientização de comportamento, direitos, luta por uma causa. Acho válido”, afirmou a especialista.

Contudo, para ela, tudo depende do contexto da utilização da expressão. “Já dizia Iris Apfel, ícone da moda aos mais de 90 anos, que as ações são mais eloquentes dos que as palavras”, parafraseou Renata Soares.

“Se, por exemplo, tal modelo fosse usado em um enredo discriminatório ou sexista, deveria sim ser banido. Caso contrário, para descrever um modelo criado por um estilista e sua tradição no mundo da moda, talvez não”, analisou a professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Bettmann/via Getty ImagesAtores no set de gravação do filme Sabrina
Nos anos 1950, Audrey Hepburn vestiu visual sem alças para o filme Sabrina. Ela contracenou com William Holden
Bettmann/via Getty ImagesMarilyn Monroe posa com a perna levantada
Marilyn Monroe popularizou vários tipos de decote, inclusive nas peças sem alças e em trajes de banho

Além de organizar talks com líderes femininas e profissionais da moda sobre o assunto, a Hering lançou um modelo limitado de blusa sem alça. O lucro com o produto, disponível no e-commerce da etiqueta, será revertido para a ONG Bem Querer Mulher, que combate a violência contra a mulher e é apoiada pela ONU Mulheres.

Harpers' Bazaar/ReproduçãoAtriz Mariana Ximenes na capa da revista Harper's Bazaar de março de 2020
Parceira da campanha, a atriz Mariana Ximenes vestiu roupa com os dizeres “Isso não é um tomara que caia”, na capa da revista Harper’s Bazaar de março
Fernando Souza/Hering/Divulgação
A Hering promoveu bate-papos sobre a luta das mulheres

Nas redes sociais, o tema rendeu. Alguns internautas acusaram a Hering de querer fazer marketing com a causa feminista. Outros insistiram na ideia ultrapassada de que não há nada de errado em falar “tomara que caia”.

No entanto, muitos usuários elogiaram a iniciativa. “Aos poucos, a gente muda uma sociedade. Um passo de cada vez”, comentou uma follower no Instagram, por exemplo.

“Inacreditável que tem alguém reclamando de uma atitude positiva e com intuito de incentivar a sociedade a ver o corpo feminino de outra maneira e não de uma maneira sexual, tomara que minha blusa NÃO CAIA nessa sociedade machista, bye. Obrigada, Hering”, disse outra seguidora.

Instagram/Reproduçãocomentários no Instagram sobre a campanha da Hering pelo banimento do termo "tomara que caia"
Internautas parabenizaram e agradeceram pela ideia
Instagram/Reproduçãocomentários no Instagram sobre a campanha da Hering pelo banimento do termo "tomara que caia"
Seguidoras elogiaram a atitude da Hering

É importante lembrar que não se trata de parar de vestir peças sem alças. Blusas, vestidos, tops e croppeds aparecem com a estética. Os itens são interessantes e podem compor diferentes looks. Inspire-se!


Passarelas

Nas passarelas, os modelitos sem alça têm presença garantida. Na última temporada de desfiles, de outono/inverno 2020, marcas como Giambattista Valli, Christian Siriano, Moschino e Elie Saab investiram em diferentes versões do hit.

Na alta-costura, o setor mais luxuoso da moda, o visual também costuma aparecer. Chanel e Jean Paul Gaultier são exemplos de grifes que sempre aderem.

Victor Boyko/Getty ImagesModelo na passarela de Giambattista Valli
Na passarela de outono/inverno 2020 de Giambattista Valli, o vestido ganhou volume em tule
Pascal Le Segretain/Getty ImagesModelo na passarela de Elie Saab
As texturas podem ser variadas. Na catwalk da Elie Saab, de fall/winter 2020, as penas enfeitaram o modelito
Victor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty ImagesModelo na passarela de Christian Siriano
Christian Siriano inovou com vestido sem alça, mantendo a gola alta e a cobertura nos ombros
Thierry Chesnot/Getty ImagesModelo na passarela de
Vivienne Westwood mostra que o item sem alça pode até ter um decote profundo, para incrementar
Estrop/Getty ImagesModelo na passarela da Moschino
Quem disse que o item sem alça não pode ter mangas? Este visual é da Moschino
Stephane Cardinale - Corbis/Corbis via Getty ImagesModelo na passarela de Jean Paul Gaultier
Na alta-costura, o estilo costuma aparecer, como nesta composição com luvas de Jean Paul Gaultier
Rindoff/Charriau/Getty ImagesModelo na passarela da Chanel
Visual elegante, direto da passarela da Chanel

Celebridades

É claro que as roupas sem alças não poderiam faltar no guarda-roupa de várias famosas. Em passeios informais, eventos rebuscados e, principalmente, em tapetes vermelhos de premiações, os outfits sempre dão o que falar.

As Kardashian-Jenner não pensam duas vezes antes de aparecerem em eventos com vestidos strapless e silhueta marcada. Na lista de quem também dispensa as alças em várias ocasiões, estão Nicole Kidman, Charlize Theron, Zoë Kravitz, Kate Moss, Lady Gaga e Billy Porter.

Gary Gershoff/WireImage/via Getty ImagesKim Kardashian com vestido colado
O modelo de vestido que não tem alças e marca a silhueta já virou uma marca de Kim Kardashian
Allen Berezovsky/Getty ImagesKylie Jenner com vestido em evento
Kylie Jenner em evento da Vanity Fair, pós-Oscar 2020. Ela curte o estilo sem alças
Samir Hussein/WireImage/via Getty ImagesCharlize Theron com vestido roxo em premiação
No Bafta deste ano, Charlize Theron apostou em tonalidade vibrante e decote profundo
David Crotty/Patrick McMullan via Getty ImagesNicole Kidman de vestido em premiação
Nicole Kidman mergulhou no preto para o Critics’ Choice Awards deste ano
Steve Granitz/WireImage/via Getty ImagesZoë Kravitz com vestido e luvas em premiação
Zoë Kravitz, no SAG Awards 2020, complementou o outfit com luvas
Edward Berthelot/Getty ImagesKatie Holmes andando na rua
Katie Holmes investiu em saia rodada
Marc Piasecki/FilmMagic/via Getty ImagesKate Moss com crianças na praia
Kate Moss aderiu ao estilo, com franjas, para ir à praia
George Pimentel/WireImage/via Getty ImagesBilly Porter com vestido em premiação
No Critics’ Choice Awards 2020, Billy Porter apostou em vestido e usou tatuagens fakes para incrementar o visual

Street style

O street style em diferentes países também é ótima vitrine para se inspirar. Pelas ruas, as fashionistas surgem com composições variadas.

É possível perceber que o strapless é ótimo aliado de quem quer deixar o colo em evidência, mas também há quem prefira jogar um blazer ou casaco por cima, ou até usar a própria peça sem alça como sobreposição.

Matthew Sperzel/Getty ImagesMulher posa na rua
Mix interessante de pigmentos
Daniel Zuchnik/Getty ImagesMulher posa na rua
A sobreposição é uma boa ideia para quem quer deixar o look mais “modesto”
Hanna Lassen/Getty ImagesMulher posa na rua
O xadrez deixa o vestido mais charmoso
Edward Berthelot/Getty ImagesMulher posa na rua
Aqui, o outfit foi arrematado com um blazer nos ombros
Edward Berthelot/Getty ImagesMulher anda na rua
O cardigã faz par com o com o cropped lilás
Hanna Lassen/Getty ImagesMulher posa na rua
Nesta combinação, o vestido fica por cima da camisa social. Cool e chique!
Hanna Lassen/Getty ImagesMulher posa na rua
Plumas, com direito a adereço na parte superior
Mauricio Santana/Getty ImagesMulher posa no Rock in Rio 2019
Top sem alças e calça com fenda lateral
Edward Berthelot/Getty ImagesMulher posa na rua
Aqui, a blusa sem alça suaviza a proposta cintilante

A Coluna Ilca Maria Estevão aproveita o momento para informar que também deixará de usar o termo. A cada dia, nossa intenção de melhorar e contribuir para uma realidade igualitária, justa e harmônica aumenta. A sociedade passa por constantes mudanças significativas e os aprendizados serão sempre bem-vindos.

Colaborou Rebeca Ligabue